Debandada na bolsa de Lisboa não pára. Saída da SAG e da Compta leva número de cotadas para novo mínimo

Duas cotadas preparam-se para sair do mercado, levando o total para 53. Apesar de o número de empresas continuar a encolher para o nível mais baixo de sempre, a capitalização bolsista recupera.

Nunca houve tão poucas cotadas na bolsa de Lisboa. Sem as duas empresas que preparam a saída nos próximos meses — a SAG – Soluções Automóvel Globais e a Compta — vão passar a ser apenas 53, o número mais baixo de sempre. Tal como aconteceu no ano passado, a expectativa para este ano é que o número de saídas supere as entradas. A esperança poderá ser o boom do setor imobiliário.

O empresário João Pereira Coutinho lançou uma oferta pública de aquisição (OPA), que está a decorrer desde sexta-feira e até às 15h00 do dia 28 de junho de 2019. Oferece 0,0615 euros por cada ação que não detém da SAG, uma contrapartida considerado “adequada” pelo conselho de administração.

O objetivo é tirar a empresa da bolsa de Lisboa, sendo que ainda não há data para a concretização da intenção, mas será após o fim da OPA. Já a SIVA, o negócio dos automóveis da empresa, vai ser vendida aos alemães da Porsche pelo valor simbólico de um euro.

Este é o último movimento de saída de uma empresa do mercado acionista português, que se junta a uma lista de espera que conta já com a Compta. Os acionistas da empresa de equipamentos e serviços de informática aprovaram, a 17 de abril, em assembleia-geral, a perda da qualidade de sociedade aberta. Também neste caso, ainda não se sabe quando irá acontecer.

As duas saídas previstas para este ano seguem-se à Transinsular, que saiu logo no início de 2019, e mantêm a tendência que se tem vindo a verificar nos últimos anos. Há atualmente 55 cotadas na bolsa de Lisboa, menos uma que no final do ano passado. Reflexo do panorama geral, o índice de referência nacional PSI-20 negoceia atualmente com o número mínimo de cotadas — 18 — e há quase cinco anos que não conta com as 20 cotadas que lhe dão nome.

São os acionistas a querer sair. Bolsa vê decisões “estratégicas” com “tranquilidade”

No total, foram seis cotadas a deixarem de ser cotadas em 2018: as mais significativas foram a dos bancos BPI e Santander Totta, mas a lista inclui ainda o grupo de prestação de cuidados de saúde Luz Saúde, o conglomerado de construção civil e engenharia SDC Investimentos, a produtora de refrigerantes Sumol+Compal e a companhia industrial de antibióticos Cipan.

“De facto, têm havido algumas saídas. Todas diferentes e com contextos diferentes”, afirmou Filipa Franco, head of listing da Euronext Lisbon, ao ECO. “Há situações que resultam de um contexto específico e da vontade dos acionistas, o que deve ser encarado com tranquilidade porque estar em bolsa é algo estratégico e deve ser analisado enquanto estratégia da empresa. Claro que gostaríamos que mais empresas recorressem ao mercado de capitais e é esse o objetivo”.

Ao contrário do que aconteceu em anos anteriores, em que falências durante a crise financeira foram a grande causa para a saída (com destaque para o universo Espírito Santo: BES e ESFG), os movimentos recentes têm sido determinados pela vontade dos acionistas.

O Santander, em particular, teve um forte impacto no valor da bolsa lisboeta, sendo que o PSI Geral acabou por fechar o ano passado com uma capitalização bolsista de 48,73 mil milhões de euros, menos 15% que no final de 2017. Desde então, a capitalização tem vindo a recuperar e já superou a saída do gigante financeiro, situando-se atualmente nos 51,5 mil milhões de euros. “É resultado do ciclo económico e da performance do mercado de capitais”, referiu Filipa Franco.

Desde o início do milénio que número de cotadas cai

Fonte: Euronext Lisboa

Imobiliário é a nova esperança. Já há empresas do setor a namorar a bolsa

Desde a crise que há mais saídas que entradas na bolsa. Só em 2011, ano em que Portugal pediu ajuda financeira à troika, a bolsa de Lisboa perdeu sete cotadas. Em sentido contrário, a bolsa assistiu apenas a uma oferta pública inicial (IPO), do grupo financeiro Patris, em 2016. O ano seguinte foi apenas de saídas e, em 2018, a bolsa voltou a somar cotadas.

O IPO da fintechRaize, a entrada técnica da Farminvest e a colocação privada da sociedade de investimento mobiliário para o fomento da economia (SIMFE) Flexdeal levaram o ano passado a fechar com 56 cotadas (entre mercado regulamentado e não regulamentado).

Para este ano, além das saídas já confirmadas de duas cotadas, há a expectativa de novas entradas: o chairman do Montepio, Carlos Tavares, anunciou a intenção de criar, ainda este ano, pelo menos uma SIMFE no âmbito do novo Banco Empresas Montepio. Também os espanhóis da Merlin Properties anunciaram que querem chegar à bolsa de Lisboa ainda este ano, enquanto a promotora imobiliária VIC Properties emitiu 250 milhões de euros em obrigações convertíveis em ações para preparar a admissão à negociação.

A empresa explicou que está a preparar a admissão ao mercado acionista (apesar de ainda não ter decidido se será em Lisboa), o que permitirá a investidores nacionais e internacionais investir no imobiliário em Portugal. A intenção foi tornada pública três meses depois de o Governo ter aprovado a regulação que permite a criação de sociedades de investimento para o fomento da economia (SIGI), ao género do que existe em Espanha. A Merlin Properties já tem essa categoria no país de origem.

Estas são empresas imobiliárias com capital social superior a cinco milhões de euros disperso na totalidade em bolsa (com 20% nas mãos de pequenos investidores) e que distribuem entre 80% e 90% dos lucros na forma de dividendos. As SIGI têm de receber o aval da Comissão do Mercado de Valores Imobiliários (CMVM), após a colocação em bolsa, para terem esta categoria. A Euronext tem expressado agrado com a lei que prevê a criação de SIGI, que poderá trazer novas cotadas.

“Espero que estes dois novos instrumentos jurídicos [SIGI e SIMFE] motivem mais empresas a entrarem em bolsa. São dois perfis de investimento que têm crescido muito em Portugal nos últimos anos e o crescimento passa por levantar capital. Temos visto maior interesse das empresas em explorar essas vias. São um incentivo que impulsiona as empresas e os investidores estão disponíveis para estes setores, especialmente para o imobiliário”, acrescentou a head of listing da Euronext Lisboa, Filipa Franco.

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