Medidas mais drásticas para travar pandemia afundam economia

Economistas consultados pelo ECO admitem que a economia possa contrair no quarto trimestre, face ao terceiro trimestre, se houver restrições mais apertadas por causa do combate à pandemia.

Com o aumento do número de infeções na Europa, a ameaça de um novo confinamento, ainda que menos intenso do que em março e abril, é cada vez mais real. Em Portugal, o cenário é semelhante, com o Governo a decretar o regresso ao estado de calamidade, mas a preparar-se para mais medidas que serão tomadas no Conselho de Ministros Extraordinário deste fim de semana. Isso terá consequências na recuperação da economia, que poderá ser interrompida no quarto trimestre, admitem os economistas consultados pelo ECO.

Após a quebra da atividade económica sem precedentes em março e abril, a economia portuguesa começou gradualmente a recuperar em maio e de forma mais significativa durante o verão. Chegados a setembro, o Instituto Nacional de Estatística (INE) já identificou uma desaceleração do ritmo de recuperação. Mas será que com a deterioração da situação pandémica a economia ainda vai sofrer mais? O receio existe e poderá traduzir-se na contração do PIB no quarto trimestre.

“Para já, o mais provável é um crescimento fraco ou quase nulo do terceiro para o quarto trimestre”, estima António Ascensão Costa, do Grupo de Análise Económica do ISEG. “Se entrarmos, nós e a Europa, num quase confinamento, uma contração já parece possível“, admite. Ao ECO, o economista alerta que “não se sabe o que irá suceder”, mas considera ser expectável que “com restrições de atividade mais gerais a recuperação económica poderá mesmo ser travada”.

João Borges de Assunção, do NECEP da Católica, segue a mesma linha de cautela, mas também de preocupação face aos desenvolvimentos recentes. Um novo confinamento, “claro está, será um grande problema“, assume, referindo que os dados conhecidos mostram que será “difícil” que se mantenha no quarto trimestre o “ressalto” da recuperação do terceiro trimestre. Contudo, para já, “em Portugal ainda não há dados que permitam dizer que uma contração em cadeia no quarto trimestre é o cenário mais provável“.

No quarto trimestre, com a reposição de restrições à circulação e à atividade, há a possibilidade de um retrocesso“, antecipa também o diretor do Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade, Pedro Braz Teixeira. Da mesma forma, a consultora IHS Markit, que mede a atividade económica da Zona Euro todos os meses ao pormenor, identificou em outubro uma reversão da recuperação, admitindo que esta tendência “levanta a possibilidade de que a economia europeia possa voltar a contrair-se no quarto trimestre”.

Já é praticamente certo que em termos homólogos tanto o PIB do terceiro trimestre — que será conhecido a meio de novembro — como o do quarto trimestre será negativo. Ou seja, face ao mesmo período do ano passado, a economia continua a produzir menos. A dúvida incide sobre a evolução entre um trimestre e o anterior, ou seja, o crescimento em cadeia. Entre o segundo trimestre e o terceiro trimestre é quase garantido que o crescimento em cadeia será positivo, mas agora há dúvidas sobre se o mesmo acontecerá entre o terceiro trimestre e o quarto trimestre.

Recuperação em 2021 poderá ser mais lenta

Caso haja uma deterioração significativa da economia no quarto trimestre, as consequências vão fazer-se sentir não só em 2020 — levando a uma recessão maior do que a prevista atualmente –, mas também no início de 2021 que é visto como um ano de clara recuperação económica. “A repetição de um confinamento severo e generalizado idêntico ao praticado entre março e maio deste ano terá consequências quer na previsão de contração este ano bem como no crescimento e eventual recuperação do próximo ano“, alerta o economista João Borges de Assunção.

Pedro Braz Teixeira afasta para já a ideia de que haverá uma recuperação em ‘V‘, existindo “o receio de recaídas, como a que se verifica já na Europa, que lança dúvidas sobre o ritmo da recuperação”. Tal levará a uma recuperação mais lenta também no início do próximo ano e, em termos líquidos, a economia poderá chegar ao final do próximo ano num nível mais baixo do que o estimado anteriormente, avisa o economista, alertando que uma recuperação percentual maior em 2021 resulta apenas de uma recessão mais profunda em 2020.

António Ascensão Costa, do ISEG, alerta que há “alguns aspetos da crise (desemprego, encerramento de empresas)” que “só a partir de agora se começariam a fazer sentir mais intensamente”. A última previsão do Grupo de Análise Económica aponta para uma queda de 8 a 10% do PIB em 2020, sendo que “a atual perspetiva de mais restrições torna mais provável uma queda de 10%”. Para 2021, as previsões são “muito incertas” pelo que não arrisca dizer “qual o cenário mais provável”. Tudo dependerá da evolução da crise sanitária.

No caso da Católica, o cenário central para 2020 continua a ser uma contração de 10%, “mas agora com um intervalo de confiança entre -9% e -12%, o que ainda assim é alargado”, nota João Borges de Assunção. O economista explica que a metodologia do NECEP “já inclui modelos com a possibilidade de uma segunda vaga e algumas medidas preventivas”. Para 2021 está mais pessimista do que o Governo e outras instituições que fazem previsões: o PIB deverá recuperar apenas entre 2,5% a 3% no próximo ano, ficando ainda 8% abaixo do nível de 2019.

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