À procura por casas de férias, hóspedes pedem descontos até 80% no alojamento local

Aproveitando o momento tremido do turismo, os hóspedes, sobretudo portugueses, estão a pedir descontos nas estadias que chegam aos 80%. Alojamento local fala em propostas "insultuosas".

O verão não vai ser o mesmo de outros anos. O turismo vai ser praticamente nacional devido à pandemia. De olhos postos neste cenário, os hóspedes têm tentado a sua sorte com as férias, confrontado os proprietários de alojamento local com pedidos de descontos. Os pedidos de baixa de preços são muitos e, por vezes, até vêm acompanhados de uma espécie de “chantagem”. Os proprietários falam em algo nunca antes visto, propostas “insultuosas” e “ridículas” que chegam aos 80% de desconto.

“Tenho dois imóveis em Lagos há praticamente três anos e nunca experienciei nada disto”, conta ao ECO Joana Martins. Nas últimas semanas, esta empresária de alojamento tem recebido pedidos de desconto por parte de hóspedes e, neste caso, todos hóspedes portugueses. “Nunca tive este tipo de situações com estrangeiros”.

Uma das casas que Joana Martins tem custa, em agosto, 295 euros por noite. O que numa semana dá um total que ultrapassa os 2.000 euros. “Houve um senhor que me ofereceu 50 euros por dia para uma estadia de 1 a 8 de agosto”, diz. Ou seja, um desconto de mais de 80%. “O público português de repente acordou e pensa que pode pôr e dispor das nossas casas. Chegam a ser abordagens completamente fora do normal”, diz.

Outra das mensagens que Joana Martins recebeu referia que a pessoa em questão tinha um plafond de 150 euros para gastar em determinados dias de agosto, questionando-a se estava ou não interessada. “Engraçado que as pessoas escolhem as nossas casas porque são apelativas e bonitas, mas ao mesmo tempo pensam que podem pagar por elas o mínimo dos mínimos”, diz a proprietária, que classifica estas abordagens de “ofensivas”.

Pagamos um “porradão” de impostos e não podemos andar nisto. Prefiro ter a casa fechada do que estar a alugar no desespero como muitos fazem para depois concluírem que não compensa.

Joana Martins

Proprietária de alojamento local

Joana Martins acredita que o problema está na “mentalidade” das pessoas, porque “quando vão para fora vale tudo” e “em Portugal pagar balúrdios já não é válido”. “Pagamos um ‘porradão’ de impostos e não podemos andar nisto. Prefiro ter a casa fechada do que estar a alugar no desespero como muitos fazem para depois concluírem que não compensa”, afirma.

Também na zona do Algarve, mais concretamente em Albufeira, está Luís Mendes (nome fictício), funcionário de uma empresa que gere cerca de 50 imóveis de alojamento local. Ao ECO, conta como “antes da pandemia funcionava tudo muito bem” e como “durante a pandemia foi zero completo”. “Depois disto tudo ainda é mais ridículo porque as pessoas pedem descontos acima dos 70%”, diz. “É impossível alugarmos casas por aqueles preços”.

Um dos contactos mais recentes que esta agência recebeu de um hóspede interessado dizia respeito a uma estadia de duas semanas para uma villa de luxo em Albufeira, cujo custo seria cerca de 5.000 euros. “Pediam-nos para baixar o preço para 1.400 euros, mais de 70% de desconto”, recorda este funcionário, que diz tratar-se de um hóspede estrangeiro. Contudo, a maioria destes pedidos de descontos vem de portugueses, diz.

Esta agência gestora de imóveis de alojamento local recebeu uma proposta de estadia 71% abaixo do valor anunciado. “Olá. Somos uma família de cinco e o nosso orçamento total é de 1.400 euros de 2 a 14 de julho. Estaria interessado em alugar-nos a sua amável casa?”D.R.

