Haitong acaba com research sobre cotadas portuguesas. Vende ações asiáticas aos clientes ibéricos

Antigo BESI já contactou os clientes, a quem quer agora apresentar produtos financeiros asiáticos. Filipe Rosa, que desempenhava funções como head of iberian equity research, saiu do banco.

O Haitong já não faz análise financeira de ações portuguesas e espanholas para os seus clientes. O antigo Banco Espírito Santo Investimento (BESI) anunciou a decisão esta segunda-feira aos clientes da banca de investimento, limitando ainda mais o número de analistas financeiros que cobrem títulos da bolsa de Lisboa.

“Devido a um realinhamento do modelo de negócio, o Haitong Bank está a terminar a cobertura de research ibérico“, pode ler-se na nota que foi enviada aos clientes da banca de investimento.

Questionado pelo ECO, o banco de investimento clarificou as razões: além da evolução do posicionamento estratégico das atividades de corretagem próprias, apontou ainda para “mudanças estruturais” no setor na Europa, concentração na cobertura de research na região Ásia-Pacífico e ainda uma parceria estratégica com a Haitong International para um cenário pós-Brexit.

As cotadas portuguesas que eram alvo de análise pelo banco de investimento eram:

  • Mota-Engil;
  • Altri;
  • Navigator;
  • Semapa;
  • NOS;
  • Sonaecom;
  • Corticeira Amorim;
  • CTT;
  • Ibersol.

A estas, que deixam agora de ser acompanhadas pela divisão de research, juntam-se ainda as espanholas:

  • Euskaltel;
  • Cellnex;
  • Mas Movil;
  • Telefonica;
  • Antena 3;
  • Mediaset España;
  • Indra (IDR SM);
  • Ebro Foods;
  • Logista;
  • Tecnicas Reunidas;
  • Vidrala;
  • Viscofan.

A análise financeira do banco tem sido reduzida, sendo que nos últimos dois anos saíram cerca de dez pessoas da equipa em Portugal. Mais recentemente, Filipe Rosa, que estava no banco há dez anos e desempenhava funções de head of iberian equity research, saiu também do Haitong. O analista está, desde julho, a trabalhar na gestora de ativos Azvalor Asset Management, em Madrid.

O Haitong rejeita que tenha havido saídas de trabalhadores devido às mudanças. “Não haverá qualquer despedimento do departamento de research em Portugal. Haverá uma realocação dessas posições para outras áreas do banco”, explicou fonte oficial, em declarações ao ECO.

Esta decisão acontece num contexto de reestruturação do Haitong. Esta segunda-feira, o banco de investimento fez outro anúncio sobre esse processo: vendeu a subsidiária Haitong Investment Ireland à casa-mãe, a Haitong Securities, por 12 milhões de euros (numa operação que não terá impacto nas contas, mas irá reduzir o rácio de malparado).

Após quatro anos de prejuízos, o Haitong conseguiu chegar a resultados líquidos positivos em 2018. No primeiro semestre deste ano, alcançou mesmo lucros recorde de 11 milhões de euros. A área de mercado de capitais foi a que mais contribuiu para o volume de negócios na primeira metade do ano, tendo gerado um produto bancário de 32,8 milhões de euros.

Ações nacionais? Banco quer vender produtos asiáticos

Apesar de o research em Portugal já não acompanhar títulos ibéricos, o Haitong Bank — que é detido pelo Haitong Securities, uma entidade de direito da República Popular da China — quer manter a relação com os investidores nas duas geografias. Quer apresentar-lhes agora produtos financeiros asiáticos.

“Em nome da divisão de research ibérica, o banco gostaria de agradecer aos clientes pela sua lealdade e negócio ao longo dos anos. O banco e o Haitong Group continuam comprometidos com os seus clientes, bem como as equipas de vendas da Península Ibérica, estando os traders ansiosos por poderem dar a conhecer aos investidores os produtos asiáticos do grupo“, refere a mesma nota.

Acrescenta que mantém o research dos ativos da Europa Central e de Leste, bem como as divisões de vendas destas geografias, sendo que, no continente europeu, o Haitong tem escritórios em Varsóvia, Londres, Dublin, além de Lisboa e Madrid. Fora da Europa, está ainda em São Paulo, em Xangai e Hong Kong.

Fonte oficial do banco sublinhou ainda, ao ECO, que “o Haitong Bank não tem qualquer intenção de desinvestir” em Portugal. Acrescentou que está “fortemente preparado para continuar a servir os seus clientes nas suas regiões core, incluindo Portugal, assim como continuar a desenvolver o seu modelo de negócio cross-border com um ângulo chinês”.

Há cada vez menos research na bolsa de Lisboa

O Haitong juntou-se, assim, à já longa lista de bancos de investimento de deixaram de olhar para a bolsa de Lisboa. A análise financeira de ações portuguesas tem diminuído nos últimos anos, especialmente com a tendência de saída de empresas portuguesas cotadas, mas também com a entrada em vigor da DMIF II, que obriga a que o research seja pago pelos clientes (e não distribuído gratuitamente ou incluído em pacotes de serviços).

Estamos profundamente preocupados que um player importante e de longo prazo a nível Ibérico, e em especial em Portugal, tal como o Haitong Bank, tenha decidido pôr fim à cobertura das ações ibéricas que precisam de mercados de capitais eficientes para serem competitivos no contexto dos mercados de capitais europeus”, escreveu Manuel Puerta da Costa, presidente da Associação Portuguesa de Analistas Financeiros (APAF), no LinkendIn.

Atualmente, o número de bancos de investimento em Portugal com departamento de research limita-se ao Caixa Banco de Investimento (Caixa BI), BPI, BiG – Banco de Investimento Global e Bankinter.

Na APAF, consideramos que uma cobertura de research inferior e menor das ações cotadas não promove a sustentabilidade da cultura acionista entre os participantes do mercado“, acrescentou Puerta da Costa.

(Notícia atualizada às 19h40 com respostas do Haitong às questões do ECO)

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