Shakespeare. E o teletrabalho

Shakespeare escreveu King Lear em quarentena. É o que se tem lido no Twitter, como que um manual de sobrevivência, que nos ensina a (con)viver com a pandemia.

Primeiro é Shakespeare. E está quase tudo dito sobre a capacidade de fazer da sua atividade literária e criativa uma espécie de vacina. Segundo, ao longo da vida viveu mais do que uma pandemia, o que, sejamos francos, também ajuda. Sobreviveu à doença, ao sentimento que vem com cada nova morte anunciada e escrever grande parte da sua obra em confinamento e à sombra de doenças infecciosas e sem cura.

Em tempos de peste, com todos os teatros fechados ao público, no verão de 1606, especialistas na sua obra defendem que escreveu uma das suas mais reconhecidas – “King Lear”. E embora o destino trágico que deu a algumas das suas personagens em diferentes obras, os críticos literários dizem que nenhuma terá morrido devido a pandemias. Como lia há dias no The New York Times, o chamado “realismo documental” não era o seu estilo, e não “olhava para as estatísticas, mas sim para o indivíduo”. E pensar que o conseguiu sem internet, sem zoom’s, sem cultura que nos chega hoje digitalmente a casa e sem os lives do Instagram…

Mas volto ao princípio. É Shakespeare e está quase tudo dito. E talvez até me fique mal dizer isto (já que advogo sempre o futuro, primeiro) mas o teletrabalho, não é para mim. Ao longo das semanas tenho lido estudos, análises em diferentes países e elogios à forma como nos adaptámos à realidade de conseguir fazer tudo – ou quase tudo – a partir de uma videoconferência, do nosso computador ou smartphone. Que esse será, cada vez mais, o modelo de trabalho no futuro. Vejo que é ambientalmente mais sustentável (se cortarmos nas viagens, por exemplo), que muitos se tornam mais eficientes, o que é tudo sinais positivos, e que tal como o escritor e dramaturgo inglês vamos encontrando a nossa vacina para (con)viver com o isolamento destes dias. Tudo boas notícias.

Também o tenho feito. Escrevo menos mas, quase todos os dias, falo com pessoas novas. Tem sido essa a minha vacina para o isolamento. Há dias estive num Zoom com os fundadores da School of Speculation, Kishan San e Pierre Shaw, mas a rede em Londres estava tão má que não consegui partilhar o vídeo. Dois jovens que desafiam os custos crescentes da formação em design no país, tornando-a mais acessível e que contrariam a perspetiva de cursos “prontos para o mercado”, que embora “formem jovens prontos para trabalhos específicos, perdem a perspetiva e o pensamento critico”.

Trabalham com base num modelo assente em parcerias com museus, galerias, bibliotecas e outras instituições públicas, com artistas e designers que criaram carreiras por conta própria, “encontrámos um espaço pedagógico intermediário que nos permite explorar a educação em design de uma maneira muito diferente, focando na abordagem crítica de design, em oposição ao design afirmativo” explicaram-me. Num ano em que vão olhar para o critical design através de quatro grandes temas: The lens of Protest, Performance Therapy, Historic Speculation e Digital Labour Relations.

Mas tal como todos nós viram-se agora para uma estratégia digital, com cursos on-line. Chamam-lhe o “stress test this form of educational nomadism”, mas terminam a call dizendo que, embora enquanto organização pequena estão abertos a este novo mundo emergente, assim que tudo passar, irão voltar ao formato de aulas presenciais onde as pessoas possam discutir, trocar ideias e criarem juntas. Verdadeiramente juntas.

Peguei em Shakespeare numa forma de elogio. Porque eu, apesar de toda a tecnologia, tenho vivido profissionalmente em ambientes cheios – de pessoas e criatividade, e não tenho outra forma de o dizer: o teletrabalho é útil, funciona, mas não é para mim. Como hoje tanto se lê nas redes sociais, #vaitudoficarbem. Para já é continuar em casa, #stayhome #Staysafe. E sejamos criativos, tal como Shakespeare…

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