Debandada da bolsa. Nunca foram tão poucas as cotadas

Quando a Sumol-Compal sair da bolsa, vão restar apenas 56 cotadas na praça lisboeta. É o número mais baixo de sempre. Mas o ECO sabe que a Euronext está à espera de estreias no mercado no próximo ano.

Montepio, Cimpor e agora a Sumol+Compal… 2017 volta a ser um ano de abandono de algumas empresas portuguesas do mercado de capitais, um cenário que deixa a bolsa de Lisboa cada vez mais despida de cotadas. Ao contrário dos últimos anos, em que as saídas se deveram em grande parte ao puro desaparecimento das instituições, como o BES, desta vez a retirada da bolsa surge por decisão dos próprios acionistas. Lisboa nunca teve tão poucas cotadas. Mas o ECO sabe que a gestora da bolsa se prepara para receber mais IPO (initial public offering) nos próximos tempos.

No próximo dia 21 de dezembro, os acionistas da Sumol+Compal vão votar a saída da empresa da bolsa. Fonte do grupo explicou ao ECO que não faz sentido manter-se no mercado depois de a reduzida dispersão de capital em bolsa ter afastado quase por completo os acionistas da vida da empresa. E por isso a proposta dos dois grandes acionistas, a Refrigor e a Frildo, deverá receber luz verde.

É quase certa a saída da Sumol+Compal e assim a bolsa de Lisboa ficará reduzida a apenas de 56 cotadas, de acordo com os dados fornecidos pela Euronext Lisboa ao ECO. Trata-se do valor mais baixo desde que em 1987 mais de 90 empresas foram para a bolsa. Este abandono acontecerá depois de a Associação Mutualista Montepio Geral ter decidido retirar o banco Montepio do mercado em setembro e de a histórica cimenteira portuguesa Cimpor ter seguido o mesmo rumo no mesmo mês por decisão dos brasileiros da Camargo Côrrea.

Número de cotadas caiu para um terço em 20 anos

Fonte: Euronext

Embora a crise financeira recente tenha contribuído decisivamente para uma bolsa mais despida em termos de cotadas — com destaque para a implosão do universo Espírito Santo em 2014, que levou consigo o BES e o ESFG –, a debandada de cotadas da bolsa intensificou-se bem antes, no virar do milénio: entre 1997 e 2002, a bolsa registou 66 saídas.

Na maioria dos casos, estes abandonos sucederam-se com a intensificação da consolidação que teve lugar sobretudo no setor financeiro e segurador durante aquele período. E do qual o Banco Comercial Português surge como perfeito exemplo desta intensa atividade de concentração financeira: adquiriu o Banco Português Atlântico, o Sottomayor, Banco Mello e a seguradora Império.

Desde então, têm sido cada vez mais as saídas da bolsa do que as entradas, um movimento que crise da dívida soberana em 2011 veio agravar. Só no ano em que Portugal pediu ajuda financeira internacional a bolsa de Lisboa perdeu sete cotadas. Em sentido contrário, o último IPO em Lisboa aconteceu há exatamente um ano: foi o grupo Patris. Em 2017, a bolsa atravessou uma pequena travessia do deserto sem qualquer estreia de uma empresa portuguesa no mercado de capitais. Mas esta “seca” deverá terminar no próximo ano, apurou o ECO junto de fonte da Euronext Lisboa.

“Temos algumas situações que poderão vir a ser públicas nos próximos dois anos”, adiantou fonte da gestora da bolsa portuguesa. “Todavia, não se trata de contrariar uma tendência, mas sim de acompanhar o rumo e necessidades da economia nacional e internacional”, declarou ainda.

"Temos algumas situações que poderão vir a ser públicas nos próximos dois anos. Todavia, não se trata de contrariar uma tendência, mas sim de acompanhar o rumo e necessidades da economia nacional e internacional.”

Fonte oficial da Euronext Lisboa

Na linha da frente destas estreias em bolsa IPO estará a Raize, uma fintech portuguesa que funciona como uma bolsa de empréstimos a pequenas e médias empresas (PME). Esta startup já anunciou contactos formais com a Euronext para dar início a um processo de colocação de ações no mercado de capitais já em 2018. A oferta estará avaliada em menos de cinco milhões de euros.

Outra startup portuguesa, a Feedzai, também está em vias de entrar no mercado de capitais. O CFO da tecnológica adiantou ao ECO que pretende realizar um IPO dentro de dois a três anos. Só não se sabe em que mercado será feita a operação. Grande parte do seu negócio é lá fora, dividindo o seu trabalho entre Coimbra, onde tem a sua sede, e Silicon Valley, onde tem escritórios.

Valor bolsista recupera para níveis pré-crise

Apesar do número menor de cotadas, certo é que a bolsa de Lisboa tem vindo paulatinamente a recuperar valor, tendo já superado os mínimos alcançados durante a última crise.

De acordo com os dados da Euronext Lisboa, as atuais 57 cotadas apresentam-se com uma capitalização bolsista pouco acima dos 62 mil milhões de euros, traduzindo um aumento de 15% face ao final do ano passado. Só em 2010 a bolsa de Lisboa estava mais “gorda”: registava um market cap de quase 69 mil milhões de euros, bem longe, ainda assim, dos 115,5 mil milhões registados em 2007.

Valor em bolsa recupera

Fonte: Euronext

Um desempenho que está sobretudo associado às melhores condições económicas e financeiras que o país atravessa neste momento. Foi precisamente isso que disse fonte oficial da gestora da bolsa: “A bolsa reflete a economia do país”.

Na perspetiva de mais estreias na nossa praça nos próximos anos, a mesma fonte acrescentou que a Euronext Lisboa “vai continuar a trabalhar, diariamente, com empresas que querem, no futuro, dar o passo de abertura de capital e financiamento da atividade através do mercado de capitais (seja através de IPO, colocação privada ou emissão de dívida).”

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