CMVM multa ex-auditor da Yupido em 50 mil euros, a empresa mistério que “vale” 29 mil milhões

Revisor que auditava Yupido foi multado em 50 mil euros por falhas na auditoria às contas de 2015 e 2016. Empresa mistério avaliada em quase 29 mil milhões de euros foi descoberta há perto de 5 anos.

A empresa que auditava as contas da Yupido foi multada pela CMVM em 50 mil euros. O supervisor dos mercados concluiu que a J. Rito & Associada cometeu infrações relacionadas com a auditoria e o branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, envolvendo os pareceres dados às demonstrações financeiras da Yupido de 2015 e 2016.

A Yupido é a empresa misteriosa que tem o maior capital social do país, quase 29 mil milhões de euros, mas da qual não se conhece qualquer atividade. A empresa foi descoberta em 2017 por um professor universitário e o caso ganhou notoriedade nacional depois de uma notícia do ECO em setembro desse ano. A J. Rito & Associada, a sociedade do revisor oficial de contas José Rito, renunciou às funções de auditor da Yupido pouco depois.

Segundo a decisão de contraordenação da CMVM, conhecida esta quarta-feira, “a arguida não exigiu nem verificou a identidade dos representantes da entidade auditada” e não obteve informação sobre quem são os beneficiários efetivos da Yupido, nem qual é a estrutura de propriedade e de controlo da empresa.

A CMVM encontrou ainda falhas de documentação, incluindo o facto de José Rito não ter “nos seus papéis de trabalho solicitado uma declaração assinada pelo Conselho de Administração da entidade auditada, que faça menção a acontecimentos subsequentes ocorridos após a data de 31 de dezembro de 2015″.

A coima de 50 mil euros a José Rito é parcialmente suspensa, pelo que o revisor oficial de contas só terá de pagar, para já, metade deste montante — isto é, 25 mil euros. O ECO tentou contactar José Rito, mas não foi possível até ao momento.

A investigação da CMVM debruçou-se ainda sobre outro fator que levantou muitas dúvidas quando os holofotes incidiram neste caso — o facto de as demonstrações financeiras de 2016 da Yupido referirem que a empresa tinha mais de 243 milhões de euros inscritos como “caixa e depósitos bancários”, o que, depois, o ECO confirmou ser, na verdade, ativos intangíveis. A empresa teria apenas 35 mil euros em dinheiro.

Só mais tarde é que a Yupido realizaria um aumento de capital para quase 29 mil milhões de euros, sendo que o grosso destes montantes dizia respeito, novamente, a “ativos intangíveis”, certificados pelo revisor oficial de contas António Alves da Silva. Estes ativos eram, segundo este, uma “plataforma digital inovadora, de armazenamento, proteção, distribuição e divulgação de todo o tipo de conteúdo media” e “algoritmos”, noticiou o ECO em exclusivo.

A Yupido nunca divulgou publicamente que plataforma seria esta, nem tem, aparentemente, qualquer produto no mercado quase cinco anos depois. Um responsável da empresa, localizado nos EUA, em 2017, chegou a propor ao ECO mostrar a plataforma em funcionamento, com a condição de ser assinado um acordo de confidencialidade, o que acabou por não acontecer.

O Ministério Público também investigou a Yupido, mas em 2019 decidiu arquivar o caso, sem constituir arguidos. O processo chegou a ter três dossiês com centenas de páginas, incluindo correspondência e recortes de artigos de jornal. No final, a Yupido continuou a estar avaliada em 29 mil milhões de euros.

O último ato societário da Yupido data de 7 de outubro de 2021, representando a mudança de sede para um escritório nas Avenidas Novas, em Lisboa.

(Notícia atualizada pela última vez às 19h12)

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