Start & Scale: Uma ronda ao ecossistema tech numa caminhada

O ecossistema não se resume a uma tarde de passeio pelo centro mas bem podia ilustrar-se assim: entre altos e baixos, a cidade Invicta tem cada vez mais casos de sucesso.

Parecem arrumados perto de tudo aquilo que os trabalhadores precisam: no centro do Porto, as startups crescem como cogumelos entre cafés, quiosques de revistas internacionais, mercearias de produtos biológicos e restaurantes com fila à porta. Ocupam edifícios antigos, reabilitando-os em betão e em vida, dão trabalho aos cafés do bairro e uma nova dinâmica à cidade.

O trabalho tem sido uma visão de anos, um esforço quotidiano e de equipa. “Se me tivessem perguntado como estaria o Porto, há quatro ou cinco anos, em 2018, eu nunca imaginaria que fosse assim. Era impossível antecipar”, explica Filipe Araújo, vice-presidente da Câmara do Porto e vereador da Inovação da cidade. “Quero que o Porto continue a fazer este caminho, para o ambiente que temos agora. É algo que temos feito com as pessoas que trabalham connosco todos os dias. Há muitas pessoas a contribuir para o tema”, acrescenta.

"Se me tivessem perguntado como estaria o Porto, há quatro ou cinco anos, em 2018, eu nunca imaginaria que fosse assim. Era impossível antecipar.”

Filipe Araújo

Vice-presidente da Câmara do Porto

De acordo com os últimos dados da ScaleUp Porto, relativos a 2016, só nos últimos anos a cidade atraiu e serviu de cenário à fundação de mais de 300 startups, o que faz também com que o Porto detenha 40% das scaleups do país, distribuídas, por exemplo, nas cerca de 20 incubadoras existentes da região.

Fundada em 2009 por três sócios, a Blip é uma das tecnológicas mais reconhecidas da cidade. Criada para ser uma rede social, com o passar do tempo tornou-se evidente para os fundadores que a tecnologia desenvolvida in house e as práticas da empresa eram tão boas que a startup começou a destacar-se “daquilo que eram as normais empresas do mercado”, conta Diogo Velho, facilities manager da Blip.

Escritório da Blip, no Porto.Scale Up Porto

Três anos depois do arranque, em 2012, a Blip é comprada pela TSE Holdings Limited, detida pelo grupo Betfair, gestor de plataformas de apostas online com sede na Irlanda e com atividade no Reino Unido, Roménia, Malta e, a partir dessa altura, em Portugal. “O que distingue a nossa empresa de outras é que aqui não controlamos tarefa a tarefa: as equipas não recebem trabalho, comprometem-se com trabalho”, detalha Diogo. Assim, cada ilha do escritório do Porto — que conta com mais de 300 trabalhadores (e tem capacidade máxima para 450) — representa uma equipa de trabalho, dedicada ao mesmo projeto e com budget mensal próprio para gastar no que quiser, mediante as necessidades “do grupo de trabalho”.

“Além do team budget, temos a cozinha e o terraço, espaços usados por todos para garantir que as pessoas se conhecem e que há partilha de informação”, esclarece o responsável. “A cozinha da Blip funciona como espaço aglutinador, que garante que as pessoas falam umas com as outras e transmitem conhecimento”, detalha.

Queremos espalhar a mensagem de que o Porto é das melhores cidades para se trabalhar.

Diogo Velho

Facilities manager na Blip

Com uma média de idades dos trabalhadores de 30 anos — e um turnover a rondar os 10% ao ano (o que significa que na empresa há entre 20 a 30 novas pessoas, por ano) –, o que a Blip quer mesmo é, a partir do seu crescimento, fazer crescer a cidade. “Temos sobretudo portugueses mas cada vez mais estrangeiros a vir trabalhar para cá. Queremos espalhar a mensagem de que o Porto é das melhores cidades para se trabalhar”, explica Diogo.

