Estas são as cidades onde o custo de vida é mais alto para expatriados. Lisboa cai 26 posições

Lisboa fica a meio da tabela (109.º) das cidades europeias mais caras, atrás de cidades como Madrid (90.º) ou Barcelona (78.º). A cidade europeia mais barata para expatriados é Sarajevo (209.º).

Hong Kong é a cidade mais cara para se viver a nível global e Zurique — seguida de Genebra, Basileia e Berna — lidera o “top 5” das metrópoles europeias mais caras para os trabalhadores expatriados. Lisboa surge na 109.ª posição, uma queda de 26 lugares face ao ano anterior, mas isso não significa que se tornou “mais barata”, num ano em que o aumento do trabalho remoto e flexível, a guerra na Ucrânia e a taxas de câmbio e inflação estão a pressionar os pacotes remuneratórios das companhias na luta pelo talento, alerta o estudo “Custo de Vida 2022”, lançado pela consultora Mercer.

Num ano, Lisboa caiu 26 posições no ranking das cidades mais caras para viver. Boas notícias para os trabalhadores expatriados? Nem por isso. “Uma descida de Lisboa no ranking não deve ser interpretada como a constatação que se tornou uma cidade mais ‘barata’ em termos absolutos, mas sim que, em comparação com outras cidades a nível global, Lisboa desceu 26 posições neste indicador de custo de vida”, explica Tiago Borges, business leader de career da Mercer Portugal, à Pessoas.

Lisboa recua no custo de vida: as razões

E o que explica este recuo de Lisboa? “O facto de a inflação ter atingido algumas geografias relevantes antes de Portugal até à data de realização do trabalho de campo do estudo (março de 2022), apesar de entretanto a inflação em Portugal/Lisboa ter-se nivelado com as altas taxas de inflação já verificadas em outras geografias (em maio a inflação em Portugal atingiu os 8% o valor mais elevado desde 1993). Por outro lado, as taxas de câmbio também têm impacto nesta análise relativa, e o Euro sofreu desvalorizações face a algumas moedas importantes (Dólar, Libra, Franco Suíço), o que afetou o custo de vida relativo face a cidades fora da Zona Euro)”, elenca o responsável da Mercer.

O estudo classifica o custo de vida de 227 cidades do mundo para expatriados a partir da análise dos custos comparativos de mais de 200 itens, como habitação, transporte, alimentação, vestuário, produtos domésticos e entretenimento, sendo concebido para ajudar multinacionais e governos a determinar estratégias de compensação para os seus expatriados.

Independentemente de o ranking ter mostrado este ano uma descida relativa de Lisboa, isto não significa que os salários das organizações não se encontrem sob pressão, que será cada vez mais evidente à medida em que exista um afastar da taxa de incrementos salariais e da inflação entretanto verificada.

Tiago Borges

Business leader de career da Mercer Portugal

E será que esta descida comparativa de Lisboa pode vir a ter impacto nos pacotes de remuneração oferecidos aos quadros que se instalem em Portugal? Terá a pressão salarial reduzido?

Tiago Borges afasta esse cenário. “Independentemente de o ranking ter mostrado este ano uma descida relativa de Lisboa, isto não significa que os salários das organizações não se encontrem sob pressão, que será cada vez mais evidente à medida em que exista um afastar da taxa de incrementos salariais e da inflação entretanto verificada”, diz.

Mais: “Olhando para uma tendência mais estrutural, os nossos estudos demonstram que alguns itens relevantes (energia, habitação) têm subido em Lisboa a uma taxa superior a outras geografias. Assim, é natural que as empresas tenham que continuar a efetuar um esforço de adaptação dos pacotes salariais a apresentar aos quadros que queiram instalar em Portugal, se quiserem continuar a ser competitivos e a ter poder de atração para os mesmos”, reforça.

Trabalho remoto e o repensar de prioridades

Depois da pandemia, que levou a um aumento do trabalho à distância, empresas e colaboradores enfrentam agora os efeitos da inflação e das taxas de câmbio que afetam diretamente o poder de compra de quem está a trabalhar fora do seu país de origem, levando à reconsideração de prioridades e até escolha de local de residência. Um contexto que poderá ter de levar as empresas a repensar as suas estratégias de mobilidade — e ganhando espaço na luta pelo talento — e de compensação.

“O aumento da inflação, embora afete o poder de compra dos pacotes de remunerações, acaba por ser um fenómeno global. Neste sentido, uma empresa deter um pacote de benefícios robusto, que possa responder às várias fases do ciclo de vida de um colaborador, acaba por constituir-se uma ferramenta fundamental de retenção dos colaboradores”, comenta Tiago Borges.

“Temas como os benefícios pós-reforma, as ofertas na área do bem-estar, o pilar da saúde, a própria flexibilidade vista como benefício, acabam por ser pedra angular de qualquer proposta de valor, particularmente se tiverem uma formatação flexível que permita que os colaboradores os adaptem da forma mais próxima possível às suas necessidades”, aponta o responsável da Mercer.

Custo de vida e a atração de talento e investimento

O custo de vida poderá ainda ter um papel relevante na atratividade de uma cidade como destino para os talentos se instalarem — num mundo cada vez mais global sob o impulso do trabalho remoto — e influenciar as decisões das organizações na hora de expandir a sua pegada geográfica.

Lisboa já está a sofrer impactos das dinâmicas trazidas pelos novos modelos de trabalho, e particularmente pela ascensão do trabalho remoto. Esse impacto manifesta-se através do cada vez maior interesse que Lisboa (e Portugal em geral) gera como alternativa de relocalização de quadros especializados nos mais diversos domínios, e nesse sentido, vemos um movimento de relocalização de quadros altamente qualificados de diversas geografias, algumas com uma preponderância mais recente (EUA, por exemplo).

Tiago Borges

Business leader de career da Mercer Portugal

De que modo Lisboa poderá tirar partido? “Lisboa já está a sofrer impactos das dinâmicas trazidas pelos novos modelos de trabalho, e particularmente pela ascensão do trabalho remoto. Esse impacto manifesta-se através do cada vez maior interesse que Lisboa (e Portugal em geral) gera como alternativa de relocalização de quadros especializados nos mais diversos domínios, e, nesse sentido, vemos um movimento de relocalização de quadros altamente qualificados de diversas geografias, algumas com uma preponderância mais recente (EUA, por exemplo)”, comenta Tiago Borges.

“Estes quadros beneficiam de efeitos positivos ao nível da qualidade de vida percecionada e de um custo de vida que, quando comparado com o que existe nas localizações de origem, é mais baixo. Nesse sentido, as empresas portuguesas e mesmo as internacionais que queiram investir em Portugal acabam por ser beneficiadas pela existência de um ecossistema de talento cada vez mais diversificado e multinacional“, destaca o responsável da consultora.

Mas essa capacidade de atração de Lisboa também tem outros efeitos, nem sempre tão positivos para os trabalhadores residentes. “Este movimento acaba por trazer pressão sobre os preços de alguns itens relevantes (como por exemplo habitação), que tendem a tornar-se cada vez mais desalinhados com a procura e poder de compra local, para estarem mais alinhados com o poder de compra global, o que coloca desafios significativos, em particular para as novas gerações”, alerta o responsável da Mercer.

E também para as empresas. “Outro fenómeno que ainda se verifica é a cada vez maior dificuldade das organizações portuguesas em reter talento em funções que podem ser exercidas remotamente, pois a oferta de emprego alargou-se e tornou-se global com a ascensão do trabalho remoto (fenómeno particularmente evidente em funções de índole tecnológico/digital)”, refere ainda Tiago Borges.

Na Europa, Zurique é a cidade mais cara para viver — segunda posição no ranking global depois de Hong-Kong — seguida de Genebra, Basileia e Berna, Copenhaga (11.º lugar no ranking global), Londres (15.º), Viena (21.º), Amesterdão (25.º), Oslo (27.º) com Munique (33.º) a fechar o “top 10” das cidades europeias mais caras para expatriados.

Lisboa fica agora a meio da tabela (109.º) das cidades europeias mais caras, atrás de cidades como Madrid (90.º) ou Barcelona (78.º). A cidade europeia mais barata é Sarajevo (209.º).

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