.IA

IA obriga a requalificação “inevitável” dos profissionais

A 3.ª Talk .IA centrou-se na requalificação de profissionais, com Ana Gama Marques (Meo) e Miguel Mira da Silva (IST/INOV) a debater os desafios da IA nas empresas e no ensino.

Requalificar profissionais em Portugal poderá tornar-se um desafio crescente para as empresas, sobretudo num momento em que a inteligência artificial (IA) está a disseminar-se a grande velocidade. Na 3.ª Talk .IA — conferência organizada pelo ECO no âmbito da Comunidade .IA — Ana Gama Marques, diretora de Pessoas e Organização do Meo, defendeu esta quarta-feira que as organizações precisam de assegurar um equilíbrio geracional nas suas equipas.

Intervindo no painel “O reskilling que as empresas (e os trabalhadores) precisam”, a responsável explicou que os trabalhadores mais jovens, “que não têm receio de experimentar coisas novas”, podem apoiar os mais velhos na exploração destas tecnologias, enquanto os profissionais séniores transmitem o conhecimento profundo da organização e do setor. “É esta combinação que faz funcionar as equipas”, sublinhou.

Ana Gama Marques explicou que a requalificação dos profissionais é inevitável e adiantou que, internamente, já existem projetos a avançar nesse sentido. A responsável sublinhou, contudo, que não há uma preferência interna entre colaboradores com soft skills ou hard skills. “É o equilíbrio dos dois. Só com os dois é que temos alguém completo. Não pode ser só um, nem pode ser só o outro”, afirmou.

No mesmo painel esteve Miguel Mira da Silva, professor catedrático do Instituto Superior Técnico (IST), que também defendeu a necessidade urgente de requalificar profissionais, apesar dos recursos disponíveis serem ainda muito limitados. “Precisamos de requalificar cerca de 300 mil pessoas por ano até 2030, quando as universidades colocaram este ano pouco mais de 30 mil alunos. Estamos a falar de um volume dez vezes superior ao número de novos estudantes que entraram no ensino superior em 2025”, alertou o professor do IST.

Ana Gama Marques, diretora de Pessoas e Organização do MEO

O académico explicou ainda que a IA “só serve se for bem utilizada”, algo que, na sua perspetiva, ainda não está a acontecer — nem entre profissionais, nem entre estudantes. “Existe um grande desconhecimento nas empresas sobre o uso de IA. Eu não vejo empresas a adotar IA”, afirmou.

Miguel Mira da Silva sublinhou ainda que as lacunas de competências digitais de base continuam a ser um obstáculo significativo: “O que acontece hoje em dia é que a maior parte das pessoas nem sequer sabe usar Excel. E os nossos alunos, por exemplo, não sabem usar o Word. Estamos nesse nível de desenvolvimento.” Segundo o professor, ainda falta um longo caminho até que os trabalhadores consigam tirar verdadeiro partido das novas tecnologias. “Daqui até termos pessoas capazes de usar estas ferramentas para aumentar a produtividade em 30% ou 50% vai uma distância enorme”, atirou.

A utilização de agentes de IA

Apesar de a adoção de IA ainda não ter grande expressão a nível empresarial, o MEO já trabalha com agentes de inteligência artificial, desenvolvendo também ferramentas internamente, numa lógica de poupança de recursos e otimização de processos. Ana Gama Marques explicou, durante o debate, que, na empresa, existem equipas dedicadas ao desenvolvimento destas soluções, que permitem automatizar tarefas antes realizadas por colaboradores.

“Eu tenho a sorte de trabalhar numa empresa com uma dimensão como o Meo e nós temos pessoas que desenvolvem agentes e temos casos concretos”, disse a responsável, referindo-se a ferramentas criadas para diferentes áreas, incluindo a Direção de Pessoas e Organização e a Direção Jurídica. Algumas destas soluções foram desenvolvidas em parceria com startups, enquanto outras são produzidas inteiramente internamente.

Os agentes podem fazer dez vezes mais coisas que o ChatGPT, mas ninguém sabe o que é um agente. Nem os informáticos, ninguém. Portanto, temos um nível zero de desenvolvimento, de maturidade digital, de literacia digital das pessoas.

Miguel Mira da Silva, professor catedrático do IST

Um exemplo citado por Ana Gama Marques foi a aplicação utilizada para assessoria laboral, contencioso laboral e apoio jurídico. A ferramenta foi testada e aprimorada em conjunto com uma startup, beneficiando do know-how da empresa e da capacidade inovadora da parceira. Segundo a responsável, a utilização desta tecnologia permite que, “numa equipa de quatro pessoas, o trabalho de uma pessoa seja feito por esta ferramenta [IA]”, aumentando significativamente a eficiência.

Miguel Mira da Silva, professor catedrático do Instituto Superior Técnico

Além disso, o MEO está a desenvolver internamente agentes para os call centers, com capacidade de atendimento e libertando os colaboradores para tarefas que exigem maior intervenção humana. “A capacidade de obter informação e de trabalhar a informação é gigante. Estas soluções permitem que possamos redistribuir esforços e focar pessoas em atividades de maior valor acrescentado”, concluiu Ana Gama Marques.

Por outro lado, Miguel Mira da Silva alertou para o enorme potencial ainda por explorar dos agentes de IA devido à falta de formação. “Os agentes podem fazer dez vezes mais coisas que o ChatGPT, mas ninguém sabe o que é um agente. E já existem. Dá para fazer coisas fantásticas, mas ninguém sabe usar aquilo. Nem os informáticos, ninguém. Portanto, temos um nível zero de desenvolvimento, de maturidade digital, de literacia digital das pessoas”, afirmou o professor do Instituto Superior Técnico.

O académico acrescentou que esta lacuna se estende também ao sistema educativo, que está desatualizado. “Na escola, só para não falar das universidades, os miúdos passam mais de vinte horas por semana numa sala de aulas, metade das quais a ouvir aulas expositivas, quando o ChatGPT explica a matéria mil vezes melhor que o professor e mil vezes mais barato”. Mira da Silva defende que é urgente repensar o ensino e adaptá-lo às novas tecnologias, de modo a preparar os alunos para um mundo cada vez mais dominado pela IA.

Veja aqui o debate do painel “O reskilling que as empresas (e os trabalhadores) precisam”:

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

IA obriga a requalificação “inevitável” dos profissionais

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião