República das Repúblicas

Comum à esquerda e à direita é o efeito da pulverização e da polarização. Se o Presidente é um símbolo de união, estas presidenciais são a representação última da profunda divisão da República.

Existem 45 pré-candidatos à Presidência da República. A multiplicação dos candidatos tanto pode ser interpretada como desespero democrático, delírio democrático, nostalgia democrática. Desespero democrático porque se antecipa uma vitória antecipada das forças antidemocráticas e exteriores ao sistema. Delírio democrático porque a vulgata da participação política afirma que basta ser cidadão para transpirar competência política. Nostalgia democrática porque a ideia de um ou dois candidatos naturais à função presidencial ficou sem representação no espaço público vazio e a política não funciona com base no vazio. O número de candidatos não é um elogia da República porque representa o declínio da República.

Neste ponto, as elites do Regime, feitas e formadas no Regime, demitem-se da sua obrigação e responsabilidade em função de uma alternativa privada em que o conforto, uma posição social estável e uma compensação financeira superior à média é o destino natural de todas as elites. Esta interpretação das responsabilidades públicas representa a instrumentalização das carreiras políticas em função do sucesso das carreiras privadas. Não é nenhuma novidade na secular cultura política portuguesa. E a prova que resiste à história de que a política é apenas um modo oportunista de ascender na hierarquia social e no registo económico. Não há como negar a fuga e a deserção dos mais ilustres filhos da República.

O que estas Presidenciais nos oferecem é a política como nota-de-rodapé à história de um Regime que por incúria, cobardia, comodismo, recusa a responsabilidade de um momento perigoso. Os candidatos naturais ausentes acabam por se refugiar num silêncio dourado elaborado na periferia da vida social, um discurso político escondido nas margens do que pensamos que sabemos. O que sabem os mais ilustres filhos da República sobre o estado da Regime?

Longe da luz artificial do universo mediático, o discurso alternativo destas presidenciais representa o eco do tempo e da história de um país dividido entre a “nação de cima” e a “nação de baixo”. E a imaginação política produz imagens que ardem durante séculos e que se apagam depois subitamente e sem o prelúdio de um aviso prévio. Os 45 pré-candidatos são o lado esquecido de um país insolente, de um país irreverente, de uma nação impertinente, de uma nação impenitente, mas sempre a revelação de uma conjunção absurda entre a realidade de um país subversivo e a prática de um país obediente.

Mas uma República que se comporta deste modo não merece o benefício da dúvida e legitima a pulverização de candidatos em direcção à polarização absoluta.

Nestas presidenciais a esquerda revela a falta de uma legitimidade política e o esgotamento das doutrinas que serviam como alavanca política para uma certa superioridade moral na República. A esquerda perdeu votos, perdeu espaço, perdeu importância. A esquerda substitui o país pelos seus preconceitos sobre o país. A esquerda deixou de ter a maioria sociológica de um país e de um Regime nascido à esquerda. As presidenciais não conseguem o exercício de um “programa comum” e a esquerda multiplica-se numa galáxia de esquerdas sectárias. As movimentações tácticas não substituem a necessidade de reinventar uma cultura política em sintonia com os novos tempos e com o país real. A esquerda sonha com o Palácio de Belém como factor de refundação da esquerda e forma de recuperar a supremacia política. À esquerda as presidenciais são o expediente político para corrigir os anos de apatia e de estagnação que tiveram como consequência a irrelevância residual das ideias progressistas.

Nestas presidenciais a direita enfrenta uma situação política inédita na história do Regime – O domínio de uma maioria sociológica de direita. Com o cansaço democrático e a deriva para a direita de um país em busca de alternativas, a direita apresenta-se como força dominante no espaço público e representação dos novos horizontes do futuro. Esta súbita supremacia provoca uma forte competição no campo político com a afirmação de várias direitas alternativas. Existe uma direita que pretende a continuidade reformista do Regime, existe uma direita que procura a refundação radical do Regime. À direita as presidenciais são o grande momento político para poder garantir uma inédita supremacia ideológica sobre uma República que a esquerda sempre pensou e sonhou ser exclusivamente sua.

Comum à esquerda e à direita é o efeito da pulverização e da polarização. Se o Presidente da República é um símbolo de união, estas presidenciais são a representação última da profunda divisão da República.

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