New York Times vê uma Lisboa “próspera”. Mas o boom do dinheiro estrangeiro está a sair caro aos residentes

A capital portuguesa tornou-se um exemplo da recuperação económica da Europa. Mas o dinheiro estrangeiro está a gerar novos problemas para os habitantes locais.

Os preços médios da habitação em Lisboa subiram 50% em três anos.Pixabay

Lisboa prospera. Sete anos depois do resgate financeiro, em que Portugal recebeu ajuda externa no valor de 78 mil milhões de euros, é visível o fluxo de turistas que visitam a capital portuguesa, que já não é nada como era dantes. A Baixa está a ser reconstruída, o desemprego segue em queda, as exportações estão a aumentar e o mercado imobiliário cresce a grande ritmo, muito graças ao investimento estrangeiro e ao alojamento local.

O cenário é traçado pelo jornal The New York Times (acesso condicionado) que, num artigo publicado esta quarta-feira, questiona também que preço estão os lisboetas a pagar por todo este boom. Desde logo, toda a prosperidade que tornou Lisboa um “exemplo privilegiado da recuperação económica da Europa” não se está a refletir nos rendimentos, com o salário médio em Portugal a rondar os 850 euros. Depois, o preço da habitação, outra dor de cabeça, aumentou uma média de 30% em dois anos, ou 50% desde 2015.

“O renascimento de Lisboa ressente-se em muitos residentes menos privilegiados, que estão a ser despejados de forma abrupta de um extremo para outro. Em algumas ruas, os dois extremos vivem lado a lado”, escreve o jornalista Raphael Minder no mesmo artigo. Este contraste torna-se evidente nos edifícios de luxo detidos pelos investidores estrangeiros que contrastam com os bairros mais antigos, como a Mouraria.

O The New York Times conta ainda a história de um lisboeta que vendia tapetes tradicionais e que, em 2013, viu a sua renda subir de 300 euros para 1.200 euros. “Há uns meses, o senhorio disse-lhe que tem de sair da casa até julho”, refere ainda o jornal norte-americano. Vai começar a gerar receita em agosto com um imóvel que comprou há dois anos num leilão levado a cabo pelo município e deverá começar um emprego novo em breve, a servir vinho num bar que vai abrir no rés-do-chão.

A ex-deputada Ana Drago é também citada pelo jornal: “A estratégia portuguesa para sair da crise baseou-se em atrair investimento estrangeiro, que resolveu a maioria dos problemas financeiros mas agora está a criar novos problemas para as nossas gentes, como é o caso desta crise no imobiliário em Lisboa”, disse. Já Luís Correia da Silva, diretor do resort Dom Pedro, disse que o investimento estrangeiro está a “criar problemas de imobiliário em algumas zonas” da cidade. Contudo, recorda que “ninguém queria fazer nada para salvar essas zonas há alguns anos”.

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