“São mais portugueses”, nota, recordando uma outra proposta de 500 euros por uma semana numa villa com piscina privada, isolada e perto da praia, que normalmente se aluga a 2.000 euros. “Isto implica ter uma pessoa sempre disponível, tratar de roupa, limpeza, desinfetante, condomínio, despesas, hipoteca, seguro do alojamento local e comissões. Nem sequer é um preço de breakeven [equilíbrio], é mesmo preço de prejuízo. As pessoas que aceitam isto não sabem fazer contas, gostam de ter prejuízo“, afirma.

Em Lisboa, no Bairro Alto, Marta França tem um alojamento local há cerca de um ano e meio. E também esta proprietária tem sido abordada com este tipo de pedidos. “Costumam perguntar se dada a atual situação seria possível eu fazer-lhes um desconto”, conta ao ECO. “Como já estou a reduzir bastante o valor por noite para a época do ano, não tenho feito descontos adicionais (a não ser em estadias superiores a uma semana)”.

O problema, conta Marta França, é que quando recusa oferecer estes descontos, o interesse acaba. “A maioria não faz a reserva nem volta a contactar-me”, diz. “Houve inclusivamente um hóspede que me pediu um desconto de 50% e quando eu lhe disse que não seria possível, fui quase insultada”, recorda, notando que a maioria destas mensagens que recebeu foi de estrangeiros. “Antes da pandemia os hóspedes não pediam descontos”.

Marta recebeu uma proposta de desconto para o alojamento local que tem no Bairro Alto, em Lisboa.D.R.

Marta França acredita que isto acontece porque “as pessoas têm noção que o setor do turismo está a passar por dificuldades” e, por isso, “tentam aproveitar-se da situação”. A verdade é que o alojamento local que mantém no Bairro Alto continua praticamente sem reservas. Mesmo com preços mais baixos do que os praticados no verão do ano passado.

“Já estávamos mais ou menos preparados para isto”

Carla Costa Reis está no setor há nove anos, foi uma das fundadoras da Associação de Alojamento Local em Portugal (ALEP), e gere atualmente no Facebook um grupo de alojamento local com mais de 70 mil membros. Ao ECO, a gestora diz que o setor “estava mais ou menos preparado” para este tipo de situação, “porque há um certo padrão quando se tem mais reservas de portugueses, que tendem a esperar preços mais baixos”.

A empresária diz que esse tipo de abordagens é mais comum nas plataformas de arrendamento, o que tem deixado os proprietários “de pé atrás” ao anunciar neste tipo de canais. “A diferença é que nos anos anteriores podíamos dispensar estes canais nacionais porque a taxa de ocupação era atingida no Airbnb, Booking ou nos canais especiais para o Algarve. No regime normal de férias de verão, a maior parte dos proprietários alimentava o verão com reservas de fora”, explica Carla Costa Reis, notando que este ano isso não acontece.

Mas o problema é ainda mais preocupante no segmento não profissionalizado, que acaba por ceder a estas reduções. “Quem está no mercado de uma maneira mais profissionalizada já tem preços adequados à situação atual e é mais assertivo nas respostas. Mas depois há outras pessoas que não pensam num plano de negócios e estão muito aflitas, que preferem receber 20 euros do que não receber nada”, explica.

Uma coisa que se notou e que eu nunca tinha visto foi hóspedes a dizerem que vão cancelar as reservas porque os nossos concorrentes têm preços mais baixos. É uma chantagem de preço brutal. Nunca tinha visto nada igual.

Carla Costa Reis

Proprietária de alojamento local e co-fundadora da Associação de Alojamento Local em Portugal (ALEP)

Carla Costa Reis fala mesmo em, muitos casos, “chantagem de preços”. “Uma coisa que se notou e que eu nunca tinha visto foi hóspedes a dizerem que vão cancelar as reservas porque os nossos concorrentes têm preços mais baixos. É uma chantagem de preço brutal. Nunca tinha visto nada igual”, diz, notando, contudo, que não é surpreendente porque é algo “típico no mercado de oferta e procura que foi virado do avesso”.

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