Economist: Governo está estável, mas autárquicas podem aumentar pressão dos mercados

A Economist Intelligence Unit no seu último relatório sobre Portugal reconhece que o Governo demonstrou ser mais estável do que se pensava, mas as autárquicas pode aumentar pressão dos mercados.

Portugal poderá voltar a ser castigado pelos mercados devido às tensões políticas geradas pelas eleições autárquicas. O alerta é lançado pela The Economist Intelligence Unit (EIU), no seu último relatório sobre Portugal, a que o ECO teve acesso.

A EIU reconhece que “o Governo demonstrou ser politicamente mais estável do que o esperado”, resultado do “estilo político hábil” de António Costa e do “impacto positivo da reversão das medidas de austeridade“. “Uma surpresa para opositores e muitos observadores”, frisa o relatório. E por isso, a EIU “não espera um novo ato eleitoral até perto do final da legislatura em outubro de 2019”.

Mas “persistem os riscos”. Nomeadamente, por via dos mercados. Os custos de endividamento do Estado podem atingir “níveis preocupantes”, diz a EIU, tendo em conta que as yields das obrigações a dez anos chegaram a atingir os 4% nas últimas semanas, apesar do programa de compras de dívida pública por parte do Banco Central Europeu (BCE) que tem ajudado a sustentar o nível das yields.

E o que pode inflamar as pressões dos mercados? São vários os fatores, segundo a unidade de investigação ligada à revista The Economist, de ordem política e económica, nacionais e internacionais.

  • O PCP está a forçar um aumento mais significativo do salário mínimo e espera-se uma “campanha dura contra o PS” nas autárquicas de outubro de 2017, já que o poder local é uma das mais importantes bases de apoio do PCP. E o Bloco de Esquerda já deixou claro que, em 2017, vai pressionar a aprovação de medidas que estão fora do acordo de incidência parlamentar, nomeadamente reverter algumas das medidas relativas à legislação laboral introduzidas durante o período de ajustamento 2011/14. As “potenciais fricções políticas podem levar os mercados internacionais a atribuir um prémio mais elevado a Portugal”, diz a EIU.
  • Algo que pode também resultar também de “um crescimento mais brando, o peso de uma dívida pública superior a 130% do PIB” e de “um setor bancário fraco”. A EIU prevê que Portugal abrande para os 1,2%, em 2016, face aos 1,6% o ano anterior (ainda assim uma revisão em alta face à estimativa inicial de 0,9%). E que avance 1,5%, em 2017. A EIU prevê um crescimento médio de 1,6%, entre 2018 e 2021. Já em termos de dívida pública, a previsão é que atinja os 125,7% do PIB, este ano, para descer para 123,3%, em 2017, e 121,8%, em 2018.
  • A pressão dos mercados pode ainda resultar de fatores externos como os problemas relacionados com os problemas do setor bancário italiano. A EIU lembra que a capitalização da Caixa Geral de Depósitos deverá ficar completa em 2017 e, “no contexto dos problemas relacionados com o setor bancário italiano, o setor financeiro português estará entre os mais vulneráveis ao contágio financeiro, potencialmente, colocando desafios políticos ao Governo”. A complicar este cenário ainda mais estará um eventual downgrade do rating da Caixa, por parte da agência canadiana DBRS, que já o colocou sob outlook negativo. A EIU admite que “o défice orçamental, em 2017, poderá chegar aos 3,7% do PIB, ou mais”, com a recapitalização da Caixa. “Tudo depende da forma como o apoio do Estado será contabilizado pelo Eurostat”, acrescenta a unidade de investigação ligada à revista The Economist. Excluindo o efeito CGD a previsão é de que o défice seja de 2,3% em 2017 (2,5% este ano).
  • Mas a banca nacional e os “episódios graves de instabilidade no setor bancário” nacional podem “exigir respostas políticas impopulares, que podem pôr em causa a aliança do PS no Parlamento“. A EIU sublinha que a solução do criar um bad bank não agrada aos banqueiros e que, “provavelmente, a venda do Novo Banco vai resultar em perdas pesadas para o fundo de resolução do banco”.
  • Para a EIU, “em geral, a perspetiva orçamental permanece um desafio”, já que “as yields das obrigações continuam a subir no mercado secundário, com os investidores cada vez mais preocupados com a capacidade de Portugal de cumprir os objetivos de consolidação orçamental”. António Costa deseja virar a página à austeridade e está a abrandar o ritmo da consolidação orçamental ao reverter algumas das medidas adotadas pelo Governo anterior, frisa a EIU, mas “o fraco crescimento e as restrições orçamentais impostas por Bruxelas vão tornar os planos do Governo menos ambiciosos e causar fricções com os partidos que o apoiam no Governo“. “Acreditamos que a necessidade do Governo minoritário placar os seus apoiantes de esquerda no Parlamento, e ao mesmo tempo cumprir as exigências da Comissão Europeia vai ser um desafio cada vez maior”, diz a EIU.
  • A eleição de Donald Trump é também um fator de risco para Portugal já que, agora, “a expectativa do mercado é de uma subida de juros rápida e agressiva nos EUA”, o que “está a desviar os investidores para ativos denominados em dólares”, “afastando-os dos países da zona euro com uma maior perceção de risco”.
  • O referendo em Itália “poderá continuar a transmitir a Portugal volatilidade dos mercados”, estima a EIU, mas também o risco de uma saída da Grécia da zona euro. Segundo a EIU essa possibilidade “é de 60%” entre 2017 e 2021, o que a acontecer “provocará um contágio financeiro mais grave”.

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