Máscaras de três euros estão a custar 14 euros. “É ridículo”

A procura por máscaras, desinfetantes e álcool aumentou exponencialmente, os stocks estão a ficar escassos e os preços já começaram a disparar. O ECO foi visitar algumas farmácias em Lisboa.

O novo coronavírus chegou a Portugal na segunda-feira e com ele aumenta o frenesim pela procura de máscaras, geles desinfetantes e álcool. Desde portugueses a estrangeiros, a correria desenfreada às farmácias para comprar estes produtos é grande e os preços estão a acompanhar a procura.

“Bom dia. Tem máscaras?”, perguntou um cliente na farmácia Morais Sarmento, perto da Avenida da Liberdade, em Lisboa, que acaba de tossir. “De momento não”, retorquiu a farmacêutica. Este foi um dos relatos ouvidos pelas várias farmácias visitadas pelo ECO em Lisboa.

Só este ano, em fevereiro, foram vendidas mais de 419 mil máscaras, contra as 21.746 vendidas no ano passado, o que representa um crescimento homólogo de 1.829,3%, segundo dados da Associação Nacional das Farmácias (ANF). A venda de desinfetantes também registou um crescimento, embora menor, de 221% em relação a fevereiro do ano passado.

A farmácia Morais Sarmento espelha bem esta realidade, já que as máscaras estão esgotadas há, pelo menos, uma semana, bem como embalagens de gel desinfetantes. “Temos sentido uma forte procura destes dois produtos, se bem que tentamos explicar às pessoas que a higienização das mãos e das superfícies de contacto, principalmente para quem utiliza transportes públicos, é a maior forma de prevenir“, explica Raquel Pedro, farmacêutica na Morais Sarmento.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são recomendadas máscaras “para pessoas que estejam doentes ou, por exemplo, para pessoas que são recém-transplantadas”, aponta a farmacêutica, sendo que as mais eficientes para pessoas infetadas por Covid-19 são as FPP2.

Na Morais Sarmento, esta proteção respiratória está esgotada desde que foram confirmados os primeiros casos de Covid-19 em Itália, país com o maior número de casos em território europeu. “Desde o inicio de janeiro que os chineses nos diziam que vinham à farmácia comprar máscaras para enviar à família ou para que quando regressassem terem máscaras“, sublinha Raquel Pedro, acrescentando que “os portugueses só se começaram a preocupar muito depois disso”.

Perante o consumo atípico, as garrafas de gel desinfetante também estão a desaparecer à velocidade da luz e com preços cada vez mais elevados. “Temos muitos turistas que utilizam o gel, mas os preços estão a ficar loucos. Um álcool-gel de 50ml era uma coisita para custar à volta dos 6 euros e agora custa 20 euros“, refere Raquel Pedro. “Na mesma semana comprei ao mesmo fornecedor com quatro euros de diferença“, conclui.

A situação é idêntica na Farmácia Vieira Borges, na zona do Marquês de Pombal, em Lisboa, onde apenas existem máscaras. “Neste momento temos 500 máscaras, o álcool-gel acabou há cerca de meia hora e o álcool já não temos há uma semana”, afirma Teresa Rita Amorim, diretora-técnica, queixando-se dos preços que os fornecedores cobrem por estes produtos. “Coisas [máscaras] que antes nos custavam 50 cêntimos, neste momento estão a cobrar-nos nove euros“, atira.

Com seis fornecedores portugueses, as máscaras vêm essencialmente da Alemanha e de Inglaterra e o gel também do Reino Unido. Os funcionários evitam comprometer-se com timmings de entrega, por o prazo ser muito incerto. “Estamos na lista de espera a aguardar. Assim que recebemos os produtos, ligamos aos clientes que encomendaram os artigos para os virem buscar”, explica Teresa Amorim.

