BCP paga já hoje cortes da troika. Entrega 12,6 milhões aos trabalhadores

Há um mês, e sob contestação sindical, os acionistas do BCP aprovaram o pagamento de 30% da compensação aos trabalhadores. Cheque extra chega esta terça-feira, com os salários de junho.

Assembleia Geral Millennium BCP, Taguspark - 22MAI19
Miguel Maya e Nuno Amado falaram no final da assembleia geral do passado dia 22 de maio.Hugo Amaral/ECO

Os trabalhadores do BCP vão receber juntamente com os salários do mês de junho, que começam a ser processados a partir desta terça-feira, um “cheque” extra no valor de 12,6 milhões de euros correspondentes a um terço da verba que foi retida pelo banco com os cortes salariais que vigoraram entre 2014 e 2017.

“O Millennium BCP vai dar sequência este mês de junho ao que foi aprovado, no que se refere à compensação aos trabalhadores, pela Assembleia Geral”, refere fonte oficial da instituição financeira em resposta às questões colocadas pelo ECO. O Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas (SBSI) adiantou que o banco “já informou os trabalhadores sobre o valor que irão receber”, sendo que o processamento dos salários começa a ser feito esta terça-feira, 25 de junho.

O pagamento de uma parte desta compensação financeira surge um mês depois de os acionistas do BCP terem dado luz verde à reposição de 30% dos salários cortados durante o período de maior instabilidade no banco, numa assembleia geral que ficou marcada pela forte contestação dos sindicatos do setor, alguns dos quais insatisfeitos com a lentidão no ritmo de devoluções proposto pela administração liderada por Miguel Maya. Será feito de forma faseada ao longo de três anos, mas os sindicatos queriam que fosse mais rápido.

"O Millennium bcp vai dar sequência este mês de junho ao que foi aprovado, no que se refere à compensação aos trabalhadores, pela Assembleia Geral.”

Fonte oficial do BCP

Foi com Nuno Amado à frente do banco que os trabalhadores com vencimentos acima de de 1.000 euros viram os seus salários parcialmente cortados em 2014. A medida vigorou até junho de 2017, com os cortes atingirem um máximo de 11% do salário bruto, e foram justificados pela administração com a salvaguarda de 400 postos de trabalho e a promessa de devolução assim que a crise fosse superada.

Assim foi. A situação de emergência no BCP foi ultrapassada sobretudo depois do reembolso ao Estado a totalidade dos 3.000 milhões de euros relativos às obrigações convertíveis (os chamados CoCos), aquando da entrada dos chineses da Fosun que veio reforçar a estrutura acionista do banco, em 2017. Depois vieram os lucros. No ano passado, o resultado líquido ascendeu a 301 milhões de euros, o que permitiu ao banco voltar a distribuir dividendos dez anos depois.

Com o processamento de salários deste mês, os trabalhadores vão receber agora 30% dos cerca de 36 milhões de euros retidos, o que marca a “normalização” da vida da instituição, na palavras de Miguel Maya, CEO do BCP. A devolução será feita por escalões, como avançou o ECO em primeira mão: o banco devolve já a totalidade dos cortes para salários até 1.500 euros; quem aufere entre 1.500 euros e 2.000 euros será compensado já em 50%; os salários entre 2.000 euros e 2.500 terão de volta 33%; e quem recebe acima de 2.500 euros terá uma recompensa de 25% das verbas retidas no período da crise.

Ainda assim, nem todos terão direito ao cheque, sabe o ECO. O que acontece é que uma parte dos trabalhadores do BCP beneficiou de uma extensão nos prazos dos empréstimos para habitação própria permanente para acomodarem os cortes salariais temporários. Agora, estes trabalhadores vão ver repostos os prazos originais dos contratos, pelo que a compensação financeira não se traduzirá propriamente na folha de vencimentos, mas antes no encurtar dos prazos dos seus créditos contraídos junto do banco.

Braço-de-ferro no aumento salarial

Além da compensação financeira, banco e sindicatos continuam a negociar a atualização das tabelas salariais. O SBSI e o Sindicato dos Bancários do Centro (SBC) entregaram na semana passada duas propostas para fazer face à posição do BCP de não ir além de um aumento de 0,6%:

  • Um acordo para dois anos, apresentando uma proposta idêntica à do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) do setor bancário, com aumentos salariais para 2019 e 2020, bem como o aumento do subsídio de refeição para dez euros; ou
  • A negociação de um valor mínimo fixo de aumento.

Segundo o SBSI, a “administração mostrou disponibilidade para analisar ambas as propostas, ficando de calcular o impacto e consequentemente a viabilidade”.

Com outros sindicatos do setor, nomeadamente o Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários (SNQTB), o Sindicato dos Bancários do Norte (SBN) e o Sindicato Independente da Banca (SIB), as negociações têm esbarrado na revisão da tabela salarial e pensões para 2018, que o banco tem recusado.

Na última reunião do procedimento de conciliação em curso na DGERT do Porto, a 7 de junho, o banco “limitou-se a contrapropor agora um aumento ridículo de 11 cêntimos por dia útil no subsídio de refeição”, dizem os sindicatos.

“Que fique bem claro: sem prejuízo do normal desenvolvimento da negociação para a revisão de 2019 em curso, o processo negocial que se encontra na fase de conciliação respeita aos aumentos para 2018 do ACT BCP, a que os Sindicatos Signatários não renunciaram. Esperam que outros também não o façam, em prejuízo de todos os trabalhadores do BCP”, reforçam SNQTB, SBN e SIB.

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