Filipe Araújo concorda: “Há cinco anos havia muitas pessoas, recursos, as empresas vinham e depois procuravam talento. Tínhamos também muitos estudantes de fora a virem viver para cá. Depois, há muitas coisas que juntas trazem pessoas para o Porto que eu nunca imaginei”, assegura. Tudo para contar a história do engenheiro indiano que esteve, por estes dias, no Porto, a participar no Hack For Good, o hackathon promovido pela Gulbenkian, pela primeira vez no Porto. “Mas veio com ideia de ficar, de conhecer a cidade?”, perguntou o vice-presidente da Câmara ao participante. “Não”, respondeu. “Vim só para o hackathon”.

Hack for Good, da Gulbenkian, foi o evento de abertura à semana Start & Scale, da ScaleUp Porto. No hackathon participaram 170 pessoas divididas por 36 equipas.ScaleUp Porto

A semana Start & Scale, uma iniciativa da ScaleUp Porto, arrancou no sábado com a realização da terceira edição do Hack for Good, um hackathon organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian e focado em três temas fundamentais: bem-estar na velhice, bem-estar de crianças e jovens e integração de refugiados e migrantes. Do concurso saíram dez vencedores que irão integrar as equipas escolhidas para o recém-anunciado bootcamp Hack for Good, que será lançado ainda este ano.

O ecossistema numa semana

Indústria, tecnologia, investidores e disruptores. Na Start & Scale Week todos têm lugar. Objetivo? Dar a conhecer o ecossistema empreendedores, a dinâmica empresarial e as linhas de contacto entre os dois em apenas uma semana.

“Se continuarmos como temos estado até agora, espero que continuemos a crescer e a ter pessoas que acreditam no Porto, que acreditam que podemos fazer coisas, e que querem estar aqui. Tiramos vantagem de ter comunidade, de ter inovação. Claro que fazemos coisas sozinhos, sabemos que às vezes temos de fazer um esforço e vamos continuar a fazê-lo. Mas sabemos também que não podemos ter a estratégia e esperar que alguém faça. E fazer um esforço às vezes é também investir nos projetos”, detalha Filipe Araújo, que considera que a qualidade de vida é e será um dos maiores fatores concorrenciais da cidade, tornando o Porto um destino apetecível para visitar e ficar. “Cidades com qualidade de vida vão ser desejadas e o Porto pode concorrer nesse aspeto”, sublinha o vice-presidente da Câmara.

É o caso da Natixis. A empresa, o centro tecnológico do grupo francês BPCE-Banque Populaire & Caisse d’Epargne, que conta com mais de 17.000 empregados em 38 países, escolheu Portugal para instalar todos os serviços de desenvolvimento tecnológico. A eleição do país — e da cidade do Porto — para agregar atualmente cerca de 350 trabalhadores (que serão, de acordo com os planos da empresa, mais de 600 no final de 2019). A grande maioria, portugueses.

“A escolha do Porto em detrimento de Lisboa está muito relacionado com a proximidade de Paris: temos muitas viagens e facilmente muitas ligações a Paris”, explica Nádia Leal Cruz, coordenadora de marketing e comunicação da empresa. Na altura da escolha, conta a responsável, a Natixis estudou vários mercados e cidades na Europa: a ideia era colocar, no mesmo local, todos os departamentos de IT, até à data espalhados pelos vários escritórios dos bancos a que a empresa pertence ou em consultoras. A escolha de Portugal foi… natural. Mas como?

"A partir do nosso centro do Porto, damos suporte ao banco globalmente.”

Nádia Cruz

Coordenadora de marketing e comunicação da Natixis

“A presença de universidades com bons cursos na área de IT, as próprias facilidades em encontrar estabelecimento que pudesse dar as condições que queríamos aos colaboradores, a própria rede das empresas nas universidades, o hub tecnológico que o Porto é neste momento: o Porto venceu em todos os critérios considerados. (…) A partir do nosso centro do Porto, damos suporte ao banco globalmente”, recorda Nádia. “Havia uma grande vontade de apostar na digitalização e novas tecnologias: cada vez mais estão a olhar nesse sentido. Tivemos muitos ganhos, especialmente de eficiência, em concentrarmos aqui o centro de IT”.

