Banca usa milhões do BCE para dar crédito, mas também para apostar na dívida pública

Maiores bancos portuguesas participaram na terceira série de operações de financiamento a baixo custo do BCE em junho, mas só um banco entrou na operação de setembro.

A banca portuguesa tem pouco interesse pelas operações de financiamento de baixo custo do Banco Central Europeu (BCE) e, mesmo os que participam, não usam o dinheiro apenas para conceder crédito à economia. Os inquéritos feitos pelo supervisor nacional à banca mostram que as instituições financeiras estão a usar a liquidez adicional vinda da Europa para comprar dívida pública.

O BCE tem levado a cabo operações de refinanciamento de prazo alargado com condições mais favoráveis para incentivar os bancos a financiarem-se e repassarem a liquidez para a economia. Estas operações são as targeted longer-term refinancing operations (TLTRO, na sigla em inglês ou ORPA em português).

No inquérito aos bancos sobre o mercado de crédito de outubro, conhecido esta terça-feira, o Banco de Portugal revela que cinco bancos participaram na terceira série de operações em junho de 2020 e apenas um banco participou na operação de setembro.

“A principal razão subjacente à participação dos bancos na operação de junho foram as condições atrativas de rendibilidade das ORPA. Na operação de setembro e nas operações futuras os motivos para a participação são a redução das dificuldades de financiamento atuais ou evitar dificuldades de financiamento futuras e o reforço do cumprimento dos requisitos regulamentares ou prudenciais“, revela.

Nos últimos seis meses, os bancos que recorreram a estas operações fizeram-no principalmente para substituir o financiamento que tinham conseguido em séries anteriores de ORPA direcionadas II, bem como para reforçar a concessão de empréstimos às empresas. “Os bancos indicaram adicionalmente que utilizaram a liquidez proporcionada pelas ORPA III como alternativa a outras operações de cedência de liquidez, para aquisição de obrigações soberanas nacionais ou para detenção de liquidez junto do Eurosistema“, aponta o BdP.

A compra de dívida pública nacional tem sido uma estratégia dos bancos desde a última crise para tentar aproveitar os juros positivos (num ambiente de yields comprimidas) e fugir à taxa negativa que o BCE aplica aos depósitos. Após um ligeiro recuo no ano passado, os bancos voltaram a fazê-lo desde o arranque da pandemia e as perspetivas é que a tendência continue.

“Para os próximos seis meses, os bancos anteveem utilizar a liquidez sobretudo para concessão de empréstimos ao setor privado não financeiro e, em menor grau, para aquisição de obrigações soberanas nacionais e detenção de liquidez junto do Eurosistema”, acrescenta a análise do supervisor liderado por Mário Centeno.

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