Fed volta a resistir a Trump e mantém taxas de juro intactas
Pela quinta reunião consecutiva, a Reserva Federal norte-americana manteve as Fed Funds inalteradas no intervalo 4,25%-4,50%, face uma forte pressão da Casa Branca e sinais de crescimento económico.
Num ambiente económico dominado pela incerteza e pela tensão entre poderes político e monetário, a Reserva Federal dos EUA (Fed) voltou a manter intactas as taxas diretoras do dólar no intervalo 4,25% e 4,5%, mas com a novidade de pela primeira vez em mais de 30 anos, ter-se registado mais do que um governador a votar contra a decisão do presidente da Fed.
A decisão, anunciada esta quarta-feira, era amplamente antecipada pelos mercados, e foi novamente adotada sob uma tempestade de pressões vindas do próprio presidente norte-americano, que há apenas seis dias protagonizou uma rara visita à sede da Fed para exigir cortes “drásticos” nas taxas de juro.
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A quinta “pausa” consecutiva das Fed Funds surge numa altura em que Trump intensifica o seu braço-de-ferro público contra Jerome Powell, presidente da Fed, utilizando todos os meios ao seu alcance – de conferências a publicações agressivas nas redes sociais – para pedir reduções rápidas e profundas do custo do dinheiro, sugerindo inclusive um corte até ao patamar de 1%, cenário este considerado desajustado à realidade do ciclo económico, já que a economia dos EUA, apesar de sinais de abrandamento estrutural, apresentou um crescimento anualizado de 3% no segundo trimestre e níveis baixos de desemprego.
A decisão desta quarta-feira fica marcada por um precedente histórico: pela primeira vez desde dezembro de 1993, dois governadores da Fed votaram contra a decisão do presidente do banco central. Os governadores Christopher Waller e Michelle Bowman – ambas nomeações de Trump durante o seu primeiro mandato – votaram a favor de um corte de 25 pontos base nas taxas de juro
Segundo o comunicado oficial da Fed, “votaram a favor da ação de política monetária Jerome H. Powell, presidente; John C. Williams, vice-presidente; Michael S. Barr; Susan M. Collins; Lisa D. Cook; Austan D. Goolsbee; Philip N. Jefferson; Alberto G. Musalem; e Jeffrey R. Schmid. Votaram contra esta ação Michelle W. Bowman e Christopher J. Waller, que preferiam baixar o intervalo-alvo para a taxa dos fundos federais em 25 pontos percentuais nesta reunião“.
- Christopher Waller, considerado um candidato à sucessão de Powell, tem argumentado publicamente que “o crescimento do emprego no setor privado está a aproximar-se da velocidade de paragem” e que “não devemos esperar que o mercado de trabalho se deteriore antes de baixarmos a taxa de política”.
- Michelle Bowman, que serve como vice-presidente para supervisão e também é vista como potencial substituta de Powell, quebrou um silêncio de 19 anos dos governadores sobre dissidências em setembro passado, opondo-se então a cortes mais profundos. Agora, mudou de posição, defendendo cortes preventivos para evitar maior deterioração do mercado laboral.
Contexto político e pressões externas
Na sua declaração, o Comité de Política Monetária da Fed (FOMC) reconhece que “embora as oscilações nas exportações líquidas continuem a afetar os dados, os indicadores recentes sugerem que o crescimento da atividade económica moderou na primeira metade do ano. A taxa de desemprego mantém-se baixa, e as condições do mercado de trabalho permanecem sólidas. A inflação permanece algo elevada”.
O FOMC reitera ainda que “procura alcançar o pleno emprego e inflação à taxa de 2% a longo prazo. A incerteza sobre as perspetivas económicas mantém-se elevada. O Comité está atento aos riscos de ambos os lados do seu duplo mandato”.
Para apoiar os seus objetivos, “o Comité decidiu manter o intervalo-alvo para a taxa dos fundos federais em 4,25% a 4,5%. Ao considerar a extensão e o momento de ajustes adicionais ao intervalo-alvo para a taxa dos fundos federais, o Comité avaliará cuidadosamente os dados recebidos, as perspetivas em evolução e o equilíbrio de riscos”.
A sustentar a ponderação da Fed estão os dados mais recentes do crescimento da economia norte-americana divulgados esta quarta-feira, dando nota de uma expansão de homóloga de 3% do PIB no segundo trimestre, superando as expectativas de 2,4%, mas refletindo principalmente uma diminuição das importações após o aumento das tarifas de Trump no primeiro trimestre.
A inflação, embora tenha diminuído relativamente aos picos anteriores, mantém-se acima do objetivo de 2% da Fed, com as tarifas a contribuírem para pressões inflacionistas adicionais. Esta realidade económica explica a divisão de opiniões no seio do FOMC.
A decisão da Fed de manter as taxas de juro inalteradas marca um momento histórico na governação do banco central, com Powell a ganhar tempo com uma postura de “esperar para ver”, combinando continuidade política com dissidência interna sem precedentes.
Com o mandato de Powell a terminar em maio do próximo ano e Trump já a ter indicado que não o reconduzirá, as dissidências de Waller e Bowman podem ser interpretadas como posicionamento político para a sucessão. Ambos são vistos como candidatos credíveis para liderar a Fed sob uma segunda administração Trump.
Além da decisão de manter inalteradas as Fed Funds, a Fed revelou também que manterá “a redução das suas participações em títulos do Tesouro e dívida de agências e títulos garantidos por hipotecas de agências” e “está fortemente empenhada em apoiar o pleno emprego e o regresso da inflação ao seu objetivo de 2%”, sinalizando uma continuidade na atual abordagem política, independentemente das pressões externas.
Esta decisão marca assim um momento histórico na governação da Fed, com Powell a ganhar tempo com uma postura de “esperar para ver”, combinando continuidade política com dissidência interna sem precedentes, num contexto de pressão política extraordinária que testa os limites da independência do banco central americano.
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