“Não há futuro da economia portuguesa sem uma indústria forte”, defendem empresários e economistas

Na conferência organizada pelo ECO "Fábrica 2030", empresários e economistas defenderam que o país não se pode "demitir da sua vocação industrial" e anteciparam alguns desafios.

Tanto os empresários como economistas concordam que a “diversidade e qualidade” da indústria portuguesa é “assinalável”, por isso defendem que Portugal não se pode” demitir da sua vocação industrial”. Ainda assim, alertam que face à crise provocada pela pandemia traz vários desafios.

A indústria é uma base fundamental da nossa economia”, apontou Ana Lehmann, professora da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, na conferência “Fábrica 2030” organizada esta terça-feira pelo ECO, sublinhando que, por isso, “Portugal, tal como a Europa, não se pode demitir da sua vocação industrial“. Esta opinião é partilhada por Fernando Alexandre, professor Universidade do Minho, que frisou o facto de as duas realidades estarem “muito ligadas”. E “vão estar ainda mais ligadas na próxima década”, acrescentou. “Assistimos a uma reconfiguração das cadeias de produção globais, há movimentos geopolíticos entre a Europa, Estados Unidos e a China e a Europa está a reafirmar-se”, destacou.

Fábrica 2030 - Portugal e a Reindustrialização Europeia - 24NOV20
Ana Lehmann, professora da Faculdade de Economia da Universidade do PortoHugo Amaral/ECO

É necessário “estimular o tecido empresarial” português, sem deixar de olhar para o que se está a fazer no Velho Continente e, “em particular na Alemanha”, um dos motores da indústria a nível mundial, alerta o professor. Fernando Alexandre considera que a reorganização da indústria “é uma constante”, mas que “acelerou com a pandemia, com as transformações tecnológicas e com o maior domínio que a China tem no tabuleiro da economia mundial”. “A questão que agora se coloca é que com esta aceleração que outra vez tivemos não podemos ficar outra vez à margem“, defende, acrescentando que uma recuperação da economia portuguesa passa também por este setor. “Não há futuro da economia portuguesa sem uma industria forte”, sinaliza.

Fábrica 2030 - Portugal e a Reindustrialização Europeia - 24NOV20
Fernando Alexandre, professor Universidade do MinhoHugo Amaral/ECO

Também para César Araújo “o bichinho” da indústria portuguesa é indiscutível, mas o presidente da ANIVEC chama a atenção para a concorrência da China, que pode ameaçar este setor. “O que me interessa ter fábricas se depois o mercado europeu importa produtos da Ásia?”, questiona, dando como exemplo a indústria têxtil, sublinhado que “85% dos produtos consumidos na Europa têm proveniência asiática”. “ A Europa é o nosso mercado doméstico e a Europa tem de promover produtos domésticos”, sinaliza.

Fábrica 2030 - Portugal e a Reindustrialização Europeia - 24NOV20
César Araújo, presidente da ANIVECHugo Amaral/ECO

Outra das criticas apresentadas pelo presidente da ANIVEC diz respeito à falta de estímulos que permitam que as empresas portuguesas “possam concorrer” com as empresas estrangeiras. “Uma empresa que tenha 300 e 400 trabalhadores porque o país não estimula vai reduzir o seu quadro de pessoal e vai competir a nível local”, alerta. “Só pensamos de micro”, critica. Assim, César Araújo insta os decisores políticos a “pensar macro”, de modo a que Portugal “possa ser excelência a nível europeu e a nível mundial”.

Por outro lado, Paulo Natal, responsável pela área comercial da zona norte do Santander Portugal, recusa a ideia de que a indústria portuguesa está “condenada” ou que não vai sobreviver, apesar de admitir “que o contexto que se vive é diferente”. Para o responsável pela área comercial da filial do banco espanhol em Portugal, o grande desafio é “estar nas cadeias de valor, na inovação, na marca, no produto e da diferenciação” e “fugir” daquilo que era “o modelo tradicional da indústria” que “era estar no final da cadeia de valor e ser subcontratado da Europa”. Além disso, destaca que é preciso “fazer apostas fortes na investigação”, bem como “dar o salto” no que toca à atomização da indústria.

Fábrica 2030 - Portugal e a Reindustrialização Europeia - 24NOV20
Paulo Natal, responsável pela área comercial da zona norte do Santander PortugalHugo Amaral/ECO

Quanto ao papel da banca na reindustrialização na indústria chama a atenção para o facto de existirem “muitas pequenas e médias indústrias muito pouco capitalizadas. “Há um dado que acho que é critico: 27% das indústrias portuguesas têm capitais próprios negativos“, alerta, defendendo que este também é um dos desafios “do papel da banca” no apoio a este setor do qual não se podem desassociar, aponta. Além disso, Paulo Natal critica o facto de o Plano Recuperação e Resiliência, ser muito focado “na ferrovia e na coesão territorial”, deixando a indústria para segundo plano. “Há de facto um défice de apoio à industrialização e dentro da industrialização àquela que é o motor da indústria que é a exportação”, conclui.

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