Com dois centros de excelência que trabalham para toda a Europa, a La Redoute de Leiria teve de se adaptar aos danos no edifício para continuar a dar resposta.

Quando estamos a chegar à Rua Beco dos Perdigais, na zona da Barosa, Leiria, temos pela frente um cenário de guerra, mesmo que tenha passado uma semana desde que a depressão Kristin passou uma noite a devastar toda a região. A própria rua que leva à entrada da La Redoute, em Leiria está cortada: um poste de eletricidade caído atravessa toda a estrada, ainda com os fios ligados, debaixo de uma chuva que não dá tréguas.
O desvio a que este obstáculo obriga permite ver outras empresas nas ruas de trás, sobretudo indústrias, mas até uma espécie de igreja evangélica. Há telhados caídos, estruturas cheias de detritos, e já obras em curso aqui e ali, com trabalhadores a tentar trabalhar contra o tempo: o dos minutos, porque todos contam, e o da chuva, que continua a molhar qualquer maquinaria ou matéria-prima exposta aos elementos.
Nos estacionamentos, grandes amontoados de detritos contam ainda parte da história: chapas de metal destruídas, telhas, objetos agora impossíveis de identificar. Logo ao lado da La Redoute, uma enorme porta automática de garagem jaz no chão, dobrada ao meio como uma panqueca.
Quem nos recebe é Ana Raquel Batalha, CFO da empresa em Portugal e que responde, juntamente com o responsável dos Recursos Humanos, ao CEO da Iberia do grupo francês. Foi ela quem teve de acionar os planos de emergência para manter a empresa ligada.

Visto de fora, os dois edifícios ligados não revelam totalmente o que se passa lá dentro. Duas grandes superfícies ao nível do primeiro andar estão tapadas com grandes chapas de contraplacado, no sítio onde os grossos vidros partiram, provavelmente devido à projeção de detritos pelo ar, como estruturas metálicas que passaram a noite a voar. “Acho que o vento já vinha em loop, partiu o vidro e depois andou cá por dentro a destruir”, explica a responsável, que conduz a equipa do ECO ao piso onde funcionava a área de IT, testes e operações.
A uns 500 metros de distância, do outro lado da via rápida, está uma outra empresa, a MD Group. “O meu irmão trabalha ali e daqui nunca tinha visto a empresa, mas agora vê-se bem”, explica Raquel Batalha. A razão é simples: a densa floresta que ocupava o espaço entre as duas empresas simplesmente desapareceu.
O que se vê no interior da La Redoute faz suspeitar da violência dos ventos, que depois de entrarem, trouxeram água, pó e rebentaram com toda a estrutura de tectos falsos, por onde passam os cabos técnicos. Na sala ao lado, o panorama é ainda pior, até porque ali houve uma parte do telhado que deixou, e ainda deixa, entrar água. “Não é só a destruição, mas o lixo que traz. Todas as lombadas dos nossos livros têm vestígios de lixeira, de pó, de porcaria, de vidros, vidros grossíssimos”, conta, e os nossos olhos confirmam.
“Estas zonas são completamente off-limits aos nossos funcionários, porque não foram dadas como seguras. Houve uma inspeção e temos a garantia de poder usar algumas partes do edifício, e é por aí que estamos a regressar”, diz. É por isso que já vemos pessoas na La Redoute, que vão regressando. Ainda há trabalhadores que estão em casa ou na Startup Leiria, mas perto de 30 regressaram à sede. “A questão é que as pessoas aqui estão melhor. Eles estavam desertos de voltar a alguma rotina”, explica Ana Raquel Batalha.

Num dos espaços dados como seguros, algumas pessoas estão sentadas a trabalhar, e quem só visse essa imagem não pensaria no que está ali a poucos metros. Quando nos cruzamos com um funcionário, Raquel Batalha revela que este ficou com o carro destruído. Tinha ficado à porta da empresa quando o seu dono estava em França, em viagem de trabalho.
O desafio imediato foi saber como estavam as pessoas, e depois encontrar forma de manter a empresa ligada, com os clientes e com as restantes operações europeias. É que os mais de 100 funcionários da empresa que ali trabalham fazem parte de duas unidades de excelência que trabalham para todo o grupo na Europa, com as áreas de Contabilidade e de IT. “Temos esses centros partilhados aqui, esta tempestade não nos veio ajudar a responder a todos os deadlines e todos os compromissos que temos agora estas semanas”, explica a responsável.

Mas o plano foi posto em marcha. Quem tinha condições e comunicações trabalhou de casa, outras pessoas encontraram abrigo e um ambiente de trabalho improvisado nas instalações da Startup Leiria. “Não queríamos falhar, não podíamos falhar, e as pessoas que não tinham problemas próprios graves queriam trabalhar”, afirma Ana Raquel. “Passados estes últimos dias, o nosso objetivo é responder aos nossos clientes internos e externos”.
No que toca à contabilidade, por exemplo, não foi pela Kristin que a La Redoute Leiria deixou o grupo ficar mal. “Ainda estamos a fechar algumas coisas do mês. Estamos a fechar, é só um desvio de um diazinho, por isso acho que vamos recuperar tudo”, diz, orgulhosa, a CFO.
IT, contabilidade, operação comercial da La Redoute Portugal e atendimento ao cliente, tudo foi possível reerguer minimamente, para não deixar ninguém sem uma resposta.
Agora, é tempo de tratar dos dois edifícios contíguos, que têm dois senhorios diferentes, e estes já estão a encomendar os materiais mais essenciais para as reparações. As fotos e os vídeos para as seguradoras já seguiram.
As pessoas estão a voltar. A máquina do café está noutro sítio, distante das áreas vedadas com maiores danos, e a pouco e pouco as conversas ao seu redor irão normalizar.

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Depressão Kristin. Como a La Redoute de Leiria lutou para não deixar a Europa pendurada
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