Da McDonald’s, à Toyota, da Alibaba à British Airways. Contágio do coronavírus alastra pelas empresas

Companhias aéreas, os hotéis e as empresas do retalho estão entre os setores que sofrem o impacto mais imediato do coronavírus. FMI e Fed alertam que contagio pode alastrar-se à economia mundial.

O coronavírus já foi declarado emergência de saúde pública internacional. Mais de 300 pessoas morreram e o número de infetados pelo surto supera as 14.000. Mas o contágio também está a alastrar-se à economia e ameaça ir além-fronteiras, tal como a própria doença — já há casos confirmados em 20 países diferentes.

O Governo chinês admite que o crescimento no primeiro trimestre poderá desacelerar para 5% ou menos, mas as consequências não são apenas internas. E o presidente da Reserva Federal alertou que o vírus vindo da China pode ameaçar a economia internacional: o petróleo já está derrubou a fasquia dos 60 dólares e o ouro atinge máximos desde 2013 devido à propagação do vírus. Por outro lado, sucedem-se os casos de empresas que anunciam a suspensão ou redução das operações na China.

As companhias aéreas, os hotéis, os cruzeiros e as empresas de retalho estão entre os setores que sofrem o impacto mais imediato. Os cerca de seis mil passageiros do navio de cruzeiro da companhia Costa Crociere impedidos de desembarcar, esta quinta-feira, no porto italiano de Civitavecchia são um exemplo disso mesmo. Um casal oriundo de Macau apresentava sintomas compatíveis com o coronavírus e, até serem conhecidos os resultados dos testes de despistagem, ninguém pôde desembarcar.

O impacto do surto “vai depender muito da forma como a doença evoluir”, “da rapidez de propagação do vírus”, sublinhou o porta-voz do Fundo Monetário Internacional, Gerry Rice, assinalando que, na província de Hubei, epicentro da epidemia, “a atividade económica diminuiu consideravelmente”. O Fundo está a acompanhar “em tempo real” os desenvolvimentos do surto sendo que, neste momento, é a China que está a sofrer os impactos “diretos” devido ao encerramento provisório de empresas para conter a propagação do vírus.

“Se as cadeias de abastecimento mundiais forem sistematicamente afetadas ou se os mercados financeiros mundiais forem consideravelmente atingidos por uma incerteza crescente, então o impacto será mais significativo”, acrescentou, apontando um possível efeito de contágio a toda a Ásia.

Companhias aéreas suspendem voos para a China

British Airways, Lion Air e Air Seoul foram as primeiras companhias aéreas internacionais a suspender todas as ligações aéreas com a China. Ou seja, não há voos de e para o país durante um mês. A Lufthansa também cortou as ligações com a China continental, tal como a Ukraine International Airlines, a Skyup Airlines e as companhias aéreas birmanesas. Esta quinta-feira as autoridades italianas também decidiram cortar as ligações aéreas com a China, depois de confirmados os dois primeiros casos de coronavírus.

Outras companhias aéreas optaram por reduzir o número de voos, tasi como a Air France, a KLM, a Air Canada, a Cathay Pacific, a finlandesa Finnair e as americanas United Airlines e Delta, sendo que estas duas também estão a oferecer aos passageiros as taxas caso optem por adiar as suas viagens para a China.

A espanhola Iberia decidiu cancelar temporariamente os voos com Xangai. As companhias aéreas de bandeira do Quénia, Ruanda, Madagáscar e das Ilhas Maurícias suspenderam também temporariamente os voos para a China. A Azur Air e a iFly cancelaram as ligações entre a China e a Rússia. A Air Austral e a Ural Airlines também estão a reduzir os voos para a China.

A TAP, que não voa diretamente para a China, está a acompanhar o problema e garante estar preparada para reagir.

McDonald’s encerra centenas de restaurantes na China

O grupo McDonald’s encerrou “várias centenas” de restaurantes na província chinesa de Hubei, mas há cerca de três mil estabelecimentos da cadeia norte-americana de fast food na China que continuam abertos. A situação foi classificada de “preocupante” pelo grupo que constituiu uma equipa de trabalho para controlo e prevenção da epidemia, refletindo em particular sobre a forma de atuar nas cozinhas e entrega de refeições aos que trabalham em hospitais. A McDonald’s prevê, no entanto, que o impacto nos seus resultados deverá ser reduzido se a epidemia for contida no país. A China representa 9% dos fast-food da McDonald’s, mas apenas 4% a 5% das suas vendas globais e cerca de 3% do seu lucro operacional.

Toyota e Ford prolongam encerramento de fábricas na China até 9 de fevereiro

A empresa japonesa Toyota anunciou que vai prolongar a suspensão da produção nas suas três fábricas na China até 9 de fevereiro na sequência da crise causado pelo coronavírus. “Vamos monitorizar a situação e tomar uma nova decisão após esta data”, disse um porta-voz do grupo à AFP. As três fábricas da Toyota na China tinham sido encerradas, na semana passada, devido aos feriados e festejos do Ano Novo Chinês. Uma decisão secundada pela americana Ford. Já a General Motors e a Nissan pretendem suspender os seus trabalhos apenas até aos feriados do Novo Ano Chinês que foram prolongados até 3 de fevereiro.

IKEA encerra temporariamente estabelecimentos na China

A retalhista sueca de móveis anunciou na quinta-feira que encerrou temporariamente todas as suas 33 lojas na China. O Ikea já tinha anunciado o encerramento temporário da sua loja em Wuhan, a cidade no centro da China de onde o vírus é originário. Mas, a cadeia sueca garante que a sua loja online e os serviços de atendimento telefónico vão continuar ativos.

Brasileira Vale espera redução de vendas

A Vale, gigante brasileira do ramo de mineração, admite que o coronavírus deverá causar atrasos nas suas operações, assim como uma redução nas vendas. Os funcionários na China da maior exportadora de minério de ferro do mundo, suspenderam as viagens de negócios no país e têm optado por trabalhar a partir de casa. A empresa garante, porém, que as suas atividades nos portos decorrem normalmente. Também as brasileiras WEG, fabricante de materiais elétricos, e a Marcopolo, que produz componentes de autocarros, que já estavam paradas devido ao feriado do Ano Novo chinês, preveem regressar à laboração entre 7 e 10 de fevereiro, se a situação não se agravar. Os responsáveis destas empresas consideram que é cedo para quantificar o efeito do coronavírus, mas estão em alerta porque a redução da circulação de pessoas deverá reduzir o consumo na região. Além de prejudicar a atividade em território chinês, o coronavírus teve impacto no preço das ações das duas maiores empresas brasileiras: a Vale e a petrolífera estatal Petrobras.

Levi’s fecha metade das lojas na China e espera impacto financeiro

A Levi Strauss decidiu encerrar cerca de metade das suas lojas na China decido ao surto do coronavírus e antecipa um impacto financeiro de curto prazo, que terá reflexo nos resultados do primeiro trimestre, que deverão ser conhecido em abril. Esta decisão surge alguns meses depois da marca de jeans ter aberto a sua maior loja no país em Wuhan, o centro da epidemia. O surto “vai afetar os nossos objetivos de crescimento de curto prazo”, reconheceu esta quinta-feira o CFO da empresa, Harmit Singh, citado pela Reuters; isto porque 3% das receitas da empresa são geradas na China. A Levi’s também cancelou as viagens dos seus colaboradores de e para a China.

Starbucks fecha 2.000 lojas e antecipa abrandamento

O Starbuks anunciou que vai fechar 2.000 lojas na China para proteger os seus funcionários e ajudar os esforços das autoridades chinesas a conter o surto. E decidiu ajustar os horários de funcionamento em muitas outras lojas. A cadeia tem 4.300 lojas na China, o que faz deste o maior mercado externo da empresa. Esta decisão vai ter impactos nos resultados financeiros da cadeia de cafés e os títulos em bolsa também foram penalizados desde que a decisão foi anunciada. Também a KFC e Pizza Hut por exemplo, decidiram suspender as suas atividades na província de Hubei, onde o risco é maior.

Google fecha temporariamente escritórios na China

A Google decidiu fechar de forma temporária seus escritórios na China para diminuir o contacto humano e evitar a propagação do vírus entre seus funcionários, incluindo as filiais da China, Hong Kong e Taiwan. Como orientação geral, os empregados da empresa na China trabalham a partir de casa durante 14 dias.

Empresas proíbem viagens de colaboradores e adotam teletrabalho

O Facebook foi uma das primeiras empresas a anunciar a suspensão de viagens dos seus colaboradores para a China, mas não é a única. A sul-coreana LG, a Amazon e a Microsoft também já as proibiram e aconselham os funcionários em viagens de negócios no país a regressarem. A Honda também já recomendou aos seus funcionários para evitarem viagens para a China e a Nissan também está a tentar retirar as suas equipas, e respetivas famílias, de Wuhan, o epicentro do surto. Todas estas empresas, tal como a Alibaba e a Tencent, têm pedido aos colaboradores para trabalharem a partir de casa.

Receitas dos casinos em Macau caem 10%. Há risco de fecharem

O Governo de Macau anunciou esta sexta-feira que os casinos registaram perdas de 10% nas receitas brutas do jogo nos primeiros 30 dias do ano, uma forte queda devido ao coronavírus, e admitem a possibilidade de as unidades encerrarem temporariamente. Em janeiro de 2019, os casinos de Macau fecharam o mês de janeiro com receitas de 24,94 mil milhões de patacas (2.688 milhões de euros), já verificando uma diminuição de 5% em relação ao mesmo mês de 2018. A secretária para os Assuntos Sociais e Culturais, Ao Ieong U, citada pela Lusa, não excluiu a possibilidade de os casinos encerrarem provisoriamente caso se verifiquem casos de contágio do coronavírus dentro destes complexos.

A agência de notação financeira Fitch Ratings avisou na quinta-feira que se o surto continuar a alastrar pode ter impacto significativo no fluxo de caixa dos casinos de Macau e “incentivar” canais ilegais do jogo.

Ligações rodoviárias e ferroviárias entre China e Rússia canceladas

A Rússia anunciou o encerramento da sua fronteira terrestre com a China ao tráfego rodoviário e ligações ferroviárias, para impedir que o novo coronavírus se dissemine no país. A vice-primeira-ministra, Tatiana Golikova, afirmou que as autoridades iam tomar “nos próximos dias” uma decisão sobre as ligações aéreas entre a Rússia e a China, e que os estudantes chineses que estiveram de férias no decurso do Novo Ano Lunar apenas poderão retomar os seus estudos em território russo a partir de 1 de março, data a partir da qual está previsto que as ligações por fronteira terrestre sejam retomadas.

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