Empresários chumbam estratégia da direita para os professores

A crise política chegou ao fim, mas deixou marcas. Os empresários não gostaram de ver PSD e CDS ao lado da esquerda a aprovar medidas que implicariam um aumento da despesa certa e permanente.

Não é todos os dias que se vê PSD, CDS, Bloco de Esquerda e PCP votarem lado a lado. Ainda menos quando o que está em causa é uma medida que implica um aumento da despesa pública. Um encargo anual adicional de 800 milhões de euros. O trailer deste filme, uma crise política de morte já anunciada, não foi do agrado dos empresários. Ver partidos “tidos como responsáveis” e “garantes das contas públicas” a aprovar despesa certa e permanente foi algo que os deixou preocupados e com receio de novos aumentos da carga fiscal.

Em cima da mesa estava um ultimato do primeiro-ministro — demitir-se caso fosse aprovada em votação final global o reconhecimento do tempo integral do tempo de serviço dos professores (nove ano, quatro meses e dois dias) — mas o filme acabou por ter uma reviravolta, bem ao jeito de Hollywood, e PSD e CDS recuaram nas suas posições anunciando que afinal não abriam mão da necessidade de a Lei dos professores ter condicionalismos económicos. Ou seja, o reconhecimento dos restantes quase sete anos (dois já estão reconhecidos no decreto lei do Governo) vai depender do crescimento económico, o equilíbrio das contas públicas, respeito pelo Pacto de Estabilidade, pela situação económica e financeira do país, pelo controlo da dívida pública e pela sustentabilidade futura do sistema público, como sublinhou este domingo Rui Rio.

A situação “não deixa de ser apreensiva e produtora de instabilidade, que é aquilo que os agentes económicos não desejam“, diz António Saraiva ao ECO. O presidente da Confederação Empresarial de Portugal considera “preocupante que partidos responsáveis admitam este aumento de despesa. É abrir uma caixa de Pandora de 800 milhões de euros, que podem vir a ser mais se outros grupos exigirem o mesmo tratamento”. “É preocupante esta ligeireza de votação que o país só pode suportar com um aumento de impostos ou um corte maior no investimento por parte de partidos de quem esperávamos mais”, reconhece o patrão dos patrões.

“As empresas não deveriam ter de passar por esta vergonha de perceber que, da direita à esquerda, não há inocentes e que transformam a vida económica e empresarial do país num claro interesse eleitoral, dispostos a sacrificar o médio e longo prazo, por eventuais ganhos de curto prazo”, diz Armindo Monteiro. O presidente da Compta diz mesmo que “é lamentável o que a direita está a fazer” e classifica de “trapalhada” a mudança de posição que entretanto se conheceu no domingo, com a clarificação da intransigência de introduzir condicionantes económicas na lei.

"É preocupante que partidos responsáveis admitam este aumento de despesa. É abrir uma caixa de Pandora de 800 milhões de euros, que podem vir a ser mais se outros grupos exigirem o mesmo tratamento.”

António Saraiva

Presidente da CIP

No entanto, para Armindo Monteiro o que está em causa não é um recuo, mas de uma situação que foi “muito mal explicada pela direita”. “Só está a ser consistente com o que tem dito”, acrescenta numa referência às propostas iniciais que PSD e CDS fizeram ao diploma do Executivo e tinham as tais condicionantes económicas que foram chumbadas pelo próprio PS, como recordou Rui Rio na sua declaração de domingo.

Para João Miranda também não se trata de dar o dito, por não dito. “Antes pelo contrário”, porque a direita foi coerente com aquilo que tem vindo “a apregoar durante tanto tempo”. Caso esta clarificação de posição não tivesse ocorrido, o responsável pela Frulact, uma empresa familiar com perfil altamente exportador, e com fábricas em Marrocos, África do Sul e Canadá admitiu que estava “preocupado” porque era uma prova de que “a direita acabava por se ajustar ao seu interesse mais populista e eleitoralista, completamente ao contrário do que Rui Rio evidencia”.

Uma satisfação idêntica foi demonstrada por Pires de Lima, empresário e ex-ministro da Economia. “Não há maior virtude num líder do que saber ouvir”, disse ao Expresso, este domingo depois de o CDS ter anunciado o recuo na votação da contagem de serviço dos professores. Na edição impressa do semanário, o centrista tinha assumido que estava dececionado com o partido: “Estou dececionado e que não haja ilusões: ou se está com os contribuintes, ou se está com Mário Nogueira. E mais não quero dizer, para não perturbar a campanha do CDS para as europeias”.

O responsável da Calvelex, questionado pelo ECO se tinha ficado surpreendido pela posição da direita, lembra que “esta é uma altura de eleições” — europeias, na Madeira e legislativas –, mas, na sua opinião, é necessário “ter uma forma de estar na política”. “Não sei até que ponto se pode ter uma opinião nas eleições e outra fora delas”, sublinha César Araújo.

Este empresário, que produz vestuário para marcas da gama média-alta e luxo, e exporta as cerca de 800 mil peças que fabrica anualmente, lembra que “o país passou por uma grande crise, foi intervencionado, as pessoas sofreram e a imagem do país, a nível internacional também”. “Não devemos repetir o mesmo erro, não podemos constantemente cair em crises. Isso é demais para a economia do país. Agora que Portugal tem boa uma imagem a nível mundial, e está a dar cartas, as políticas têm de ser responsáveis de modo a manter essa boa imagem”, apela César Araújo, que dá emprego a cerca de 700 pessoas.

A fatura política

Se a direita não tivesse emendado a mão isso poderia “desencadear o descrédito das agências de rating e ter uma fatura elevada para o país”, defende José Manuel Fernandes. O fundador da Frezite, uma empresa maioritariamente exportadora e presente em mais de 50 países, acredita que o PS “vai buscar sinergias e valorização” com este episódio e que “haverá um jogo de cintura para que isto reverta a favor de uma maioria”. E será possível alcançá-la? José Manuel Fernandes deixa essa análise para os comentadores, mas admite que “os partidos da oposição deram um tiro no pé e estão a ajudar a valorizar o Governo”.

Posição idêntica tem Adelino Silva Matos. “A direita portou-se mal e acho que vai ser castigada nas urnas“, defende o empresário que criou, com a sua mulher, em 1980, um grupo com várias unidades de negócio em torno da metalomecânica e da energia. Na sua avaliação, outro dos resultados desta crise poderá ser um aumento ainda maior da abstenção.

“O primeiro-ministro é muito hábil”, reconhece Basílio Simões, mas, na sua opinião, conquistar “a maioria será difícil” ainda que “a direita possa ser penalizada nas urnas. O cofundador da ISA, empresa da qual já não faz parte porque vendeu a sua posição para abraçar um novo projeto, a Energia Simples, admite que veria com bons olhos um bloco central PS/PSD: “Até pode ser o melhor para o país, haver estabilidade e acordo entre os principais partidos para reformas que deveriam ter sido feitas, mas nunca foram”.

Não devemos repetir o mesmo erro, não podemos constantemente cair em crises. Isso é demais para a economia do país. Agora que Portugal tem boa uma imagem a nível mundial, e está a dar cartas, as políticas têm de ser responsáveis de modo a manter essa boa imagem.

César Araújo

Presidente da Calvelex

O bloco central também é do agrado de José Manuel Fernandes porque se traduz num “Governo coeso e a defender uma economia baseada na iniciativa privada”, mas o empresário não se alonga sobre qual deveria ser a composição específica desse bloco central.

A geringonça não é boa para o país”, sublinha ainda Basílio Simões. “Estamos a viver à custa de um enorme aumento de impostos porque as reformas estruturais não foram feitas. Estamos a viver da enorme carga fiscal.” E acrescenta que preferia “um PS minoritário do que uma nova geringonça, porque foram feitas muitas cedências que não são boas para o país.”

O Fisco é o nosso sócio mais importante“, diz em tom brincalhão Adelino Silva Matos. Mas para o empresário da metalomecânica, apesar de a situação o preocupar, “o importante é arregaçar as mangas” e continuar a trabalhar.

Bom ou mau, para João Miranda “o atual modelo de geringonça vai passar a ser a normalidade”. O empresário, que dá emprego a cerca de 755 colaboradores, acredita que, mesmo com este episódio, o PS não vai ter maioria. “Mas desde as últimas legislativas abriu-se um novo ciclo com uma tendência clara de esquerda. Dificilmente a direita vai voltar a governar“, defende. João Miranda lamenta ainda o facto de “a esquerda mais à esquerda não ser muito adepta da iniciativa privada”, o que faz com que não haja “um apoio ou suporte a políticas de estímulo à própria economia”

O aumento da receita fiscal não é para o CEO da Frulact uma mera tradução do crescimento da economia nacional — que cresceu acima de 2% durante nove trimestres consecutivos –, mas também das alterações fiscais introduzidas. “Ir buscar mais receita ao turismo, aos combustíveis, faz o país perder competitividade e tem impacto sobre todos, sejam pessoas ou empresas”, sublinha.

As suas preocupações não se ficam por aqui. “O que será da nossa dívida quando tivermos de investir nos hospitais, escolas, tribunais, estruturas de segurança?“, questiona o empresário que recorda que mesmo sem investimento público a dívida bruta aumentou. Numa analogia empresarial, João Miranda lembrou que a situação em Portugal “é como ter uma máquina e não investir na sua manutenção. Quando for necessário repará-la sairá muito mais caro”. “Quando tivermos mesmo de investir vai causar um rombo tremendo nas contas públicas”, assegura.

A curtíssima duração da crise política — 48 horas quase exatas — garantiu que não tivesse quaisquer impactos sobre a atividade económica. Mas ao longo do fim de semana e antes de se saber o desfecho, os empresários admitiam ligeiros impactos, sobretudo se a incerteza se prolongasse, com especial incidência nas empresas mais dependentes do mercado nacional. Más notícias a acrescer ao já anunciado abrandamento económico. Mas foi só um susto.

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