Davos arranca hoje. O que é que estes oito portugueses vão fazer à aldeia onde se reúnem os poderosos?

A desigualdade salarial entre ricos e pobres e entre géneros marcará a 48ª edição de Davos. Entre a primeira visita de Trump e a aliança de Merkel e Macron, Costa vai à "caça" de investimento.

Montagem ECO.

Em Davos, o dia de Portugal não é a 10 de junho, mas a 24 de janeiro. Esta quarta-feira será o dia de destaque para o país num almoço que deixa duas perguntas: “Porquê Portugal? E porquê agora?” A resposta será dada pelo Governo português e o objetivo é atrair potenciais investidores. Mário Centeno e Manuel Caldeira Cabral estarão ao lado de António Costa para tentar captar investimento, mas também para promover o país junto da imprensa internacional — jornais como o The Guardian, Politico ou Der Spiegel são alguns exemplos da lista de convidados. Costa vai até ter a ajuda de Paddy Cosgrave, o fundador do Web Summit, que dará o testemunho de alguém que decidiu levar um evento mundial de Dublin para Lisboa.

O primeiro-ministro vai subir ao grande palco de Davos na quinta-feira para falar sobre o reforço do projeto europeu ao lado do primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, e da comissária europeia do comércio, Cecilia Malmström. Fonte de São Bento explica ao ECO que, além desse momento principal, António Costa participará brevemente num painel sobre o emprego jovem na Europa, num evento sobre o Web Summit e será orador numa sessão sobre a sustentabilidade da economia dos oceanos.

António Costa vai ainda aproveitar a sua presença em Davos para reunir com João Lourenço, após sucessivos adiamentos na sua ida a Angola. Mas o pedido do encontro partiu de Angola. O primeiro-ministro falará com o presidente angolano numa altura em que o impasse entre a justiça angolana e a justiça portuguesa continua dado que a Operação Fizz, que envolve o ex-vice-presidente angolano Manuel Vicente, está em stand-by.

Na lista dos portugueses que dão cartas lá fora, o destaque vai para Guterres, Moedas e Centeno, os três com cargos políticos internacionais. O secretário-geral da ONU está no cargo há um ano e espera-se que aproveite Davos para falar sobre dois assuntos que marcam a agenda mundial: imigração e alterações climáticas. Já o comissário europeu para a Inovação vai intervir em três painéis sobre a internet of things, o investimento europeu na inovação e no empreendedorismo tecnológico e sobre a investigação científica. O presidente do Eurogrupo não tem, para já, nenhum evento marcado.

Regressando ao Governo, Manuel Caldeira Cabral terá a oportunidade de dividir o palco com o rapper norte-americano will.i.am num painel sobre o talento relacionado com ciência, tecnologia, engenharia e matemática que irá ditar a criação de emprego no futuro. O ministro da Economia português será orador em vários painéis, mas o ponto alto da sua visita será o conjunto de reuniões bilaterais com grandes empresas e na segunda-feira o encontro de elite do Financial Times. Em Davos estará também Ana Teresa Lehman, secretária de Estado da Indústria.

Algumas empresas portuguesas também disseram “presente” à chamada de Davos. Há uma delegação da AICEP que se deslocará à Suiça, mas também estarão presentes os representantes da Sonae e da Jerónimo Martins: Cláudia Azevedo, José Soares dos Santos e Henrique Soares dos Santos estão na lista oficial de participantes do encontro mundial. As grandes empresas costumam aproveitar este evento para fazer networking e procurar potenciais parceiros para novos mercados.

Apesar da idade média dos participantes em Davos ser superior a 50 anos, também há participantes mais novos graças à iniciativa internacional Global Shapers. O professor da NOVA SBE, Afonso Mendonça Reis, é um desses exemplos, confirmou o próprio ao ECO. Também Cristina Fonseca, cofundadora da Talkdesk, vai marcar presença em Davos.

Mas não é só a economia “pura e dura” que estará presente. O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, esteve este domingo em Davos para uma reunião informal de ministros da Cultura. “Ideias para a cultura, projetos para a Europa”, anunciou o Ministério da Cultura na sua conta de Twitter, sem adiantar mais pormenores sobre o conteúdo do encontro.

Trump, uma economia a crescer e a desigualdade salarial e de género

De terça-feira a sexta-feira, os mais poderosos do mundo reúnem-se em Davos, uma pequena cidade na Suíça. Rodeados por um cenário de neve, os participantes vão discutir vários assuntos centrados num tema: criar um futuro de partilha num mundo fraturado. A presença de Donald Trump é a mais esperada no encontro económico dado que há vários anos que nenhum presidente dos Estados Unidos ia a Davos. É esperado um “confronto” com as ideias de Angela Merkel e Emmanuel Macron, os dois líderes europeus que vão à Suíça mais unidos do que nunca.

O destaque será também para os países emergentes como a Índia e o Brasil. Já o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, está a apostar na promoção da Índia como a quinta maior economia do mundo. O Brasil, pela mão de Michel Temer, tentará recompor a sua reputação internacional após os escândalos internos, numa edição que fica também marcada pela presença da Petrobras, a empresa envolvida na Operação Lava Jato.

Mas não vão ser só figuras políticas a brilhar na Suíça. Pela passadeira de gelo passarão também nomes do setor artístico como Cate Blanchett e Elton John, depois de Shakira ter estado presente no ano passado. Mas o foco estará nos empresários mundiais: Ginni Rometty, presidente-executiva da IBM; Paulo Cesar de Souza e Silva, CEO da Embraer; Sundar Pichai, CEO da Google; Sheila Patel, CEO da Goldman Sachs International; e muitos outros empresários de peso mundial.

Este encontro acontece numa altura em que a economia global está a acelerar após uma dura crise. Depois de um crescimento de 3,7% em 2017, o Fundo Monetário Internacional — que atualizou as suas previsões esta segunda-feira — espera que a economia acelere para 2,9% este ano. Políticos e empresários terão a oportunidade de discutir na Suíça a recuperação económica, a forma de evitar uma nova crise, mas também a crescente desigualdade de riqueza entre ricos e pobres. E homens e mulheres.

Segundo os dados da organização, apenas 21% dos participantes são mulheres. Este é um tema que vai marcar esta edição uma vez que é presidida por sete mulheres pela primeira vez. No grupo destacam-se Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, e Erna Solberg, primeira-ministra da Noruega.

A desigualdade de géneros será um dos focos também à boleia do movimento #MeToo que continua a marcar a agenda mediática de Hollywood. O programa de Davos reflete isso mesmo: no novo espaço “We Need To Talk About” vai-se falar sobre o privilégio de classe, a imigração, o assédio sexual, a religião, a saúde mental, a raça, a identidade LGBTQ e o estigma com a deficiência.

O “1%” vai falar sobre desigualdade

A Oxfam lançou em relatório em antecipação do encontro. E os resultados não são positivos: 82% da riqueza estava concentrada nos 1% dos mais ricos em 2017 e as mulheres continuam a ganhar menos do que os homens. A desigualdade é tal que apenas 42 pessoas detêm a mesma riqueza dos 50% mais pobres do mundo.

A organização internacional — cuja missão é lutar contra a pobreza — revela que os multimilionários têm multiplicado nos últimos anos enquanto as 3,7 mil milhões de pessoas mais pobres continuam com o mesmo nível de riqueza. A Oxfam dá exemplos da desigualdade: nos Estados Unidos, um presidente executivo de uma empresa ganha num dia aquilo que um trabalhador normal ganha num ano inteiro.

É, por isso, incontornável que o tema da desigualdade passe por Davos. Até porque, para além da desigualdade entre ricos e pobres, a desigualdade entre género vai ser um dos principais focos deste encontro que é liderado, pela primeira vez, por sete mulheres. O estudo da Oxfam mostra que nove em cada dez multimilionários são homens. E que seria necessários 216 anos, ao ritmo atual, para acabar com o fosso entre os salários dos homens e das mulheres.

O relatório da organização internacional contou com o contributo de 70 mil pessoas de 10 países. Quase dois terços dos inquiridos afirmou que é urgente resolver o problema da desigualdade entre os ricos e os pobres.

Os números de Davos

  • Mais de 3.000 participantes, sendo que apenas 21% são mulheres;
  • 340 figuras públicas, incluindo mais de 70 líderes de Governo e 45 líderes de organizações internacionais;
  • Mais de 1.900 empresários de todas as indústrias;
  • 50 representantes da Global Shapers;
  • 32 pioneiros na área da tecnologia;
  • 40 líderes culturais;
  • A idade média dos participantes é superior a 50;
  • Este é o 48.º encontro do Fórum Económico Mundial, mais conhecido por Davos;

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