Ainda assim, há estabelecimentos que conseguem responder à elevada procura. Na farmácia Conde Barão, em Santos, Lisboa, os expositores estão cheios de caixas de máscaras cirúrgicas, com filtro e álcool desinfetante. Segundo as contas do ECO, em exposição havia pelo menos 12 caixas de máscaras de 50 unidades, com um preço de 49,50 euros cada, e 35 embalagens de álcool. “Não temos tido rutura, mas tem sido difícil manter os níveis para a procura que temos”, admite uma farmacêutica.

“Máscaras de três euros estão a custar 14 euros. É ridículo”

Os preços inflacionados das máscaras e dos geles desinfetantes são as maiores queixas das farmácias portuguesas e há já quem se recuse a encomendar máscaras dada a especulação de preços. “Neste momento, as máscaras estão mesmo esgotadas. Mas não tenho porque não quero”, adianta ao ECO Paulo Alves, da farmácia Biológica, no Marquês de Pombal, em Lisboa. O responsável pela área de armazém justifica a decisão pelo facto de as proteções quase ter quintuplicado o valor. ” Máscaras de três euros estão a custar 14 euros, por exemplo. É ridículo“.

A Biológica é uma parafarmácia e, por isso, não vende álcool nem gel desinfetante, mas Paulo Alves garante, que, o stock de máscaras antes do pico de “crise” era “à volta de 15”. “Chegava perfeitamente para o ano inteiro“.

Na farmácia Açoriana, em Santos, a situação é semelhante, o que obrigou a gerência a colocar um aviso nos postos de atendimento. “Estimados clientes, informamos que as máscaras estão esgotadas”, tal foi a afluência de clientes em busca das tão desejadas máscaras.

Apesar da quebra de stock, e tal como acontece na farmácia Biológica, a gerência da farmácia Açoriana também se recusa a comprar máscaras a preços exorbitantes. “Recuso-me a compras as máscaras que estão neste momento disponíveis. As pessoas estão loucas, andam-se à aproveitar e eu não acho correto“, riposta ao ECO Joana Magno Nunes, diretora-técnica da Açoriana, referindo que antes do coronavírus uma caixa de 50 máscaras custava à farmácia cinco euros (sem IVA) e com o aumento da procura, há já fornecedores a pedirem 50 euros.

Já no que diz respeito ao gel desinfetante, tem apenas “três ou quatro unidades” que reservou para os “clientes habituais”, mas estão constantemente a tentar reforçar o stock, mas não tem sido tarefa fácil. “Recebi 40 unidades na quarta-feira [4 março] e foram todas durante a manhã. Neste momento, tenho várias encomendas pendentes”, sublinha Joana Magno Nunes, acrescendo que a discrepância de preços nestes produtos não é tão acentuada.

“As pessoas estão preocupadas e nós temos que as tranquilizar”

A corrida às máscaras e aos restantes produtos de higienização não se cinge à zona da Grande Lisboa. “As pessoas estão bastante preocupadas. Como há uma atualização quase ao minuto, elas ficam apreensivas e nós temos que os tranquilizar um bocadinho e não provocar alarmismos“, explica Paula Reis, diretora-técnica da farmácia Vidal Reis, em Alfornelos, Amadora.

Apesar de não querer avançar com números, a responsável adianta que esta farmácia ainda tem máscaras cirúrgicas e as FPP2 (recomendadas pela OMS), bem como o gel desinfetante, embora os fornecedores “estejam quase sempre em rutura”.

Por outro lado, uns metros mais à frente, na farmácia Alfornelos a situação é antagónica. “Está tudo esgotado”, atira Alfredo Santos. Sem previsões de quando chegam as encomendas, esta farmácia já não tem máscaras e álcool-gel desde janeiro. “As pessoas [que não estão doentes] não têm necessidade de comprar, mas estão muito assustadas. Todos os dias me entram pessoas a perguntar. Mas têm que esperar”, aponta o farmacêutico.

Segundo o último balanço da agência AFP, há mais de 3.600 mortos pelo novo coronavírus e mais de 100 mil pessoas infetadas em 92 países e territórios. Em Portugal há quinze casos confirmados.

(Artigo atualizado às 11h42 com o número de infetados pelo Covid-19)

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