Outro dos casos de sucesso da cidade é a BySide, uma empresa que ajuda as empresas a trabalhar com os clientes através das plataformas online já existentes, uma espécie de ‘olheiro’ pessoal para cada cliente. Do Porto trabalham com grandes nomes de setores como telecomunicações, banca e seguros, e retalho. E marcas como a IKEA e a Google, entre muitas outras.

Vítor Magalhães é um nos três cofundadores da BySide.Scale Up Porto

Além da sede no Porto, a empresa já tem escritórios em Madrid, Londres, Cidade do México, São Paulo e prepara-se para inaugurar um espaço em Singapura. “Trabalhar com a Google garante-nos recomendações da BySide a todo o mercado”, confessa Vítor Magalhães, cofundador da empresa portuense.

Mas, em contrapartida, o responsável diz que os desafios aumentam na proporção direta da modernização tecnológica. “Cada vez é mais difícil atuar nos clientes quando eles já estão nos canais: o nosso principal desafio é saber como agregar toda a informação que temos porque hoje perdemos muita da informação que temos das pessoas. Queremos que os nossos clientes aprendam a saber porque é que os visitantes vão aos seus sites”, explica Vítor admitindo, no entanto, que não existem “fórmulas únicas de vender na internet”. “Há muitas variáveis que não nos permitem avaliar se vamos ou não vender”, assinala.

"Não somos só um serviço de tecnologia. Trazemos sempre para o mercado o conhecimento que temos. (…) E gostamos de colocar a tecnologia como último passo do processo, que passa pela experiência, capacidade de suporte e pela agilidade.”

Vítor Magalhães

Cofundador da BySide

“Não somos só um serviço de tecnologia. Trazemos sempre para o mercado o conhecimento que temos. Tentamos juntar o que sabemos com tecnologia e metodologia. E gostamos de colocar a tecnologia como último passo do processo, que passa pela experiência, capacidade de suporte e pela agilidade”, detalha Vítor Magalhães, cofundador da BySide.

A BySide é contemporânea do projeto Porto Tech Hub, criado em 2015 por três empresas — Critical Software, Blip e Farfetch — e, agora, alargado a 14 associados. A ideia? Tornar o Porto mais atrativo e ativo em termos de atividades e oportunidades do tipo tecnológico.

Com cerca de 750 trabalhadores, a Critical Software é um dos “veteranos do pedaço”. Com centros de engenharia em Portugal — um dos quais no Porto –, no Reino Unido e em Munique, é de tecnologia portuguesa muito do serviço que chega, por exemplo, a empresas como a Airbus ou NASA, o primeiro cliente da tecnológica nacional. A empresa, que cumpre, em 2018, 20 anos de atividade, sempre apontou para “clientes premium”. No entanto, a admissão de trabalhar a cultura da empresa para assegurar um crescimento sustentado, confessam os responsáveis, foi uma descoberta feita nos últimos anos. “Na altura, não tivemos seed capital mas tivemos um crédito bancário”, explica Paulo Faria, head of nearshore & offshore software engineering services da Critical.

Assim, nos últimos 20 anos, a empresa tem vindo a fornecer sistemas fiáveis e soluções para aplicações críticas com uma missão muito focada na segurança e nos negócios. Mas não só: há poucos anos começou a dar um dos sinais de maturidade do ecossistema: o momento em que os primeiros a começar começam a investir nos mais novos. A Critical Ventures serve exatamente para isso: um veículo de investimento que, além de financiamento permite acompanhar e fazer crescer projetos, via mentoria dos especialistas.

O ECO esteve no Porto a convite da ScaleUp Porto.

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