FMI revê em alta crescimento da economia mundial para 3% este ano
O FMI reviu em 0,2 pontos percentuais as previsões de crescimento do PIB global para este ano, mas avisa que esta bonança é frágil e que o terreno continua minado por tensões e muita incerteza.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou as suas previsões de crescimento global para 2025 e 2026, mas alerta para uma economia mundial que mantém uma “resiliência ténue no meio de uma incerteza persistente”, com as tarifas comerciais e as tensões geopolíticas a continuarem a pairar como as principais ameaças no horizonte.
Numa atualização do World Economic Outlook (WEO) divulgada esta terça-feira, os analistas do FMI reviram em 0,2 pontos percentuais as previsões de crescimento mundial para 3% este ano e 3,1% em 2026, valores que ficam ainda assim abaixo dos 3,3% registados em 2024 e da média histórica pré-pandémica de 3,7%.
A melhoria das perspetivas do Fundo face às previsões de abril deve-se, sobretudo, a um ambiente de tarifas mais baixas que o anteriormente antecipado, e condições financeiras de famílias e empresas mais sólidas. Entre as principais razões para a revisão em alta das previsões globais está as “taxas tarifárias efetivas americanas médias terem ficado mais baixas do que as anunciadas em abril”, com a taxa efetiva subjacente às projeções a situar-se nos 17,3%, comparativamente aos 24,4% previstos na previsão de referência de abril.
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Adicionalmente, verificou-se também “uma melhoria das condições financeiras, incluindo devido a um dólar americano mais fraco” de empresas e famílias, bem como uma “expansão fiscal em algumas jurisdições importantes”, destacam os analistas do FMI na nova edição do WEO. O documento refere ainda que “o front-loading mais forte do que esperado em antecipação de tarifas mais elevadas” contribuiu decisivamente para esta revisão.
O FMI, liderado por Kristalina Georgieva desde 2019, explica ainda que “com estas forças em vigor, a economia global continuou a manter-se estável, mas a composição da atividade aponta para distorções das tarifas, em vez de robustez subjacente”.
Zona Euro beneficia do “efeito Irlanda”
Uma das regiões do globo mais “beneficiadas” pela revisão em alta das previsões do FMI é a Zona Euro, com os analistas do Fundo a reverem em 0,2 pontos percentuais a previsão de crescimento do PIB para 1% em 2025, mantendo inalterada a previsão de crescimento de 1,2% para o próximo ano.
Contudo, a ‘boa notícia’ para a área do euro tem uma explicação muito específica. “Esta é uma revisão é largamente impulsionada pelo forte resultado do PIB na Irlanda no primeiro trimestre do ano, embora a Irlanda represente menos de 5% do PIB da Zona Euro”, esclarecem os analistas.
A nova edição do WEO detalha que “a revisão em alta para 2025 reflete um aumento historicamente grande nas exportações farmacêuticas irlandesas para os EUA resultante do front-loading e da abertura de novas instalações de produção. Sem a Irlanda, a revisão [para a Zona Euro] seria apenas de 0,1 pontos percentuais”. Esta situação ilustra como as distorções comerciais provocadas pelas tensões tarifárias estão a afetar de forma desigual as diferentes economias europeias.
Paradoxalmente, apesar de os EUA terem registado uma contração de 0,5% no primeiro trimestre, marcando inclusive pela primeira contração trimestral em três anos, o FMI reviu em alta o crescimento da economia norte-americana este ano e no próximo. Para este ano, o FMI antecipa um crescimento de 1,9% do PIB (mais 0,1 pontos percentuais que em abril), enquanto para 2026 prevê uma expansão de 2% (mais 0,3 pontos percentuais face às previsões de abril).
O FMI simula que “o crescimento global em 2025 seria aproximadamente 0,2 pontos percentuais mais baixo se o máximo das taxas tarifárias de 2 de abril e as taxas tarifárias nas cartas enviadas até 14 de julho fossem implementadas”.
