Multitasking. “Ser ou não ser, eis a questão”

As empresas de recrutamento veem os dois lados do fenómeno. Se há quem o encare como um sinal de polivalência, há também quem se assuste com a falta de foco e consequente baixa produtividade.

É um conceito um tanto ou quanto contraditório. Se, por um lado, é encarado como “uma grande vantagem para qualquer perfil”, por outro, é visto como “um absoluto mito”, associado à perda de produtividade. A tecnologia veio aumentar o número de estímulos, dificultando a gestão da atenção e as novas gerações são as mais afetadas, enfrentando agora o desafio de estabelecer um foco.

O multitasking assume, assim, o pior e o melhor. O ECO foi falar com quem está por dentro dos processos de recrutamento e ouvir a explicação do mundo da psicologia.

Mas comecemos pelo princípio. Por definição, multitasking significa executar diferentes tarefas ao mesmo tempo. Fala-se, ainda, de multitasking para a mudança entre tarefas, ou seja, quando estamos a fazer alguma coisa e deixamo-la a meio para começar outra.

No mundo o trabalho, na hora de recrutar, um candidato que está habituado a fazer várias tarefas é, à primeira vista, alguém polivalente e, por isso, vantajoso para a empresa. “O multitasking continua a ser [em termos gerais] uma característica valorizada [no mercado] porque indica, geralmente, competências de polivalência, capacidade de adaptação e de fazer acontecer”, explica Luísa Pinho, senior manager da Professionals, Randstad.

A Michael Page, por sua vez, diz que esta característica é, inclusive, “cada vez mais apreciada pelos empregadores”. “A polivalência e a flexibilidade são uma grande vantagem para qualquer perfil. Ocorreu uma mudança de paradigma, em que deixámos de ter funções completamente rígidas dentro das organizações. É cada vez mais pedido aos profissionais que desempenhem funções transversais a várias áreas da empresa”, afirma Álvaro Fernández, diretor geral da Michael Page Portugal, ao ECO.

Mas os consultores estão cada vez mais atentos e sensíveis a esta questão e é aqui que surge aquela que é, talvez, a conotação menos positiva do multitasking. “Este conceito está, também, associado à perda de produtividade no cumprimento e gestão das tarefas“, salienta Luísa Pinho.

Percebemos que a valorização de mercado está essencialmente no foco, depois na polivalência e, em última instância, na multitarefa.

Luísa Pinho

Senior manager da Randstad

“Quando tentamos desconstruir o conceito junto dos nossos clientes, percebemos que a valorização do foco se sobrepõe a esta capacidade. O foco perde-se à medida que recorremos a uma multitarefa, porque colocamos partes diversas do cérebro a trabalhar em simultâneo”, continua.

Perante dois candidatos, um mais polivalente e outro com uma grande capacidade de foco, parece que a escolha do empregador recai, apesar de tudo, sobre o segundo. “Percebemos que a valorização de mercado está essencialmente no foco, depois na polivalência e, em última instância, na multitarefa“, resume.

“Um absoluto mito”

No mundo da psicologia, “o multitasking é um absoluto mito”, diz a psicóloga Teresa Espassandim, acrescendo que, muitas vezes, o termo é confundido com produtividade.

“Para fazer qualquer tarefa, é preciso que nos foquemos no objetivo. Ora, quando mudamos ou alternamos de tarefa, estamos também a mudar o objetivo. Nesta troca há sempre uma perda de tempo e de esforço“, explica.

“Há estudos que apontam para perdas de produtividade bastante significativas e que podem implicar um aumento de tempo de trabalho na ordem dos 40%”, refere Luísa Pinho, da Randstad.

Seguindo o raciocínio da psicóloga, ao aplicar mais esforço numa tarefa, é normal que o nível de cansaço aumente e que, por isso, diminua a produtividade. “Quanto mais cansados, menos capazes somos de dirigir a atenção”, explica a psicóloga. Por outro lado, também o grau de eficiência sai prejudicado com a multitarefa, pois “acabam por cometer-se mais erros”.

Já Ana Jorge, professora de comunicação da Universidade Católica, considera que “o multitasking, por si só, não define a produtividade”, dependendo sempre das tarefas em questão e da hierarquia. “Os empregadores não devem colocar sobre os funcionários a exigência de fazerem multitasking. Devem antes promover um clima de trabalho saudável, sem que os sobrecarreguem com várias tarefas ao mesmo tempo”, explicou.

“Os millennials já nasceram multitasked”

Ainda que as opiniões se dividam, existe algo que é unânime. Apesar de o multitasking não estar exclusivamente associado aos jovens, a verdade é que surgiu de mãos dadas com o avançar da tecnologia. A maior panóplia de estímulos veio, sem dúvida, dificultar a gestão da atenção.

É por isso mesmo que, muitas vezes, as gerações mais atuais são apelidadas de multitasking, seja pela educação e perfil, pela influência da era digital ou pela diversidade de estímulos que têm ao seu dispor”, refere Álvaro Fernández, da Michael Page.

“Os mais jovens têm mais essa capacidade ou interesse de se ligarem a diferentes tarefas. Eles tentam acompanhar várias atividades ao mesmo tempo”, explica a professora universitária.

“Por estarem sujeitos a constantes estímulos — smartphones, multiple apps a funcionar em simultâneo e informação diversa disponibilizada em diferentes locais, a toda a hora e à distância de um toque no ecrã — os millennials já nasceram multitasked“, acrescenta Luísa Pinho.

Mas atenção, a familiarização com todos estes estímulos não é, de todo, sinónimo de uma maior capacidade para gerir a atenção, pelo menos é o que pensa Teresa Espassandim. “Os jovens têm, também, mais dificuldade em focar a atenção e isso é conhecido na geração atual”, acrescenta.

Perante o maior número de distrações, estabelecer um foco torna-se, agora, um enorme desafio para estes jovens. Por um lado, “tendem a aborrecer-se com tarefas mais rotineiras ou automatizadas”, por outro “têm de encontrar uma forma de estar focados na tarefa e continuarem estimulados”.

Temos de reconhecer que é um problema se as gerações atuais não conseguirem dirigir o foco.

Teresa Espassandim

Psicóloga

“Temos de reconhecer que é um problema se as gerações atuais não conseguirem dirigir o foco”, alerta a psicóloga.

Para Álvaro Fernández, o desafio para o futuro é outro. “Mais do que um problema de foco, o grande desafio dos millennials é a capacidade de aguardar pelos resultados e pelo reconhecimento, o que pode afetar a sua motivação e sentimento de pertença à organização”, refere.

As mais recentes gerações que entraram no mercado de trabalho são, sobretudo, “profissionais que procuram tudo no imediato”. “Querem compreender rapidamente qual o seu papel da empresa, ver rapidamente os seus resultados e um reconhecimento imediato”, acrescenta o o diretor geral da Michael Page Portugal.

Corresponder à expectativa dos novos profissionais e à sua forma de ver a realidade é, para Álvaro Fernández, “o verdadeiro desafio do futuro, tanto para os líderes como para os próprios colaboradores”.

Para Luísa Pinho, a questão é: “Será assim tão produtivo ser multitasked? Simplesmente não é possível do ponto de vista cognitivo desempenharmos duas tarefas com o mesmo nível de eficiência que desempenharíamos somente uma“.

Mas o futuro pode também trazer alguns problemas ao nível comportamental, sejam eles de relacionamento, de comunicação ou produtividade. Teresa Espassandim aponta, ainda, o cansaço, a irritação e o stress. “Se eu tiver sempre o meu telemóvel no bolso, em cima da mesa ou ao meu lado, eu vou estar sempre em esforço para resistir à tentação de abrir a notificação. Esse esforço deixa-me mais irritadiça e menos tolerante com os outros”, explica.

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