Hack a city: no autocarro da inovação, os dados são o passe social

30 equipas multidisciplinares, 92 bases de dados e 132 recursos: está lançada a trilogia para hackar a cidade do Porto. O que não falta são ideias para mudar.

O relógio marca 9h30 mas, na verdade, ainda não são nove da manhã. O relógio da Hack a city anda ao contrário e, à chegada dos participantes, começa a contar. Ou melhor, a descontar.

T-9h19

“Estamos muito entusiasmados por disponibilizar estas bases de dados”, diz Paulo Calçada, CEO da Porto Digital, no palco do hackathon. “Acreditamos que os projetos data driven podem ter impacto na cidade e o vosso papel é fundamental neste processo”, acrescenta.

Paulo Calçada, CEO da Porto Digital, no palco do hackathon.ScaleUp Porto

Ana Martins é uma peça da engrenagem. “Temos experiências e trabalhamos em distintas áreas, temos algum conhecimento sobre a cidade e podemos oferecer um olhar diferente sobre os dados que pode culminar em soluções interessantes”, explica. Ao seu lado estão Eva Oliveira, Diogo Carvalho e André Gomes, os outros membros da equipa com que estão a concorrer ao desafio. “Já olhámos para os dados e estamos agora a discutir o que queremos fazer com eles”, sublinha Ana, engenheira bioquímica e com formação em matemática.

Ana, Eva, João e André são uma das 30 equipas de quatro ou cinco membros que, esta quarta-feira, participam na 4.ª edição do Hack the city, organizado a propósito da semana Start & Scale, iniciativa da ScaleUp Porto.

T-6h30

Faltam seis hora e meia para a entrega dos projetos e a alemã Alexandra Baur, estudante do mestrado de data science na Nova, em Lisboa, veio ao Porto para participar o Hack a city e mal tira os olhos do ecrã. O colega de equipa, o cipriota Manuel Demetriades, explica o projeto. “Decidimos criar uma medida de qualidade de vida, uma espécie de equação que reflita fatores como acesso à educação, supermercados, espaços verdes e qualidade do ar, entre outros”. Os dados que refere estão acessíveis a todos mas, eventos como o Hack a city possibilitam ter equipas focadas durante um período de tempo na análise destes dados já organizados pela autarquia.

O cipriota Manuel Demetriades (ao centro) estuda data science em Lisboa.ScaleUp Porto

“O nosso projeto vai ajudar a identificar áreas de ação e oportunidades que podem ser usadas também pela câmara”, acrescenta Manuel, dividido entre as 92 bases de dados vindas de 132 recursos (fontes de dados) disponibilizadas pela câmara portuense.

“Este é o ano em que temos as coisas mais organizadas. Partimos de 600 recursos. Este ano conseguimos finalmente ter informação de qualidade, porque é muito importante ter a informação em tempo real, é por aí que se consegue fazer o trabalho analítico”, explica Paulo Calçada, CEO da Porto Digital.

A ideia de organizar um evento que acelerasse a utilização dos dados recolhidos e detidos pela cidade — relacionado com áreas que vão desde a Administração Pública à atividade económica, passando pelo ambiente, cultura, urbanismo e mobilidade — surgiu há mais de quatro anos. “Temos sido nós a empurrar, os técnicos percebem a importância mas havia muito receio em abrir os dados. Estamos a preparar uma política de dados, com uma carta de princípios, que vamos lançar a seguir”, conta o CEO da Porto Digital.

T-2h23

“Queres saber a ideia verdadeira?”, pergunta Ana Freitas, formada em matemática e a trabalhar na Sonae. “A ideia inicial era termos um score de mobilidade no sentido, não do trânsito na cidade mas do que sentimos, sendo pessoas, em relação à proximidade com determinado tipo de serviços e infraestruturas“, conta ao ECO.

Ana Freitas (ao centro) trabalha na Sonae.Hack a city

Ana partilha mesa com Joana Martins, Patrícia Castro e com Ana Pinto, a única das quatro com formação em informática. Entre as principais dificuldades, as participantes do Hack a city encontraram o acesso às bases de dados uma vez que nenhuma das quatro domina programação.

Do trabalho das últimas horas, a equipa trabalhou na identificação de clusters: um maior, mais perto do centro, outro que seriam locais longe dos principais pontos da cidade, “na periferia”, outro que identificava pontos de diversão e lazer, um quarto com museus, espaços ligados a religião e spas e um quinto, de pontos de interesse para estudantes. “Agora precisamos de fazer uma regressão em cima disto tudo”, brinca Ana, olhando para o relógio. É que o tempo, apesar de tudo, não pára.

T-2h17

Margarida Costa foi recomendada por Ana. Com Rui Ribeiro, Bruno Borges e Francisco Barbosa, definiram um problema para o qual querem encontrar uma solução. Faltam duas horas e 17 minutos para a entrega do projeto — no final, apenas 10 dos 30 apresentarão o trabalho de todo o dia em frente aos júris — mas Margarida explica pausadamente aquilo em que a equipa anda a trabalhar.

“Queremos implementar os pontos de carregamento solar de telemóveis e, para isso, estamos a usar dados para calcular a atratividade de pontos de wi-fi na cidade”, conta. “Problema? Solução”. É essa a lógica da equipa formada por um informático e três data scientists. “Sem o informático seria difícil concluir o projeto”, conta Margarida. Será possível mesmo assim?

T-’30

Está pronto? “Está entregue”. O tempo está quase a terminar e a equipa de Diogo Carvalho, que há mais de oito horas começava a trabalhar acabou de entregar o projeto. “A ideia que tínhamos não foi completamente concretizada porque, ao contrário do que pensámos, precisávamos de bases de dados com maior amplitude temporal. No caso dos dados de meteorologia, por exemplo, só tínhamos informação sobre fevereiro”, conta.

Time’s Up

É tempo de apresentar projetos. O trabalho das últimas nove horas e meia foi avaliado pelo jurado e, dos 30 projetos, apenas dez vão ter a oportunidade de apresentar as suas ideias em palco. Desses, apenas um sairá vencedor.

Cerca das 20h45, relógio em contagem crescente, o jurado aproxima-se do palco. A organização anuncia quatro prémios: o prémio do público, atribuído ao projeto “hold my beer” (da equipa do cipriota Manuel Demetriades, lembra-se?); o 3.º prémio, atribuído ao “42”; o 2.º prémio, que distinguiu a equipa fundadora do Pyto; e, finalmente, foi anunciado o vencedor do dia: “Nos DS”, que propunha a redistribuição dos locais de emergência na cidade.

“A Hack a city é parte da estratégia da cidade em prol da inovação”, conclui Daniela Monteiro, da ScaleUp Porto. O relógio regressa amanhã à contagem decrescente até à próxima competição.

Os participantes do Hack a city 2019 no final da competição.ScaleUp Porto

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