Moody’s elogia excedente em 2020, mas alerta que Governo está a “gastar mais dinheiro onde é mais difícil cortar”

Moody's veio a Lisboa e deu um puxão de orelhas ao Governo. "Está a gastar dinheiro onde é mais difícil de cortar", disse a analista Sarah Carlson, alertando para novos sinais de rigidez estrutural.

A Moody’s elogiou o trabalho do Governo de António Costa na redução da dívida pública, bem como o primeiro excedente orçamental que acredita que virá em 2020. Ainda assim, deixou alguns alertas. “Não estamos a olhar apenas para os grandes números. Mas olhamos para onde se está a gastar (…) E os sítios onde está a gastar mais dinheiro são onde é mais difícil de cortar“.

Sarah Carlson, analista da agência Moody’s que acompanha Portugal, congratulou o Executivo pelo “bom trabalho” que fez na redução da dívida pública numa conferência realizada em Lisboa. “Fez muito bem”, disse. “Uma das razões pelas quais vimos o rating do país subir foi porque o Governo fez um bom trabalho na redução da dívida pública. O stock continua a ser muito elevado, mas vai continuar a descer mesmo num cenário mais negativo”, disse a analista.

Seguiram-se os avisos. “Os grandes números são bons. Mas não olhamos apenas para eles. Queremos saber como o Governo está a gastar. E os sítios onde está a gastar mais dinheiro são aqueles onde é mais difícil de cortar“, salientou Sarah Carlson, notando que começam a surgir sinais de rigidez estrutural novamente.

A Moody’s acredita que Portugal vai atingir pela primeira vez um saldo orçamental positivo em 2020. Mas ao contrário do Governo, que estima um excedente de 0,2% do PIB em 2020, a agência de notação financeira aponta para um saldo de 0,1%.

Esta é uma das razões que leva a Moody’s a ter uma perspetiva positiva para o rating da República, atualmente em “Baa3”, apenas um nível acima do grau de investimento especulativo e um nível abaixo do rating atribuído pelas outras duas principais agências (Fitch e Standard & Poor’s).

A Moody’s sublinha ainda a “economia robusta e diversificada”, a “a implementação de reformas que ajudaram a melhorar as contas externas” e “instituições fortes” como fatores positivos que sustentam o outlook positivo.

Por outro lado, a travar o otimismo da agência de rating está o facto que Portugal ter uma das maiores dívidas públicas do universo de ratings da Moody’s. “O desafio número um é claramente o tamanho da dívida”, disse Sarah Carlson. “É um dos maiores fardos de dívida no nosso universo de análise de ratings, e isso constitui ainda um desafio material”, acrescentou.

Também as perspetivas moderadas para crescimento e as fragilidades do setor bancário pesam, notou a responsável.

(Notícia atualizada às 10h45)

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