Centeno convenceu Lagarde. Défice de 0,2% é “viável”, mas FMI quer mais 2.000 milhões de esforço orçamental

O Fundo acredita na meta do défice do Governo para este ano, mesmo prevendo um crescimento económico menor. Ainda assim recomenda um esforço adicional real de 1% do PIB nos próximos dois anos.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) melhorou significativamente a projeção para o défice para este ano. Em abril, o FMI apontava para um défice de 0,6% do PIB este ano, que agora cortou para 0,2%. O objetivo de Mário Centeno é “viável”, diz a instituição liderada por Christine Lagarde, que deixa, porém, um caderno de encargos pesado para os próximos dois anos.

A mudança nas projeções para Portugal no espaço de um mês resultam do trabalho de campo feito pela missão do Fundo liderada por Alfredo Cuevas que esteve em Lisboa a preparar o relatório sobre Portugal ao abrigo do Artigo IV.

“Apesar da injeção no Novo Banco acima do previsto ao abrigo do mecanismo de capital contingente, a meta do défice de 0,2% parece viável”, diz o FMI, no comunicado de imprensa sobre o relatório para Portugal, divulgado esta sexta-feira.

Na base da revisão do Fundo está uma previsão mais atual de receitas com contribuições para a Segurança Social e com impostos acima do projetado. Além disso, o FMI baseia-se nas novas metas de investimento público, que no Programa de Estabilidade foram revistas em baixa.

No Programa de Estabilidade, conhecido em abril, o Governo cortou em 471 milhões de euros a despesa de investimento prevista para este ano. O Conselho das Finanças Públicas adiantou que o corte no investimento e a receita fiscal foram usados para acomodar a derrapagem provocada pelo Novo Banco.

Esta é uma boa notícia para Mário Centeno que nos últimos tempos tem sido confrontado com dúvidas quanto à meta do défice. O próprio FMI tinha piorado entre outubro passado e abril deste ano a meta do défice de 0,4% para 0,6%.

Para 2020, o FMI prevê a eliminação do défice orçamental. A nova previsão aponta para um saldo nulo e será atingida mesmo sem medidas novas de política, acredita o Fundo. Em abril, ainda apontava para um défice de 0,1%.

FMI avisa que consolidação não terminou

Apesar das boas notícias na frente orçamental, o Fundo recomenda ao Governo que considere “esforços orçamentais adicionais agora e nos próximos anos” para construir uma margem orçamental que permita baixar a dívida pública mais que o previsto.

“Este espaço orçamental também ajudaria o país a estar preparado para novas pressões na despesa relacionada com o envelhecimento da população e como proteção contra acontecimento adversos que não tenham sido antecipados”, diz o Fundo.

E deixa uma meta. “A missão do [FMI] recomenda um esforço adicional de um ponto percentual do PIB no saldo primário estrutural [que desconta os juros, o efeito do ciclo económico e as medidas one-off], tirando vantagem do ambiente ainda favorável, incluindo as condições da política monetária”.

Este esforço equivale a cerca de 2.000 milhões de euros no conjunto dos dois anos no saldo primário estrutural, aquele que mede a verdadeira consolidação estrutural, ao descontar todos os efeitos extra ou que os governos controlam menos.

A recomendação decorre da eventualidade de algo poder correr mal. “Na eventualidade de uma degradação na atividade económica, uma política orçamental neutra seria adequada enquanto o rácio da dívida pública continua numa trajetória de descida”, permitindo assim uma subida do défice global temporária em resultado de um crescimento menor.

Para a economia, o Fundo acredita que o PIB crescerá este ano 1,7%, contra a previsão de Mário Centeno de 1,9%, apontando para 1,5% em 2020. No médio prazo, o Fundo aposta num crescimento em 1,4%, o que implica uma convergência “muito lenta” com a Zona Euro, admite o FMI.

Os números resultam do acréscimo de volatilidade na economia mundial para o qual o Fundo tem alertado. Em abril, a diretora-geral do Fundo adiantou que 70% da economia mundial está em abrandamento.

Na frente económica, o Fundo mantém a previsão que fez em abril de um crescimento das exportações igual a 4,1% com as importações a subirem 5,2% este ano. A balança corrente deverá apresentar um défice de 0,3% do PIB, melhor do que no ano passado, quando fechou em 0,6% do PIB.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Centeno convenceu Lagarde. Défice de 0,2% é “viável”, mas FMI quer mais 2.000 milhões de esforço orçamental

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião