Ambiente no feminino. Três empreendedoras, três projetos sustentáveis de Portugal para o mundo

Em 2020,o Prémio Terre de Femmes distinguiu em Portugal projetos de moda, energia e ecologia. As três empreendedoras portuguesas juntam-se a outras centenas de mulheres em 15 países.

Helena Antónia Silva criou uma marca de moda feminina que promove a economia circular e a inclusão social. Mariana Valério desenvolveu uma solução energética para São Tomé e Príncipe através da produção e comercialização de briquetes. Ana Pêgo tem um projeto de literacia e educação ambiental com vista a reduzir o plástico nos oceanos.

Estas são as três vencedoras da 11ª edição dos prémios Terre de Femmes da Fundação Yves Rocher, uma iniciativa anual que tem como objetivo apoiar e dar visibilidade a projetos de mulheres portuguesas na área do ambiente, com soluções sustentáveis e um trabalho diário para uma pegada ecológica mais positiva. No total, arrecadaram 18.000 euros em prémios monetários (10.000, 5.000 e 3.000 euros, respetivamente, para o primeiro, segundo e terceiro lugar) para ajudar a desenvolver os seus negócios de empreendedorismo no feminino.

Já a atriz Anabela Teixeira recebeu na edição deste ano uma menção especial com o projeto ‘Voltar À Terra’, que sensibiliza o público para as questões ambientais.

Estas novas laureadas portuguesas juntam-se assim a uma comunidade de perto de meia centena de mulheres premiadas em 15 países organizadores desta iniciativa. Criado em 2001, por Jacques Rocher, presidente honorário da Fundação Yves Rocher, os prémios Terre de Femmes têm edições anuais em França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Rússia, Espanha, Holanda, Itália, Luxemburgo, Marrocos, Portugal, México, Suíça, Turquia e Ucrânia. Com ações levadas a cabo em 50 países e com mais de 430 mulheres premiadas, já foram distribuídos mais de dois milhões de euros pelas vencedoras.

Em 2015, a investigadora Milene Matos, do departamento de biologia da Universidade de Aveiro (que este ano fez parte do júri em Portugal), venceu não só o Prémio Nacional Terre de Femmes, como se tornou na primeira portuguesa a arrecadar também o Grande Prémio Internacional e o Prémio do Público, com o projecto “Biodiversidade para todos” que pretende “usar o património natural, histórico e cultural inigualável da Mata Nacional do Buçaco como veículo para a construção de um serviço educativo com funções pedagógicas, sociais e de promoção e proteção da biodiversidade como elemento unificador”.

Em 2020, os projetos vencedores abrangeram projetos de moda, energia e ecologia. Na seleção dos projetos, o júri (Luísa Schmidt, Susana Fonseca, Mário Grácio e Milene Mato) tem em atenção o teor e impacto dos mesmos, nomeadamente na combinação dos seguintes critérios: ligação ao ambiente; fase de realização do projeto; perspetivas duradouras; e benefício para a comunidade/sociedade.

Vintage For a Cause

Chama-se Vintage for a Cause, é uma marca de economia circular (upcycling de roupa) e, desde o início, o projeto de Helena Antónia Silva já contribuiu para a poupança de cerca de uma tonelada de desperdício têxtil (que por norma é enviado para aterro), três milhões de litros de água e 7.000 kg de dióxido de carbono. Com o primeiro lugar no Prémio Terre de Femmes e respetivo donativo de 10 mil euros a empreendedora pretende criar uma Pop Up Store que contemple workshops de sensibilização.

O projeto surgiu em 2012 com o objetivo de produzir moda feminina revivalista a partir de roupa usada e desperdícios da indústria têxtil, criando designs exclusivos, em colaboração com diferentes designers, com o objetivo de minimizar o impacto da indústria da moda no ambiente e de integrar simultaneamente costureiras sénior na produção das peças. 100% made in Portugal, todos os produtos da marca são desenvolvidos à mão por costureiras portuguesas. No final de vida das peças de roupa as mesmas são recolhidas de forma a reduzir a quantidade produzida no atelier (vendendo as peças que ainda estão em bom estado como artigos de segunda mão), reutilizar (transformando-as em novas peças) ou reciclar (através de parcerias).

Além da vertente sustentável, o projeto tem também um forte impacto social através do programa de capacitação “From Granny to Trendy”, um programa de inclusão criativa para mulheres acima dos 50 anos, com ateliers de costura. Com esta iniciativa a Vintage for a Cause pretende “preencher a lacuna existente nas atividades ocupacionais que são oferecidas às mulheres que estão fora da vida ativa e que não se sentem enquadradas nas respostas tradicionalmente oferecidas”.

Com a duração de 9 meses, este programa apresenta 4 fases: sessão fotográfica profissional, de um outfit selecionado pelas participantes; conjunto de 12 sessões de costura, com técnicas de reaproveitamento e transformação de roupa; sessão fotográfica das participantes com a peça transformada; desfile de moda e exposição fotográfica, que servirá de mote para um momento de sensibilização e discussão de todas as temáticas associadas. Até agora já foram capacitadas mais de 40 mulheres acima dos 50 anos que, além de adquirirem novas competências, contribuem para a preservação do ambiente e para a partilha de experiência e conhecimento.

Helena cresceu com uma mãe costureira, duas irmãs e um irmão, e desde sempre usou roupa transformada. Licenciada em Direito, exerceu advocacia e funções de regularização de sinistros durante cerca de 10 anos. Em 2013, integrou uma pós-graduação em empreendedorismo e inovação social, a base da criação de uma nova vida profissional.

Bô Energia

O Bô Energia é um projeto criado por Mariana Valério em 2016, com o objetivo de apresentar uma alternativa energética à população de São Tomé e Príncipe, capaz de reduzir a desflorestação ilegal e a poluição proveniente das queimadas no país. A empreendedora apresentou como solução os briquetes, uma solução energética que conduz à redução do uso de combustíveis fósseis (nomeadamente o carvão e a lenha), com benefícios económicos e ambientais, que proporcionam uma melhor qualidade de vida às populações.

Este projeto começou a ser pensado em 2012, quando Mariana se deparou com um estudo que indicava que a serradura representa 6,5% do lixo produzido em São Tomé e Príncipe. Este material, utilizado para a produção de briquetes, tem um enorme potencial energético gerado pela produção de madeira, podendo ser queimado como alternativa ao carvão. Com este projeto, a vencedora do 2º prémio e de um donativo de cinco mil euros pretende sensibilizar para os riscos inerentes à utilização dos combustíveis fósseis e possibilitar a criação de uma nova fonte de rendimento aos produtores e vendedores de carvão.

“Em 2016, tornei-me voluntária da WACT – We Are Changing Together, uma Organização Não Governamental que trabalha em prol do Desenvolvimento através da educação, e com três outros voluntários iniciei o projeto Bô Energia. No mesmo ano iniciámos a fase piloto do projeto em São Tomé e Príncipe”, conta Mariana. Neste momento, 15% da população já compra e utiliza os briquetes como fonte de energia para cozinhar.

Com o prémio Terre de Femmes, Mariana vai dar início à construção do centro de produção de briquetes em São Tomé e Príncipe, permitindo assim a sua industrialização. Dessa forma, irão aumentar a produtividade diária, diminuir os custos de produção e de venda e contribuir para o crescimento da economia local. A empreendedora é mestre em Bioquímica e especialista em comunicar ciência através de aulas e atividades experimentais.

Plasticus Maritimus

Apaixonada pelas praias e oceanos, Ana Pêgo criou, em 2015, um projeto de educação ambiental com o nome de ‘Plasticus Maritimus’. O foco principal do projeto centra-se na temática do plástico nos oceanos (responsável por 80% do lixo marítimo) e tem como objetivo ensinar e sensibilizar para esta problemática, de forma lúdica e artística, sem perder o cariz científico, através da criação de arte com o plástico recolhido nos oceanos e areais.

O que começou por ser um projeto pequeno viu a sua notoriedade aumentada com a criação de uma página de Facebook, em 2015, e com a publicação do livro “Plasticus maritimus, uma espécie invasora”, no ano de 2018. O mesmo, que conta já com 3 edições, encontra-se no Plano Nacional de Leitura, estando a ser traduzido para várias línguas.

O donativo recebido, no valor de 3.000 euros, vai permitir o aluguer de um espaço para armazenar material e a compra de material tecnológico.

Além de ser uma ‘beach cleaner’, ou seja, alguém que faz limpezas nas praias, em grupo ou de forma individual, Ana Pêgo é também uma ‘beachcomber’, ou seja uma espécie de colecionadora que se interessa também pela origem e pela história dos objetos que encontra. A somar às recolhas nas praias, tem usado as coleções de objetos para fazer palestras, workshops e exposições e, deste modo, mostrar às pessoas de todas as idades as histórias incríveis dos objetos que aparecem na nossa costa.

Voltar à Terra

A atriz Anabela Teixeira já há muito que demonstra uma enorme paixão por seguir um estilo de vida sustentável, no seu blog “Voltar à Terra”. Como forma de continuação de todo o projeto desenvolvido, Anabela pensa em transpor as suas ideias para o grande ecrã com a produção de um filme/documentário “Voltar à Terra”. O projeto tem como objetivo estimular a troca de ideias e de dinâmicas no que diz respeito às questões ambientais e na sua conexão com o mundo artístico e cívico. Através da arte pretende despertar e consciencializar para o uso de alimentação e práticas mais saudáveis e sustentáveis.

Antigas Vencedoras dos Prémios Terre de Femmes

No ano de 2019, Eunice Maia foi a grande vencedora da 10ª edição dos Prémios Terre de Femmes com o projeto Maria Granel. Uma mercearia biológica, 100% a granel e a primeira “Zero Waste Store” em Portugal, totalmente isenta de plástico, que pode ser visitada levando o seu próprio recipiente para reabastecer, ou onde pode adquirir embalagens sustentáveis – sacos de papel reciclado ou frascos de vidro.

Já em 2018, o prémio foi atribuído a Estrela Matilde, com o projeto “Cooperativa de Valorização dos Resíduos – CVR”, recebendo um donativo no valor de 10.000 euros. A vencedora, que vive na Ilha do Príncipe, orienta um grupo de dez mulheres que desenvolve joias a partir de garrafas de vidro recicladas, o que coopera no desenvolvimento económico e social das famílias da ilha. A Cooperativa trabalha ainda na compostagem de resíduos orgânicos.

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