Reino Unido já não é como era. Enfermeiros portugueses começam a apostar na Alemanha

O Reino Unido era um dos principais destinos de emigração dos enfermeiros portugueses. Com o Brexit e o novo exame para a Ordem, começam a surgir outros destinos nos bilhetes de ida dos enfermeiros.

A emigração de enfermeiros portugueses não é uma novidade. Há algum tempo que, todos os anos, saem de Portugal vários profissionais de saúde à procura de uma oportunidade de trabalho melhor. O Reino Unido foi, durante muito tempo, o destino predileto, sobretudo em 2013, quando o recrutamento para o Reino Unido atingiu o pico.

Foi precisamente nessa altura que Isabel Freitas, enfermeira, decidiu emigrar. “Em 2013, a enfermagem atravessava uma péssima altura em Portugal. Não conseguia arranjar trabalho e o que conseguia pagavam muito mal. Por isso, acabei por decidir ir para o Reino Unido”, conta a enfermeira ao ECO.

Mas, agora, o destino dos bilhetes de aviões dos enfermeiros que escolhem ir trabalhar para o estrangeiro já se começa a afastar um pouco do Reino Unido, sobretudo devido ao Brexit. Há mercados que começam a surgir como opções de “maior segurança”, de “condições [de trabalho] iguais ou superiores” e de “uma vastidão de oportunidades”, como é o caso da Alemanha.

Quem o diz é Teresa Andrade, consultora de recrutamento internacional na Job AG Medicare. “As pessoas olham para a Alemanha como uma alternativa”, começa por dizer a Teresa Andrade. “O grau de interesse tem subido bastante”, continua, acrescentando que o número de candidaturas de enfermeiros portugueses a vagas de trabalho na Alemanha tem registado um aumentado significativo.

“Temos cada vez mais candidaturas de pessoas com dez ou mais anos de experiência para Alemanha. Talvez por não verem forma de progressão de carreira em Portugal“, explica a consultora.

Isabel Freitas esteve no Reino Unido pouco mais de um ano, voltou para Portugal quando conseguiu, finalmente, uma vaga e ficou por cá cerca de seis anos, tendo aproveitado esse tempo também para investir na sua formação. “Tirei mestrado e especialidade, mas comecei a sentir, cada vez mais, que não era reconhecida nem respeitada em Portugal. O meu ordenado não se mexeu desde o dia que comecei a trabalhar até ao dia que me vim embora, apesar de ter mais formação e terem passado seis anos”, diz.

O meu ordenado [em Portugal] não se mexeu desde o dia que comecei a trabalhar até ao dia que me vim embora, apesar de ter mais formação e terem passado seis anos.

Isabel Freitas

Enfermeira

Motivada pela lacuna financeira, mas também pelo “respeito que não era dado por parte do Governo”, acabou por voltar a sair de Portugal. Desta vez, para a Alemanha, onde está há menos de um mês. “Escolhi a Alemanha porque estamos a falar de uma das economias mais fortes do mundo e, também, porque a remuneração é muito superior à do Reino Unido até”, explica.

Mara Alves, enfermeira e responsável da Job AG Medicare pela integração dos profissionais portugueses na Alemanha, diz que, no geral, “todos [os enfermeiros portugueses que emigram para a Alemanha] procuram o mesmo: ter uma boa qualidade de vida”.

Tendo em conta que em Portugal “se torna complicado ter um trabalho digno e um bom salário”, a maioria dos profissionais vão à procura disso mesmo, sendo que os enfermeiros com mais experiência querem, acima de tudo, “ser reconhecidos como tal e pagos pelos anos de experiência que têm ou pela formação que adquiriram (o que também não acontece em Portugal)“, continua.

Match entre enfermeiros portugueses e empregadores alemães

No meio de todo este cenário, as atenções começam a voltar-se para a Alemanha e, sobretudo, devido às oportunidades disponíveis. “O mercado de trabalho alemão na área da enfermagem é inacreditavelmente vasto. Nenhum enfermeiro fica sem trabalho”, diz Teresa Andrade.

O mercado de trabalho alemão na área da enfermagem é inacreditavelmente vasto. Nenhum enfermeiro fica sem trabalho.

Teresa Andrade

Consultora de recrutamento internacional na Job AG Medicare

Nuno Anjo, manager specialties na Randstad Portugal, afirma que os países do centro da Europa “estão a viver um período de intensa escassez de profissionais de enfermagem, Alemanha incluída”. Falta de profissionais que Nuno Anjo justifica através do envelhecimento da população, do aumento da esperança média de vida e da inovação tecnológica na área dos cuidados de saúde. “Este é um tema central nos países europeus, nomeadamente nos mais ricos do centro da Europa”, refere.

E a relação é recíproca. Vários enfermeiros portugueses escolhem a Alemanha e os empregadores alemães correspondem. “Ao longo dos últimos anos foram entrando muito enfermeiros portugueses [nas entidades de saúde alemãs]. Foi-se espalhando a mensagem da qualidade dos enfermeiros portugueses e o que acontece é que as unidades de saúde de lá querem portugueses para as suas equipas”, explica a consultora de recrutamento internacional.

“No início de junho, há um hospital que vem a Lisboa para fazer entrevistas”, avança Teresa Andrade.

“Tal como acontecia há uns anos com o Reino Unido, há cada vez mais hospitais alemães a virem a Portugal para recrutar”, continua, acrescentando que o foco das ofertas este ano são os cuidados intensivos, devido à “alteração legislativa que mudou o rácio de doentes por enfermeiros”. Seguem-se as ofertas nos serviços de urgência e nos serviços de cirurgia.

