Famílias voltam a apostar nos velhinhos certificados de aforro. O que mudou?

Há três meses que o investimento em certificados de aforro cresce, após dois anos de quebras. Ausência de novas OTRV, vencimento de aplicações do Estado e juros baixos dos depósitos ajudam a explicar.

Criados há quase 60 anos, durante muito tempo os certificados de aforro foram das aplicações preferidas dos portugueses para rentabilizar poupanças. Nos últimos anos, contudo, perderam grande parte do brilho, com o dinheiro a ser encaminhado para outros produtos com retornos mais atrativos, oferecidos até pelo próprio Estado. Hoje, o produto continua a ser o mesmo, bem como a fórmula da remuneração, mas algo mudou. Há três meses que o investimento em certificados de aforro cresce.

Os últimos dados do Banco de Portugal mostram que o montante total aplicado em certificados de aforro engordou, em janeiro. O investimento no mais antigo produto de poupança do Estado cresceu 20 milhões de euros face a dezembro.

O primeiro mês deste ano foi assim o terceiro seguido (primeiro foi novembro de 2018) em que os certificados de aforro ganharam dinheiro, invertendo o rumo descendente observado ao longo de dois anos. Seria ainda necessário recuar até julho de 2016 para ver as aplicações em certificados de aforro aumentarem dinheiro tanto como em janeiro deste ano.

Evolução dos montantes aplicados em certificados

As condições de adesão a este produto não se alteraram, nem foram incorporadas melhorias na sua remuneração. O que fará então com que subam os montantes aplicados? Parte da justificação estará no quadro em torno das restantes opções de poupança.

“Penso que se explica essencialmente com a ausência de novas operações de OTRV, o vencimento de algumas aplicações de poupança do Estado e com a manutenção de taxas muito baixas nos depósitos junto da banca“, enumera Filipe Garcia, presidente da IMF.

Começando precisamente pelas Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV), a última série destes títulos de dívida pública foi lançada em julho do ano passado, a única realizada em 2018. Situação bastante distinta face ao que se verificou nos dois anos anteriores em que ocorreram sempre três operações: em abril, julho e dezembro. Em 2019, ainda não há nenhuma indicação de quando se realizará uma operação do género.

"Explica-se [o aumento do investimento em certificados de aforro] essencialmente com a ausência de novas operações de OTRV, o vencimento de algumas aplicações de poupança do Estado e com a manutenção de taxas muito baixas nos depósitos junto da banca.”

Filipe Garcia

IMF

Já no que respeita ao vencimento de outros produtos de poupança do Estado que também poderá estar a mobilizar quantias para os certificados de aforro é um ponto de vista também defendido por António Ribeiro, economista da Deco. “Os primeiros Certificados do Tesouro Poupança Mais (CTPM) vão começando a vencer, e as pessoas procuram alternativas para aplicar esse montante. Como neste momento as alternativas que têm são os certificados de aforro ou os Certificados do Tesouro [Certificados do Tesouro Poupança Crescimento, (CTPC)], se calhar optam pelos certificados de aforro”, explica o economista da Deco.

Em novembro, começaram a vencer os primeiros Certificados do Tesouro Poupança Mais (CTPM), ditando a primeira saída de fundos dos certificados do Tesouro no espaço de cinco anos. Em contrapartida, o mesmo mês foi marcado pela primeira subida das quantias aplicadas em certificados de aforro após dois anos seguidos em que encolheram.

Dado que os CTPC têm um período de indisponibilidade, muitos aforradores preferem os certificados de aforro“, diz Filipe Garcia, concretizando assim uma das possibilidades para o crescimento das aplicações nos velhinhos certificados de aforro, num contexto em que alternativas como os depósitos a prazo também não são apelativas.

"Os primeiros Certificados do Tesouro Poupança Mais (CTPM) vão começando a vencer, e as pessoas procuram alternativas para aplicar esse montante.”

António Ribeiro

Deco

No caso dos CTPC, os aforradores apenas podem mobilizar as quantias aplicadas no fim do primeiro ano de aplicação. No caso dos certificados de aforro, o prazo mínimo é de três meses, o que dá uma maior margem de manobra ao aforrador para resgatar caso encontre uma solução de aplicação mas atrativa.

Em termos de remunerações, os números também não jogam muito a favor dos CTPC. Quando este produto foi lançado em substituição dos anteriores Certificados do Tesouro Poupança Mais (CTPM), para além de passar a ter um horizonte de investimento maior (sete anos em vez de cinco), passou a ser remunerado a uma taxa de juro mais baixa.

No fim dos sete anos apresenta uma taxa de juro média, sem bonificações, de 1,39%, abaixo dos 2,25% que os CTPM pagavam em média ao fim de cinco anos. A perda de atratividade é notória sobretudo nos primeiros anos de aplicação. No primeiro e segundo ano, os aforradores beneficiam de uma taxa de juro média de 0,75%, não muito acima dos certificados de aforro cujas subscrições realizadas em fevereiro são remuneradas a uma taxa de juro de 0,692%.

"Dado que os CTPC têm um período de indisponibilidade, muitos aforradores preferem os certificados de aforro.”

Filipe Garcia

IMF

Este é o quadro no que respeita aos produtos de poupança do Estado. Mas saindo desse universo também não há propriamente razões para sorrir, em concreto na banca, onde as soluções disponíveis não são muito apelativas. Os depósitos a prazo nunca ofereceram retornos tão baixos como agora. A taxa de juro média oferecida pelos bancos nas novas aplicações a prazo manteve-se em dezembro, no mínimo histórico de 0,15%, segundo os últimos dados do Banco de Portugal.

“Comparativamente à maioria dos depósitos os certificados de aforro são mais interessantes”, concretiza António Ribeiro, acrescentando que “como as pessoas não conseguem encontrar alternativas melhores sobretudo nos grandes bancos, então aplicam nos certificados de aforro”.

Entre os cinco maiores bancos nacionais, para o prazo de um ano, a melhor taxa de juro que se consegue é de 0,10%. É oferecida num produto do Novo Banco, seguem-se a CGD, BCP e Santander que propõem um juro de 0,05%, sendo que no BPI o 0% é a norma na remuneração dos depósitos.

Melhores depósitos a um ano nos cinco maiores bancos

Qualquer dessas taxas é menos atrativa quando comparada com a das novas aplicações em certificados de aforro. As subscrições de títulos da série E realizadas em fevereiro beneficiam de uma taxa de juro de 0,692%. Ou seja, acima da remuneração oferecida nos melhores depósitos a um ano.

"Comparativamente à maioria dos depósitos os certificados de aforro são mais interessantes. Como as pessoas não conseguem encontrar alternativas melhores sobretudo nos grandes bancos, então aplicam nos certificados de aforro.”

António Ribeiro

Deco

Em favor dos certificados de aforro poderá ainda jogar a expectativa face ao futuro rumo das Euribor, que aponta no sentido de uma subida. “A fórmula de cálculo dos certificados de aforro acompanha a Euribor. Como capitaliza três em três meses significa que de três em três meses estará a ajustar à taxa de mercado. Portanto, se a Euribor começar a subir, significa que imediatamente o produto facilmente acompanha as taxas de juro“, concretiza o economista da Deco.

Por sua vez, Filipe Garcia antevê o rumo crescente do investimento em certificados de aforro como uma tendência que “pode manter-se até que o IGCP lance uma nova emissão de OTRV“, lembrando ainda que daquilo que “conhecemos da estratégia do IGCP é que os instrumentos de aforro junto das famílias vão reduzir-se em 2019”.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Famílias voltam a apostar nos velhinhos certificados de aforro. O que mudou?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião