“Relação com o poder central é um grande travão ao crescimento de Braga”

O presidente da Câmara de Braga não tem dúvidas: "a relação com o poder central é um grande handicap ao crescimento de Braga". Pede, por isso, mais políticas públicas ao serviço da economia.

Quando Ângela Merkel iniciou a visita de dois dias a Portugal pela cidade de Braga, os holofotes acenderam-se sobre a cidade comandada por Ricardo Rio. A visita, da chanceler alemã, à Bosch teve repercussões internacionais. Fez mais pela cidade do que muitas missões empresariais ao estrangeiro. A cidade tem captado investimento estrangeiro, em que o caso da Bosch é paradigmático, e o grande segredo parece residir na Universidade do Minho e na ligação que esta tem com as empresas nacionais.

Mas para continuar a atrair investimento é importante que as estruturas públicas funcionem, como defende o presidente da Câmara de Braga. “A relação com o poder central é, de resto, um grande handicap ao crescimento”, refere o autarca. Até para que, como diz o economista Fernando Alexandre, professor da Universidade do Minho, “o país possa ser todo mais parecido com o norte”. Ou seja, mesmo com poucos apoios, o norte consegue crescer mais do que o resto do país.

Este foi, de resto, um ponto muito focado no debate que teve lugar na cidade dos Arcebispos, inserido na 4ª edição do Fórum Desafios e Oportunidades da região, iniciativa do EuroBic, e onde participavam o presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio, Fernando Alexandre, professor da Universidade do Minho, José Vilas Boas Ferreira, presidente do grupo Valérius e José Teixeira, presidente do grupo DST.

Fernando Alexandre pôs a tónica do discurso nas políticas públicas — sempre muito centralizadas — e no papel que o capital humano — escasso — desempenha.

Para o professor universitário, o segredo de Braga está na relação privilegiada que a Universidade do Minho soube estabelecer com os empresários e com as empresas da região. O exemplo da Bosch é de novo apontado, até porque vai ser replicado em outras empresas, e isso só foi possível porque “produzimos ciência de primeira água”

O ADN da Universidade passa por contribuir para o desenvolvimento da região” e, para isso, “foi preciso ir angariar prestígio no estrangeiro”. Fernando Alexandre diz que “a própria Universidade sempre teve a perspetiva que não se afirmaria na região se não se afirmasse no exterior e, a partir daí, o respeito surgiu naturalmente”. A Universidade do Minho coloca no mercado perto de três mil pessoas no mercado todos os anos.

Mas se as politicas públicas são um problema, a banca, no passado, não fez melhor. “A banca concentrou o dinheiro nos setores não transacionáveis. Agora é preciso que esteja atenta às empresas em crescimento”, enfatiza Fernando Alexandre.

Ricardo Rio, presidente da Câmara Municipal de Braga, concorda com a visão de Fernando Alexandre. E até vai mais longe: “Braga compete hoje com todos os outros territórios, não só com aqueles que nos rodeiam, mas também com o resto da Europa e com o Mundo”, frisa Rio.

O presidente da autarquia minhota diz mesmo que é preciso “dar visibilidade à cidade e aos recursos para atrair mais investimentos”. “Temos resultados muito positivos, mas esperamos ainda mais porque o potencial é enorme”, remata.

“Não podemos depender de um setor de atividade, temos que diversificar os ovos do cesto, queremos ter as biotecnologias, as ciências da saúde, onde a Universidade tenha valências, para captar novos investimentos. Para isso, é importante que as estruturas públicas funcionem”, acrescenta o presidente da Câmara.

“A relação com o poder central é um grande handicap ao crescimento de Braga”, mas acrescenta “com sacrifício e esforço que não existe noutras regiões temos sabido ultrapassar”.

Do mundo da Universidade e da política para o mundo empresarial. O presidente da DST, um empresário que pensa “fora da caixa”, diz que é importante levantar questões. “Com a globalização, quem é que governa? Quem é o regulador?”, pergunta. Para José Teixeira, “é importante que nas empresas haja alguém que esteja “à janela”, que “olhe o mundo e veja como é que ele está a girar”.

O patrão da DST considera que as empresas nacionais têm “uma percentagem de ciências e doutorados baixa. Somos empreendedores, produzimos calorias, mas as ligações às Universidades e aos centros de saber são importantes”.

Sobre os investidores que procuram Braga, José Teixeira tem uma opinião… diferente. Para o empresário “numa fase inicial eles vêm comprar mão-de-obra barata e nós temos que ter uma atitude inteligente perante isto”. No fundo, José Teixeira, espera a criação de um ecossistema empresarial capaz de competir contra esses gigantes internacionais. Até porque acrescenta, é preciso “mudar o perfil das exportações. O país não pode depender de apenas um setor exportador”.

José Vilas Boas Ferreira, presidente do grupo Valérius, concorda com o homem da DST. E acrescenta: “hoje as empresas têm que pensar de forma diferente”.

Com interesses no automóvel e no têxtil, o presidente da Valérius diz que os dois setores representam realidades diferentes. De um lado, o automóvel repleto de quadros universitários, do outro, o têxtil onde faltam quadros intermédios formados. Um aspeto tanto mais importante na medida em que “não se pode errar, uma vez que não há lugar para segundas oportunidades”.

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