Economia tem de crescer 2,5% no final do ano para atingir meta do Governo. Será difícil, alertam economistas

O Governo prevê que a economia cresça 2,3% este ano. Mas segundo o INE, o PIB abrandou no terceiro trimestre. Para atingir a meta anual de Centeno, a economia terá de crescer 2,5% no quarto trimestre.

A economia portuguesa terá de registar uma progressão de 1%, no quarto trimestre, em relação aos três meses anteriores, para que a meta de crescimento de 2,3% estimada pelo Executivo para 2018 se cumpra. Já em termos homólogos, nos últimos três meses do ano, o PIB teria de crescer 2,5%, isto tendo por base os valores divulgados esta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística referentes a terceiro trimestre.

Segundo a estimativa rápida do INE, no terceiro trimestre, a economia registou um abrandamento do crescimento de 0,3%, em cadeia, e de 2,1% face ao mesmo trimestre de 2017. De acordo com os cálculos dos economistas consultados pelo ECO, Portugal terá de crescer 1% em cadeia no quarto trimestre para terminar o ano com uma progressão de 2,3%, tal como está inscrito na proposta de Orçamento do Estado para este ano.

A maior parte dos economistas já não acreditava nesta meta, antes mesmo de serem conhecidos os dados do terceiro trimestre. A média apontava para um crescimento de 2,2% este ano. Mas, a procura interna registou um contributo menos positivo, resultado da desaceleração do consumo privado, e as exportações passaram de um contributo positivo para negativo, o que torna o crescimento de 2,5% no quarto trimestre “difícil” na avaliação de vários economistas.

“O BPI antecipa um crescimento anual de 2,1% em 2018. A informação divulgada pelo INE relativa ao terceiro trimestre confirma a nossa perspetiva, pelo que não iremos rever a nossa previsão”, disse ao ECO, a economista-chefe do BPI. “A meta de 2,3% não é impossível de alcançar, embora a atual tendência de desaceleração das economias externas e a base de comparação (crescimento muito alto no quarto trimestre de 2017) tornem esta meta menos provável”, acrescenta Paula Carvalho.

O Millennium BCP também mantém a sua previsão de crescimento de 2,1%, em 2018, confirmou ao ECO José Maria Brandão de Brito, tal como o BBVA. “Para já mantemos a previsão de 2,1% para o ano de 2018, mas estamos dependentes da evolução da zona euro”, disse ao ECO a equipa de research do banco espanhol.

A Comissão Europeia, nas previsões de outono, também duvida das previsões do Executivo. Bruxelas explicava que o crescimento da economia de 2,3%, em termos homólogos, na primeira metade de 2018 se deveu, sobretudo, à “forte procura interna”. Mas a procura externa vai abrandar e, consequentemente, o PIB português também. Bruxelas aponta para um crescimento de 2,2%, em 2018.

Portugal já não cresce 1% em cadeia desde o terceiro trimestre de 2016 (1,1%). Nesse ano, o INE explicou que esta aceleração do PIB na reta final do ano resultou “do maior contributo da procura interna”, graças a uma recuperação do investimento, como numa aceleração do consumo privado.

Em 2017, o grande motor dessa aceleração foi a entrada em produção do modelo T-Roc, na Autoeuropa (outubro de 2017), mas esse efeito tende a desvanecer-se ao longo dos meses. Além disso, explicou ainda ao ECO um economista, no terceiro trimestre deste ano até houve uma forte antecipação na compra de carros dado o receio dos consumidores de que a fiscalidade ia aumentar. Uma alteração que entretanto foi empurrada para janeiro.

Entre os fatores que dificultam um acelerar tão significativo da economia no quarto trimestre está o abrandamento do turismo e das exportações, num contexto de abrandamento europeu, sobretudo agora que se ficou a saber que a Alemanha, o motor da economia europeia, sofreu uma contração do PIB, em cadeia, de 0,2% no terceiro trimestre. Esta é a primeira contração desde 2015. Além disso, os indicadores de atividade e de confiança em Portugal, apesar de permanecerem num patamar elevado, decresceram desde início do ano.

O terceiro trimestre foi bastante pior do que se estava à espera“, sublinhou ao ECO Joaquim Miranda Sarmento. “Vai ser bastante difícil chegar a um crescimento de 2,3% em 2018, seria necessário que as coisas corressem muito bem“, reconhece, lembrando que as notícias apontam em sentido contrário, nomeadamente com a paragem das exportações da Autoeuropa, por causa da greve no porto de Setúbal.

Além disso, não cumprir a meta de crescimento em 2018 terá “efeito em 2019, porque a base de que se parte é mais pequena”. O economista explica, por exemplo, que se no quarto trimestre a economia crescesse 0,6%, em cadeia, tal como no segundo trimestre, então no conjunto do ano, Portugal só cresceria 1,9%. “Qualquer crescimento inferior a 2,2% em 2018 torna mais difícil atingir o objetivo de PIB nominal em 2019, com as necessárias consequências no cumprimento do défice. O Executivo prevê crescer 2,2% em 2019 e um défice de 0,2%.

“Crescer 2,3% em 2018 é quase impossível”

“Crescer 2,3% em 2018 é quase impossível”, corrobora Pedro Braz Teixeira. O economista chefe do Fórum para a Competitividade sublinha ao ECO que “não há razão nenhuma para acreditar num pico de crescimento no quarto trimestre superior a todos os outros”. Além disso, acrescenta, “a margem de manobra é muito curta”.

No entanto, como sublinhou um outro economista ao ECO, até pode haver uma “surpresa” do lado do investimento, sobretudo tendo em conta que se avizinha um ano de eleições. Ainda assim, teria de ser uma inversão de tendência muito marcada.

No mesmo registo mais positivo, o economista Pedro Ramos, disse ao ECO que está confiante de que será possível cumprir a meta de 2,3% este ano, “a menos que haja surpresas”, porque “está em causa um crescimento da mesma ordem de grandeza, cerca de 2,4%, em termos homólogos no quarto trimestre, porque a média do crescimento é ponderada e não simples”. O ex-diretor de Contas Nacionais do INE até admite que o crescimento possa ser uma décima abaixo, mas “isso não tem importância nenhuma para o país”. Pedro Ramos não exclui, contudo, que Portugal será afetado pela contração da economia alemã, mas esse efeito só se deverá sentir a partir do primeiro trimestre do próximo ano.

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