SoftBank entra no capital da Uber. Três razões pelas quais este negócio importa

O SoftBank comprou pelo menos 15% da Uber, a menina dos olhos de Silicon Valley, com um desconto de cerca de 30%. Qual a relevância deste negócio? O ECO dá-lhe três motivos.

O SoftBank voltou a fazer das suas. Desta vez, avançou para a compra de uma fatia de pelo menos 15% da Uber, vista como uma das principais empresas do ecossistema de Silicon Valley. O negócio poderia impressionar por si só. Mas não: terá beneficiado de um desconto de cerca de 30% face à última avaliação da companhia. A Uber valia 68 mil milhões de dólares em julho de 2016. Com este negócio, fica a valer 48 mil milhões, segundo a CNBC.

Mas o grupo japonês não entrou na Uber sozinho. Antes, terá contado com um conjunto de parceiros que vão do grupo de investimento Dragoneer à TPG Capital, passando pela Sequoia Capital Operations e terminando na holding da gigante chinesa Tencent. Além da compra das ações, o grupo deverá injetar, diretamente, mil milhões de dólares na companhia a uma avaliação máxima de 69 mil milhões de dólares. Mas existem outras razões que justificam a relevância desta compra, muito para além dos montantes envolvidos.

1. O desconto espelha a desvalorização da Uber após um ano de polémica atrás de polémica

Pode dizer-se que a Uber é um gigante. Um dos primeiros grandes unicórnios da era das startups. No entanto, está longe de ser perfeita. Aliás, o ano de 2017 foi uma autêntica montanha russa para esta companhia de transporte e entrega de refeições ao domicílio. O antigo presidente executivo, Travis Kalanick, acabou fragilizado após um escândalo sexual ao nível da cultura empresarial da Uber nos Estados Unidos. Mas a novela teve muitos outros capítulos, como o ECO já resumiu aqui.

Polémicas atrás de polémicas ditaram a saída de Kalanick da liderança, cargo que passou a ser ocupado por Dara Khosrowshahi, anterior presidente executivo da Expedia. Já perto do final do ano, Khosrowshahi descobriu no que estava metido: o céu parecia ter sido o limite durante vários anos de atividade para a menina dos olhos de Silicon Valley. Perto do final do ano, o novo presidente viu-se obrigado a expor publicamente que uma brecha de segurança, no final de 2016, terá comprometido os dados pessoais de milhões de utilizadores e motoristas da Uber em todo o mundo. O caso valeu mesmo à Uber a abertura de um processo de averiguações pela Comissão Nacional de Proteção de Dados em Portugal.

Resumindo, não foi um 2017 fácil para a Uber. Agora, com este negócio, os problemas enfrentados durante os últimos 12 meses passam a ter um número: 20 mil milhões de dólares. Em linhas gerais, é o montante da desvalorização da Uber desde junho de 2016. Ainda se recorda dos números que demos no início deste artigo? A compra do SoftBank reduz a avaliação da Uber de 68 mil milhões em julho de 2016 para 48 mil milhões agora.

2. O negócio permite a trabalhadores venderem as suas ações e encaixarem, finalmente, a mais-valia

É outro ponto curioso que dá importância a este negócio, sobretudo na ótica dos trabalhadores e ex-trabalhadores da Uber. A empresa tem o hábito de incluir opções de compra de ações entre as formas de remuneração e compensação dos funcionários. Ou seja, muita gente ganhou, ao longo dos últimos anos, a hipótese de comprar ações da Uber. A questão é que, se não forem exercidos, estes direitos expiram e perdem todo o valor.

Como já tinha escrito o Quartz, houve quem se tenha endividado para poder exercer estes direitos. O jornal norte-americano cita mesmo um antigo trabalhador que terá pago 100.000 dólares para comprar exercer 20.000 desses direitos, mais um imposto que supera os 200.000 dólares. Outro gastou 70.000 dólares para exercer 5.000 direitos, mais 160.000 dólares em impostos. Ambos terão contraído empréstimos de familiares.

Mas porquê? Como referimos, estas opções de compra não duram para sempre. E como a Uber é uma das startups do momento, a esperança é sempre a mesma: a da posterior venda destas ações quando a empresa entrar em bolsa, potencialmente por um valor muito superior ao do investimento inicial.

Até aqui, estes investidores foram obrigados a manter estas ações sem grande rendimento. Alguns durante dois, quatro ou mesmo cinco anos. Agora, a aquisição do SoftBank veio trazer liquidez aos títulos num raro momento que permitiu a estes antigos trabalhadores desfazerem-se das ações e encaixar, finalmente, a mais-valia em dinheiro. Para estarem qualificados para o programa, tinham de deter pelo menos 10.000 títulos. Atuais trabalhadores só puderam vender até metade das ações que detêm.

3. O SoftBank passa a ser um dos maiores acionistas da Uber. Grupo terá dois assentos na administração

Com este negócio, o grupo de investidores liderado pelo SoftBank passará a estar entre os maiores acionistas da empresa de transporte. Garante ainda dois assentos no conselho de administração da empresa que, segundo Greg Bensinger, um dos jornalistas do The Wall Street Journal que avançou a notícia em primeira mão, deverão ser atribuídos a Rajeev Misra, o presidente executivo do Vision Fund, o fundo multimilionário do SoftBank, e Marcelo Claure, o presidente executivo da Sprint.

Desta forma, a posição do SoftBank na Uber poderá ditar o começo de uma nova era para a empresa, enquanto o capital fresco injetado pelos investidores garantirá alguma liquidez, numa altura em que a empresa tem vindo a registar prejuízos trimestre após trimestre. Um dado curioso avançado também pela CNBC é o de que já existia uma ligação entre o SoftBank e a Uber. Dara Khosrowshahi, o líder da Uber, é membro do conselho de administração da Fanatics, uma empresa igualmente financiada pelo SoftBank.

Chegou até aqui e ainda não sabe o que é, afinal, o SoftBank? Pois bem: está longe de ser um banco. Na verdade, começou por ser uma empresa de software e evoluiu até se tornar num dos maiores conglomerados de empresas do mundo, com uma forte componente tecnológica. Aos comandos da nave está Masayoshi Son, um empresário e empreendedor japonês que, por pouco, não perdeu tudo o que tinha quando se deu o crash da bolha das dotcom no início do milénio.

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António Costa

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