Esta aparente contradição explica-se pelo facto de “o consumo ter aumentado apenas 0,5%, mas isto veio depois de um crescimento notavelmente rápido de 4% no quarto trimestre de 2024”, enquanto “as importações e o investimento empresarial dispararam – especialmente em equipamento de processamento de informação”, explicam os analistas no relatório.
Mas é a economia chinesa das que mais contribuiu para a revisão global das previsões do FMI, com os analistas a anteciparem agora um crescimento de 4,8% da economia do Meio, 0,8 pontos percentuais acima das previsões de abril. “O crescimento do PIB real da China (no primeiro trimestre), a uma taxa anualizada de 6%, excedeu as expectativas”, refere o documento.
Esta melhoria deveu-se principalmente às exportações, “apoiadas por um renminbi em depreciação que acompanha de perto o dólar e com a diminuição das vendas para os EUA mais do que compensada por vendas fortes para o resto do mundo”.
Inflação em trajetória descendente, mas com riscos divergentes
No plano da evolução dos preços, o FMI mantém uma trajetória descendente semelhante à projetada em abril, com os analistas a vaticinarem uma taxa inflação global em queda para 4,2% em 2025 e 3,6% em 2026. Porém, o panorama esconde “diferenças significativas entre países, com previsões que predizem que a inflação permanecerá acima da meta nos EUA e será mais moderada noutras grandes economias”.
O WEO alerta que “as novas tarifas comerciais, agindo como um choque de oferta, espera-se que se transmitam aos preços aos consumidores americanos gradualmente e atinjam a inflação na segunda metade de 2025”. Por outro lado, “noutros locais, as tarifas constituem um choque de procura negativo, baixando as pressões inflacionárias”.
Além disso, o FMI mantém um tom cauteloso sobre os riscos para a economia global, apesar da revisão em alta das previsões de crescimento. “Os riscos para as perspetivas inclinam-se para o lado negativo, como acontecia no WEO de abril de 2025”, alertam os analistas no documento.
Os analistas do FMI recomendam que “os países reduzam a incerteza induzida por políticas, promovendo estruturas comerciais claras e transparentes”.
Entre os principais riscos identificados está “um ressurgimento das taxas tarifárias efetivas [que] poderia levar a um crescimento mais fraco”. O FMI simula que “o crescimento global em 2025 seria aproximadamente 0,2 pontos percentuais mais baixo se o máximo das taxas tarifárias de 2 de abril e as taxas tarifárias nas cartas enviadas até 14 de julho fossem implementadas”.
Adicionalmente, “uma escalada das tensões geopolíticas, particularmente no Médio Oriente ou na Ucrânia, poderia introduzir novos choques de oferta negativos na economia global”, enquanto “vulnerabilidades fiscais poderiam tornar-se mais salientes, com implicações para os mercados financeiros e repercussões na economia real”.
Face a este cenário, o FMI recomenda que “os países reduzam a incerteza induzida por políticas, promovendo estruturas comerciais claras e transparentes”. O WEO sublinha que “a cooperação pragmática é fundamental nos casos em que algumas regras do sistema comercial internacional, na sua forma atual, podem não estar a funcionar como pretendido”, sublinham os analistas do Fundo.
Na política monetária, o FMI refere que os bancos centrais “devem calibrar cuidadosamente as políticas monetárias às circunstâncias específicas de cada país para manter a estabilidade de preços e financeira no meio de tensões comerciais prolongadas e tarifas em evolução”.
Os analistas do FMI concluem que só elevado “as perspetivas de crescimento a médio prazo” é que será possível “aliviar de forma sustentável os trade-offs macroeconómicos”, defendendo, por isso, reformas estruturais duradouras em áreas como mercados de trabalho, educação, regulamentação e concorrência, para impulsionar a produtividade e o crescimento potencial.
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