Retoma do verão não chega para as contas do PSI-20 esquecerem o vírus

Quebras nos lucros das empresas da bolsa, entre janeiro e setembro, foram atenuadas pela recuperação nos meses de verão. Apesar da segunda vaga ser um risco, há já quem regresse aos dividendos.

As empresas do PSI-20 lucraram 1.374 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2020. Por esta altura, no ano passado, já tinham ganho mais 50%. A pandemia está a ter um forte impacto nas contas das maiores empresas do país e, apesar da recuperação no verão, o saldo do ano é negativo e os gestores fazem alertas sobre a segunda vaga.

“Após um segundo trimestre difícil, marcado por fortes medidas de confinamento, o terceiro trimestre foi ainda um período com muitas restrições que impactaram o nosso dia-a-dia”, contava Cláudia Avezedo, CEO da Sonae. A dona do Continente teve prejuízos de 24 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, um valor que ficou, ainda assim, aquém do registado no primeiro semestre. A melhoria traduz um desempenho positivo no período do verão, em que lucrou 51 milhões, beneficiando do crescimento nas receitas.

Das 18 empresas do PSI-20 (incluindo ainda a Sonae Capital, que abandonou a bolsa de Lisboa a 20 de novembro), todas pioraram os resultados nos nove primeiros meses do ano especialmente devido ao impacto das restrições à atividade no segundo trimestre do ano. Tal como a Sonae e a Sonae Capital, outras quatro cotadas passaram de lucros a prejuízos. É o caso da Galp Energia e da Ibersol, mas também da Mota-Engil e da Pharol (ambas apresentam apenas resultados semestrais).

"Estou bastante otimista porque acho que o tecido empresarial português evoluiu na última década. (…) A retirada de apoios antes do tempo seria dramática. Temos que dar tempo à economia para respirar.”

Miguel Maya

CEO do BCP

Consumo e câmbio pesam nas contas

Há negócios que estão na linha da frente da pandemia, como a restauração. O “encerramento abrupto” de 73% dos restaurantes da dona da Pizza Hut “penalizaram severamente o desempenho operacional”, não tendo sido possível “ajustar as rubricas de custo à redução de vendas”.

O mesmo acontece com os cinemas, que têm pesado nas contas da Nos. “Embora os nossos cinemas tenham reaberto no dia 2 de julho, após o confinamento, sob estritas medidas sanitárias e de segurança, o número de espetadores não recuperou de forma significativa, devido ao adiamento sucessivo e indefinido do lançamento de êxitos de bilheteira por parte dos grandes estúdios internacionais”, confessa a empresa, que conseguiu compensar com o aumento da captação de clientes e serviços no negócio core de telecomunicações.

Já setores como o do petróleo e o papel, foram afetados não só direta, mas também indiretamente. A Altri viu o preço a que venda a pasta de papel cair devido à depreciação do dólar norte-americano, afetando as contas. No caso da Galp, as perdas foram causadas pela quebra no consumo, descida dos preços do petróleo e desvalorização cambial.

Entre as 12 empresas que conseguiram manter as contas no “verde”, os CTT destacaram-se pela maior queda. A operadora postal lucrou 4,3 milhões de euros entre janeiro e setembro, um recuo superior a 81% face ao período homólogo causado por um recuo de 17,1% no total de correio endereçado, para 387,3 milhões de objetos entregues no período.

Fonte: relatórios das empresas

Apesar de a pandemia ser um tema chave, as empresas continuam a gerir os seus negócios e a ser influenciadas por outras questões. A regulação voltou, no terceiro trimestre, a ser central para as energéticas. O resultado líquido diminuiu, fruto do menor EBITDA e da maior abrangência da CESE, apesar dos melhores resultados financeiros e a recuperação de impostos”, justifica a REN.

A empresa liderada por Rodrigo Costa atribui grande parte do recuo de 12% nos lucros à Contribuição Extraordinária para o Setor Energético (CESE), que contesta, tal como a EDP. O imposto tem contribuído para o resultado líquido negativo em Portugal da elétrica de Miguel Stilwell d’Andrade.

Contudo, a EDP — que no total viu os lucros caírem 8% para 422 milhões de euros — revela agora que vai deixar cair o processo. “Relativamente à CESE, no contexto da atual crise pandémica e no seguimento da análise periódica da probabilidade de sucesso e custos com processos judiciais em curso, a EDP decidiu desistir da litigância judicial com o Estado Português sobre esta Contribuição”.

"Enquanto escrevo estas palavras, e desde o início de outubro, temos assistido a um aumento do número de infeções por Covid-19 em todo o mundo, sendo que os governos estão novamente a implementar restrições mais severas, incluindo novos confinamentos em alguns países. Esta nova vaga irá certamente voltar a testar-nos.”

Cláudia Azevedo

CEO da Sonae

Próxima vaga é risco. Mas há quem regresse aos dividendos

Com ou sem fatores específicos, a tendência generalizada é de quebras nos lucros entre janeiro e setembro, atenuada pela recuperação nos meses de verão graças ao desconfinamento. Mas a pandemia não passou e a dependência dos resultados às restrições não parece bom augúrio para os próximos meses.

“Enquanto escrevo estas palavras, e desde o início de outubro, temos assistido a um aumento do número de infeções por Covid-19 em todo o mundo, sendo que os governos estão novamente a implementar restrições mais severas, incluindo novos confinamentos em alguns países. Esta nova vaga irá certamente voltar a testar-nos“, alerta Cláudia Azevedo.

O concorrente Pedro Soares dos Santos, CEO da Jerónimo Martins, partilha do receio, dizendo estar “consciente de que a incerteza permanece muito elevada”, especialmente na altura do Natal, “época tradicionalmente mais forte para o negócio”. No entanto, aponta a solidez da empresa.

"Apesar da dureza dos tempos que vivemos, acredito que estamos hoje mais bem preparados do que há seis meses para lidar com as exigências da realidade de cada mercado e para continuar a crescer de forma sustentável.”

Pedro Soares dos Santos

CEO da Jerónimo Martins

“Ao longo destes meses, a força do nosso balanço tornou possível que não perdêssemos, na urgência do curto prazo, a perspetiva do longo prazo e que nos mantivéssemos firmes nas prioridades estratégicas definidas. Apesar da dureza dos tempos que vivemos, acredito que estamos hoje mais bem preparados do que há seis meses para lidar com as exigências da realidade de cada mercado e para continuar a crescer de forma sustentável“, sublinha Pedro Soares dos Santos.

E é essa convicção que levou o Conselho de Administração a propor a distribuição dos dividendos que tinham sido retidos no ano passado: o montante remanescente para o payout de 50%, em linha com a política de dividendos do grupo, totaliza 86,7 milhões de euros. Além da retalhista, há apenas mais um caso de regresso antecipado aos dividendos. A Navigator também tirou quase 100 milhões de euros das reservas para dar aos acionistas.

O BCP ainda não fala em voltar aos dividendos, mas o CEO Miguel Maya também está “bastante otimista”, segundo o próprio, que rejeita um cenário de “bomba relógio” para o setor causada pelas moratórias. O líder do banco — que registou lucros de 146,3 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano (uma descida de 45,9% face ao mesmo período do ano passado) — considera que o setor está resiliente, mas não deixa de ser riscos. “A retirada de apoios antes do tempo seria dramática. Temos que dar tempo à economia para respirar“, avisou Miguel Maya.

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