Google obteve dados médicos de milhões de cidadãos nos EUA. Nomes incluídos

Um projeto secreto da Google levou a empresa a obter acesso aos registos médicos de milhões de cidadãos norte-americanos, incluindo nomes e datas de nascimento.

A Google obteve acesso aos registos médicos de dezenas de milhões de cidadãos norte-americanos, ao abrigo de um protocolo confidencial assinado entre a empresa e o segundo maior sistema de saúde dos EUA. Entre os dados pessoais acedidos pela Google estão os resultados de análises laboratoriais, diagnósticos médicos, registos de internamento e até processos completos com os nomes e datas de nascimento dos respetivos pacientes.

A notícia foi avançada pelo The Wall Street Journal (acesso pago), que cita fontes familiarizadas com este projeto secreto da empresa, que tem o nome de código “Project Nightingale”. O sistema de saúde em causa é o Ascension Health, um sistema sem fins lucrativos e ligado à igreja Católica, com operações em 23 Estados do país. De acordo com o jornal, nem os pacientes nem os médicos foram informados deste protocolo ou da cedência de dados pessoais à multinacional.

Apesar do acesso aos dados pessoais, este sistema é legal ao abrigo de uma lei de 1996 que permite aos hospitais norte-americanos partilharem dados com parceiros sem informarem os utentes, desde que a cedência da informação esteja relacionada com a missão de prestação de cuidados de saúde dos sistemas. Neste caso, a Google estará a usar os dados dos milhões de utentes do Ascension para desenvolver softwares de inteligência artificial e machine learning para ajudar os médicos no tratamento dos doentes.

Grandes tecnológicas como a Amazon, a Microsoft e a IBM, além da Google, têm protagonizado uma autêntica corrida à modernização do setor da Saúde, nomeadamente através da criação de tecnologias avançadas que ajudem ao tratamento de doenças. No caso da IBM, por exemplo, a tecnologia cognitiva do Watson é capaz de analisar enormes bases de dados de imagens de melanomas para ajudar no diagnóstico de tumores.

No entanto, o acesso a dados pessoais sensíveis pela Google — que seria ilegal ou praticamente impossível na União Europeia (UE), sobretudo se esses dados não forem anonimizados — sem o consentimento dos utentes e médicos levanta sérias questões do ponto de vista ético. Isto porque os dados passam a ser consultáveis por funcionários da empresa privada.

Google confirma acordo com Ascension e fala em “prática padrão” no setor

A Google não comentou quando foi contactada pelo jornal, mas reagiu a estas informações depois da publicação destas informações.

Num comunicado, a empresa confirma a existência da parceria com o sistema de saúde Ascension e esclarece que o protocolo assenta em três pilares: migrar toda a infraestrutura da organização para a cloud (“nuvem”, isto é, armazenamento remoto de dados); fornecer as aplicações do G Suite aos funcionários — Gmail, Docs, Sheets, entre outras –; e criar “ferramentas” que os médicos e enfermeiros possam usar para melhorar os “cuidados” prestados aos utentes.

Acerca deste último ponto, e sem revelar detalhes, a empresa garante que a maioria destas ferramentas ainda não está a ser usada ativamente em ambiente real e encontra-se numa fase preliminar de testes. No entanto, confirmando o acesso aos dados pessoais dos pacientes, a Google garante, ainda assim, que esta informação não poderá ser usada para qualquer outro fim que não o de desenvolver estas tecnologias para apoiar a prestação de cuidados médicos.

“É compreensível que as pessoas queiram fazer perguntas acerca do nosso trabalho com a Ascension. Estamos orgulhosos do importante trabalho que estamos a fazer enquanto parceiros tecnológicos de cloud de várias empresas de Saúde. Modernizar o setor é uma tarefa criticamente importante, que resultará não só na transformação digital, mas em melhorar os resultados para os pacientes e salvar vidas”, sublinha a Google, na mesma nota, onde indica ainda ter mais parcerias semelhantes com mais entidades e que a partilha de dados é uma prática “padrão”.

Software vai sugerir tratamentos e gerir cuidados médicos de 50 milhões de utentes

Numa nova notícia sobre o caso, o The Wall Street Journal dá mais informação sobre o “Project Nightingale”. A intenção passa por centralizar remotamente os registos médicos de 50 milhões de utentes do sistema Ascension, que podem ser analisados e tratados por um software da Google.

Este programa informático deverá ser capaz de sugerir testes de diagnóstico, desenvolver planos de tratamento e gerir a equipa de médicos responsáveis por um determinado processo, entre outras coisas. Após reveladas estas informações, alguns especialistas têm levantado questões éticas sobre o facto de médicos e utentes não terem sido devidamente informados da parceria.

O argumento legal é ténue. Eticamente, é uma estratégia má. Eles deviam dizer às pessoas o que estão a fazer”, disse Ellen Wright Clayton, professora de ética biomédica da Universidade de Vanderbilt, citada pelo mesmo jornal norte-americano.

(Notícia atualizada a 12 de novembro com a reação da Google e mais informações sobre o projeto, incluindo o número concreto de utentes envolvidos, que é de cerca de 50 milhões)

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Google obteve dados médicos de milhões de cidadãos nos EUA. Nomes incluídos

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião