Sem central a carvão em Sines, serão os servidores a aquecer as águas da praia de São Torpes

A anglo-americana Start Campus pondera usar o ponto de entrada de água do mar da central da EDP, usado para arrefecer as turbinas a vapor, para ter o mesmo efeito nos servidores do novo data center.

Não será já este verão, nem no próximo. Mas, a partir de 2023, as águas da praia de São Torpes, em Sines, poderão voltar a aquecer. Agora, não por causa da maior central térmica do país, que por 35 anos queimou carvão e emitiu CO2 para iluminar Portugal, mas por via de um novo projeto sustentável que vai nascer na região: um centro de dados, cujos servidores serão 100% alimentados por energia renovável.

Há um par de semanas, a empresa anglo-americana Start Campus anunciou que vai investir 3,5 mil milhões de euros para instalar um mega centro de dados mesmo ao lado da mítica central de Sines. Agora, confirma ao ECO que está a estudar a possibilidade de usar a mesma infraestrutura de tomada e restituição de água que era usada para o arrefecimento da central da EDP no seu próprio sistema de arrefecimento dos servidores: “Estamos a olhar para essa possibilidade”, confirmou ao ECO fonte oficial da empresa.

Contactada pelo ECO, fonte oficial da EDP também confirmou já terem havido contactos nesse sentido: “A EDP foi informada do interesse do promotor do data center em utilizar parte destas infraestruturas em Sines. No entanto, a futura utilização dessas infraestruturas de tomada de água e restituição para múltiplas utilizações será da responsabilidade das autoridades competentes”, disse a elétrica.

Esse ponto de tomada de água, que durante mais de três décadas permitiu à EDP arrefecer as turbinas a vapor, movidas pelas caldeiras que queimavam combustíveis fósseis, será agora gerida pelo Estado, pela mão da AICEP Global Parques, responsável pela Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS). A água do mar passará, então, a arrefecer milhares de servidores, num projeto que quer nascer já neutro em carbono e alimentado por 450 MW de energia renovável (solar, eólica e hídrica).

Já era público que a Start Campus pretendia recorrer à água do mar para esta função e a solução pode estar ali mesmo ao lado, na central que, no início de 2021, deixou de queimar carvão na produção de energia elétrica.

Em julho do ano passado, fonte oficial da EDP explicou ao ECO que a central termoelétrica em si mesma não poderia ser reconvertida para queimar hidrogénio em vez de carvão, mas assumiu a possibilidade de “aproveitamento das infraestruturas associadas à central” e deu como exemplo, precisamente, a infraestrutura de “tomada e restituição de água”.

Servidores vão aquecer a praia, serão clientes do hidrogénio verde de Sines

O arrefecimento da central foi, durante alguns anos, associado à temperatura muito mais amena das águas da praia adjacente, a praia de São Torpes.

Assim, a confirmar-se a utilização pela Start Campus, é mais um sinal da transição energética em curso em Portugal, na medida em que parte de uma infraestrutura associada à emissão de gases com efeito de estufa é usada para uma operação radicalmente diferente: numa altura em que se considera que os dados são o “novo petróleo”, os centros de dados assumem um papel central na nova economia mais sustentável e digital.

“Escolhemos Sines por causa da sua localização geográfica, escalabilidade, topologia única do solo oceânico, conectividade, disponibilidade de energia barata e neutra em carbono de fontes renováveis e arrefecimento acessível, altamente eficiente e amigo do ambiente”, acrescenta a Start Campus.

Apesar de ter a central da EDP como vizinha, a Start Campus não espera ter despesas com eventuais descontaminações do solo. “Não adquirimos a central de carvão. Estamos a desenvolver um projeto verde adjacente a ela”, remata fonte oficial, quando interrogada acerca dessa possibilidade.

O ECO confirmou que o novo data center vai nascer nos “terrenos contíguos” à termoelétrica a carvão, agora desativada, ou seja, em plena Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), gerida pela empresa estatal AICEP Global Parques. A ZILS tem disponíveis 2.375 hectares contíguos ao Porto de Sines, ocupados apenas a 70% e com espaço para instalar projetos diversos.

O mega centro de dados ficará assim totalmente integrado no futuro “hydrogen valley” que o Governo quer desenvolver em Sines. Um cluster industrial para a produção, transporte, armazenamento, distribuição, exportação e uso de hidrogénio verde, que conta já com seis projetos interessados, entre eles o H2Sines da EDP, Galp, REN, Martifer e Vestas, que prevê a exportação de gás renovável para a Holanda.

O “Sines Hydrogen Valley” terá mais de 1 GW de produção de eletricidade renovável a partir da energia solar e eólica e mais de 1 GW de capacidade de produção de hidrogénio verde a partir de eletrolisadores. Neste contexto, o data center será mais um potencial cliente/consumidor do gás renovável que virá a ser produzido na região, que funcionará como uma espécie de “backup” energético.

O ECO sabe também que a Start Campus adquiriu um terreno na zona onde irá instalar por meios próprios e desenvolver a produção de energia renovável solar e eólica (450 MW) necessária para a operação do projeto, em regime de autoconsumo de energia. O primeiro dos cinco edifícios do centro de dados está planeado para estar pronto em 2023 (e vai exigir uma capacidade instalada de 90 MW de energia renovável). A totalidade da infraestrutura é expectável que esteja 100% operacional em 2025, confirmou a Start Campus.

Além disso, está também a ser implementada em paralelo uma Comunidade de Energia Renovável na Zona Industrial e Logística de Sines que será alimentada pelo cluster de energias renováveis que está a nascer nas redondezas. A AICEP Global Parques garante que já há centrais solares a operar ou a entrar em operação, a serem licenciadas ou projetadas.

Fonte: AICEP Global Parques

Acesso à rede elétrica de alta tensão e sistemas de refrigeração com água do mar foram outros dois pontos sublinhados pelos promotores para instalar o data center em Sines. Recentemente, Filipe Costa, CEO da AICEP Global Parques, sublinhou os “fortes investimentos já feitos nas interligações elétricas de alta e muito alta voltagem” entre a ZILS e a rede elétrica nacional (sendo que a mais potente de todas que está agora disponível — 400 Kv — até há bem pouco tempo escoava para a rede a eletricidade produzida na central a carvão, entretanto desativada).

Na sua apresentação destacou ainda a presença abundante de água na região com um alto débito de oferta para uso industrial: de uma capacidade atual de 6 m3 por segundo, a ZILS duplicará esse número para 12 m3 por segundo no terceiro trimestre de 2022, destacando as infraestruturas de tomada e rejeição de água do mar existentes não só na central da EDP como também nos tanques de armazenamento de gás natural liquefeito (GNL) da REN, no Porto de Sines.

(Notícia atualizada no dia 4 de maio às 13h17 com mais informação sobre o projeto).

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