Economia regressa aos défices na balança comercial nove anos depois

O BdP vê a economia a crescer menos, mas mais à custa do consumo privado. A fatura chega em 2020 com a balança de bens e serviços a regressar a terreno negativo devido ao impulso das importações.

O Banco de Portugal (BdP) prevê que a economia portuguesa volte a apresentar um défice na balança comercial no próximo ano, em resultado do comportamento do consumo privado. Desde 2011 que a economia não apresentava um défice na balança de bens e serviços.

De acordo com o Boletim Económico do Banco de Portugal, publicado esta quinta-feira, a balança de bens e serviços vai registar um défice igual a 0,2% do PIB em 2020, depois de este ano apresentar um excedente de 0,2%.

Se as contas do banco central estiverem certas, isto significa uma interrupção na trajetória dos últimos anos, em que a balança comercial se manteve em terreno positivo. O último ano em que a balança foi negativa foi em 2011 (de 3,7% do PIB) quando Portugal começou a implementar o programa de ajustamento económico e financeiro acordado com a troika.

Evolução do saldo da balança de bens e serviços

Fonte: Banco de Portugal (dados para 2019, 2020 e 2021 são previsões)

“Ao longo do horizonte de projeção, e tal como em 2018, o contributo da procura interna para o crescimento do PIB será superior ao das exportações. Neste contexto, o crescimento das importações será maior do que o das exportações, o que se traduz num saldo negativo da balança de bens e serviços a partir de 2020“, diz o boletim publicado pelo banco central.

No entanto, nas previsões de dezembro do ano passado, o Banco de Portugal já via a economia portuguesa a registar um saldo negativo da balança de bens e serviços em 2018, o que acabou por não se verificar.

Ao longo do horizonte de projeção, e tal como em 2018, o contributo da procura interna para o crescimento do PIB será superior ao das exportações. Neste contexto, o crescimento das importações será maior do que o das exportações, o que se traduz num saldo negativo da balança de bens e serviços a partir de 2020.

Banco de Portugal

Apesar de apontar para uma degradação em 2020, a instituição prevê que a balança corrente e de capital mantenha uma posição excedentária até ao final do horizonte de projeção (2021), “com um contributo importante do aumento esperado das transferências da União Europeia (UE) neste período.

O défice comercial previsto para o próximo ano é o reflexo de um crescimento económico mais assente no consumo privado e em que as exportações perdem na comparação com as importações.

Em 2019, quando o PIB deverá aumentar 1,7%, a procura interna contribuiu com 1,3 pontos percentuais do PIB, enquanto as exportações dão uma ajuda de 0,4 pontos percentuais. No próximo ano, mais de dois terços do crescimento vem da procura interna, com as vendas para o exterior a explicarem o restante crescimento do PIB, que o banco central espera que seja igual ao de 2019.

Para este comportamento foram determinantes as revisões em alta face a dezembro no consumo privado e nas importações. O banco central vê o consumo das famílias a subir 2,7% este ano, sete décimas acima do que previa em dezembro, e as importações a crescer 6,3%, mais 1,6 pontos percentuais.

“O aumento do consumo privado está associado à evolução favorável do rendimento disponível real das famílias, que reflete o aumento do emprego e dos salários nominais, incluindo o salário mínimo em 2019, e a evolução contida dos preços”, diz o boletim económico do banco.

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