Coronavírus faz disparar yields negativas na Zona Euro. 55% da dívida portuguesa abaixo de 0%

Fuga às ações e cortes de juros nas taxas de juro estão a causar nova quebra nas yields das dívidas. Nas Treasuries, yields caiu abaixo de 1% e na Zona Euro há mais yields negativas.

A fuga dos investidores das ações para as obrigações e os estímulos monetários dos bancos centrais devido ao surto de coronavírus estão a fazer cair os juros das dívidas públicas dos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, a taxa benchmark caiu pela primeira vez de sempre abaixo de 1%, enquanto na Zona Euro o montante de obrigações governamentais com yields negativas atingiu os 5,18 biliões de euros.

A dívida soberana da Zona Euro com juros negativos disparou nos últimos dois meses, devido à incerteza nos mercados financeiros. Logo no arranque do ano, o conflito entre EUA e Irão causou uma quebra nas taxas e, mais recentemente, o coronavírus voltou a levar a uma diminuição nos juros das dívidas.

Os dados da Tradeweb disponibilizados ao ECO indicam que o montante de obrigações com yields abaixo de zero aumentou para 5,18 biliões de euros no final de fevereiro, aproximadamente 58% do mercado total de 8,93 biliões de euros no mercado da moeda única.

Portugal não foi exceção. Há 74.286 milhões de euros em dívida pública portuguesa com juros negativos, ou seja, todas as obrigações com maturidade até aos seis anos. Este montante representa cerca de 55% do total das obrigações do Tesouro que negoceiam no mercado — que totaliza os 134.887 milhões de euros –, de acordo com os cálculos do ECO com base em dados da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – IGCP.

Dívida com yields negativas volta a níveis de setembro

Fonte: Tradeweb

A yield das obrigações portuguesas a dez anos caiu abaixo de 0,2%, o que não acontecia desde outubro do ano passado. É que além da fuga de ativos de risco para refúgios, como é o caso das Treasuries ou das Bunds, os juros das dívidas estão a reagir aos estímulos anunciados para responder ao coronavírus.

“As obrigações estão a apanhar boleia da incerteza”, diz Robert Robis, estratego da BCA Research, à Reuters. Dan Heckman, do U.S. Bank Wealth Management, acrescenta que “o que a Fed fez assegura que a curva de yields irá manter algum grau de inclinação”, o que “mantém o nível de confiança de que, em última análise, não iremos entrar em recessão”.

Banqueiros centrais, governos e instituições internacionais garantiram que estar a seguir de perto a epidemia e suas consequências nos mercados e condições económicas. Mas foi Jerome Powell a tomar uma decisão que não se via desde 2008.

Mercado já está a descontar mais estímulos

A Reserva Federal norte-americana (Fed) surpreendeu na terça-feira ao anunciar um corte surpresa nas taxas de juro, em 50 pontos base para um intervalo entre 1% e 1,25%. A redução do preço do dinheiro, que pretendia travar o potencial impacto do surto de coronavírus na economia e animar o sentimento dos investidores, seguiu-se à Austrália e Malásia. Esta quarta-feira, o banco central do Canadá fez o mesmo.

Com economistas a reverem em baixa as projeções de crescimento económico, a expectativa é que os estímulos não se fiquem por aqui. “Os desenvolvimentos recentes aumentaram a nossa convicção de que a Fed irá aliviar ainda mais a política monetária, em abril”, antecipa Keith Wade, economista-chefe da Schroders. “Prevemos também uma redução da taxa diretora na China em 2020”.

Com tanto o crescimento como a inflação revistas em baixa, prevemos que o BCE corte a taxa de juro dos depósitos (de -0,50% para -0,60%), mas adiámos a projeção para o segundo trimestre”, acrescenta Wade, após a Schroders ter cortado a projeção para o produto interno bruto (PIB) global para 2,3%, face aos anteriores 2,6%.

A posição do economista-chefe da gestora de ativos é partilhada por outros analistas, mas o timing não é consensual. O BCE tem reunião de política monetária marcada para a próxima semana, pelo que Christine Lagarde poderá anunciar já uma medida de reação. Além do corte de juros, poderá estar também em cima da mesa o aumento do programa de compras de ativos ou o relaçamento do financiamento de longo prazo a baixos custos, as Targeted Longer-Term Refinancing Operations (TLTRO). Para já, o banco central limitou-se a vai adotar algumas “precauções operacionais” devido à epidemia, incluindo a restrição das viagens não essenciais do comité executivo e de outros membros do pessoal até 20 de abril.

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