Entre Brexit e exames, Reino Unido começa a perder atratividade

Ponderar o Reino Unido como destino de emigração começa a fazer cada vez menos parte dos planos dos enfermeiros portugueses. “Há alguma insegurança”, diz Teresa Andrade, referindo-se ao clima criado em torno do Brexit. Aliás, a enfermeira Isabel Freitas não colocou o Reino Unido, desta vez, como uma opção, receando “as repercussões para os emigrantes”.

Também Nuno Anjo considera que “as incertezas associadas ao Brexit vieram acentuar o decréscimo do número de profissionais de enfermagem disponíveis para emigrar com interesse em fazê-lo para o Reino Unido”. Mas, não só quem está cá começa a hesitar ir para terras britânicas. Até mesmo os que partiram há alguns anos — no auge da emigração de enfermeiros para o Reino Unido — já equacionam a possibilidade de voltar, para Portugal ou mesmo para qualquer outro país da UE.

É interessante perceber que a União Europeia se calhar é mais importante para as pessoas do que se pensava.

Teresa Andrade

Consultora de recrutamento internacional na Job AG Medicare

“O que vi no rescaldo imediato foi que até algumas pessoas que estavam seguras no Reino Unido — que já lá estavam há uns anos e que nem faziam planos de mudar de país — pensaram (e pensam) em sair. Aliás, já recebemos candidaturas de alguns portugueses no Reino Unido que estão a equacionar ir para outros países da União Europeia”, afirma. “É interessante perceber que a União Europeia, se calhar, é mais importante para as pessoas do que se pensava”, diz Teresa Andrade. “Eles querem ficar num país que faça parte da UE”, continua.

A par disto, também no ano do referendo, surgiu uma nova obrigação para os enfermeiros se poderem inscrever na Ordem do Reino Unido. “Agora, os enfermeiros têm de realizar um exame para exercerem a profissão no Reino Unido. Para se poderem inscrever na Ordem do Reino Unido, os enfermeiros têm de ter o nível de inglês C1. Até aqui, quem estava obrigado a fazer essa mesma verificação eram as agências de recrutamento e entidades empregadores. As coisas mudaram drasticamente. E estamos a falar de um exame realmente exigente”, explica a consultora da Job AG Medicare.

Reino Unido versus Alemanha

Se num prato da balança estiver o Reino Unido e no outro a Alemanha, há alguns pesos que fazem os dois países estar em equilíbrio. “A garantia de progressão de carreira é semelhante em ambos os casos. Nos dois países existe sempre a possibilidade da remuneração se ir alterando, de acordo com a experiência e com as competências adquiridas”, refere Teresa Andrade.

Mas o equilíbrio talvez se fique por aqui. O manager specialties na Randstad Portugal diz que, regra geral, os mercados de trabalho na área dos cuidados de saúde do centro da Europa oferecem “pacotes financeiros substancialmente mais altos, formação contínua e melhores condições de trabalho”, quer em termos de horários de trabalho, quer em termos dos frinje benefits.

“Já consegui perceber que o nível de vida aqui [na Alemanha] é mais elevado do que no Reino Unido, mas os ordenados são bastante mais elevados”, diz Isabel Freitas. Na Alemanha, de acordo com a Job AG Medicare, o valor de referência de início de carreiras está nos 2.400 euros mensais brutos.

Por outro lado, a distribuição geográfica das ofertas na Alemanha está muito concentrada em centros urbanos, ao contrário do que acontecia no Reino Unido. “Os portugueses iam muito para as áreas mais rurais do Reino Unido”, diz Teresa Andrade.

Formação contínua, salários competitivos e progressão de carreira são os principais fatores que os especialistas de recrutamento salientam no mercado de trabalho alemão.

E, se até agora é provável que a balança tenda mais para a Alemanha, o fator do idioma pode contrariar as forças. “A língua é um problema, quer para a Alemanha, quer para outros países não anglófonos ou francófonos”, afirma Nuno Anjo. E a enfermeira Mara Alves confirma: “Eles [enfermeiros portugueses] chegam com receio”.

“Contudo, o desenvolvimento da aprendizagem no geral é muito positivo. Apesar de os enfermeiros portugueses iniciarem um curso de alemão em Portugal, a meu ver, eles aprendem mesmo a falar quando chegam à Alemanha, onde estão diariamente em contacto com a língua”, continua.

Nuno Anjo, por outro lado, lembra também que “alguns países têm ultrapassado essa questão com a adoção do inglês como língua de comunicação profissional, sendo a aprendizagem da língua local um processo que ocorre progressivamente e já com o profissional a exercer funções”.

Noto que as pessoas já não olham para o alemão como um bicho papão (…) percebem que afinal a língua é mais fácil do que pensavam.

Teresa Andrade

Consultora de recrutamento internacional na Job AG Medicare

Ainda assim, Teresa Andrade admite que “não é viável” iniciar funções num hospital alemão sem ter o nível B1. “É o nível mínimo para começar. Nós operamos sempre com base neste nível, mas também trabalhamos com alguns hospitais que exigem o nível B2 à chegada”, refere. Contudo, a consultora de recrutamento considera, também, que “o receio da língua está a dissipar-se”. “Noto que as pessoas já não olham para o alemão como um bicho papão (…) percebem que afinal a língua é mais fácil do que pensavam”, acrescenta Teresa Andrade.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Reino Unido já não é como era. Enfermeiros portugueses começam a apostar na Alemanha

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião