BRANDS' ECO Reformar, construir e liderar: o desafio português para a próxima década
Simplificar o Estado, desbloquear investimentos e integrar estrategicamente a tecnologia foram algumas das ideias-chave que saíram da conferência A Engenharia e o Futuro, promovida pela PROFORUM.
O arranque da tarde de debate na conferência “A Engenharia e o Futuro”, promovida pela Proforum, foi da responsabilidade do ministro adjunto e da Reforma do Estado. Na sua intervenção, Gonçalo Matias defendeu uma visão ambiciosa para transformar a administração pública assente na simplificação dos processos e na reconstrução da confiança entre Estado, cidadãos e empresas.
“O Estado existe para servir os cidadãos e as empresas, e não o contrário”, afirmou o ministro, sublinhando a necessidade de abandonar a lógica de desconfiança que, na sua perspetiva, tem gerado “um monstro burocrático”. Para o governante é essencial passar de uma cultura de fiscalização prévia para uma de responsabilização posterior. “Aqueles que não cumprem devem ser punidos, mas não podemos partir do princípio de que todos vão falhar.”

Nesta estratégia, revelou o ministro, a digitalização é a ferramenta central na reforma do Estado. No entanto, alertou, “digitalizar o que é complexo é acrescentar uma camada de complexidade digital”. Por isso defende a reengenharia dos processos antes da sua transposição tecnológica. Exemplos concretos incluem a criação de um ponto único de submissão de pedidos e a carteira digital da empresa, com interoperabilidade europeia.
Gonçalo Matias também anunciou a reestruturação transversal dos ministérios e a aposta na transferência de conhecimento entre investigação e empresas. “Estamos a reformar o Estado enquanto apanhamos este comboio”, disse, referindo-se à competitividade europeia. “Isto é uma ambição enorme, verdadeiramente transformadora. Convido todos a contribuir, a debater e a divulgar”, desafiou.
Setor da construção vive entre a burocracia e o investimento
Num painel, moderado por Fernando Santo, ex-Bastonário da Ordem dos Engenheiros e ex-Secretário de Estado, que reuniu responsáveis da construção, da banca e da advocacia, discutiram-se os desafios estruturais e as oportunidades emergentes do setor. “É urgente reformular o modelo de investimento público. Precisamos de previsibilidade e execução mais célere para responder às necessidades do país”, atirou Carlos Mota Santos, CEO da Mota-Engil. A lentidão dos processos e a instabilidade regulatória são, na sua opinião, entraves ao crescimento.

João Pedro Oliveira e Costa, presidente do BPI, reforçou a importância da confiança para atrair capital. “O setor da construção precisa de estabilidade para garantir financiamento de longo prazo. Sem previsibilidade, o risco aumenta e o investimento retrai-se”.
Pedro Rebelo de Sousa, advogado, destacou o peso da burocracia. “A complexidade jurídica e os atrasos administrativos continuam a ser obstáculos à competitividade e à inovação”. Já Ricardo Pedrosa Gomes, presidente da AICCOPN (Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas), defendeu a valorização da engenharia nacional. “Temos conhecimento técnico e capacidade para liderar grandes projetos, mas falta reconhecimento institucional e visão estratégica”.
O debate convergiu na necessidade de uma maior articulação entre Estado e setor privado, com políticas públicas que promovam investimento, inovação e sustentabilidade. A construção, afirmaram, pode ser motor de desenvolvimento se houver coragem para desbloquear os nós que a travam.
Poder tecnológico com ética humana
Atualmente tema incontornável, a inteligência artificial (IA) deu mote ao segundo painel de debate da tarde, moderado por António Murta, Presidente da Pathena . Desafios, oportunidades e o impacto que esta tecnologia representa para empresas, profissionais e sociedade foram alvo de reflexão pelo painel constituído por Afonso Fuzeta Eça, administrador executivo do BPI, Ricardo Madeira, administrador da SIBS, Rogério Campos Henriques, CEO da Fidelidade, e Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal.
Afonso Fuzeta Eça destacou o papel da IA na industrialização de processos e na previsão de riscos e sublinhou ainda que a adoção da IA é uma “maratona”, exigindo tempo, adaptação e investimento humano.
Ricardo Madeira, por sua vez, enfatizou a importância da segurança nas transações financeiras e o papel da IA na prevenção de fraudes. “A necessidade de sermos mais rápidos e assertivos surge da urgência em credibilizar o sistema. A tecnologia tem de garantir que as ações financeiras são seguras.”

Noutra perspetiva, Rogério Campos Henriques abordou a dimensão ética e social da transformação digital. “Temos de pensar que género de sociedade queremos. Que trabalhos devem ser deixados à máquina e quais devem continuar a ser humanos?” Para o líder da Fidelidade, a IA não deve desumanizar, mas sim devolver valor à sociedade.
Já Sofia Tenreiro reforçou a importância da formação e da adaptação cultural. “Há uma mudança de paradigma tão rápida que exige investimento pessoal. As universidades estão a formar talentos, mas é preciso sensibilizar as organizações para acolherem essa mudança.”
Em jeito de conclusão, os oradores foram unânimes ao admitir que a IA é uma ferramenta poderosa, mas o seu sucesso depende da capacidade das organizações em integrar tecnologia, ética e talento humano de forma equilibrada e estratégica.
Engenharia estratégica no ciclo de investimento em curso
A missão de fechar a conferência “A Engenharia e o Futuro” coube a Miguel Pinto Luz. O Ministro das Infraestruturas e da Habitação apresentou um balanço ambicioso das políticas públicas do último ano, e sublinhou o papel estratégico da engenharia nacional no ciclo de investimento em curso.
Na área da habitação, por exemplo, destacou a entrega de quase 14 mil casas e o objetivo de ultrapassar as 30 mil até junho de 2026, com financiamento assegurado por “nove mil milhões de euros garantidos” através do Orçamento de Estado, da banca de investimento e do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência). “Estamos a concretizar a visão de aumentar o stock de habitação pública numa escala só comparável ao Plano Nacional de Promoção da Habitação”, afirmou.
O ministro sublinhou também o reforço dos apoios sociais, com “quase 400 milhões de euros investidos” em programas como o Porta 65 e o apoio solidário à renda. No plano fiscal, anunciou medidas para dinamizar o mercado, como a redução do IVA para 6% na construção, e a venda de imóveis abaixo de 648 mil euros, e a isenção de IRS para rendas 20% abaixo do valor de referência.

Nas infraestruturas, enumerou dezenas de obras rodoviárias e ferroviárias em curso, e destacou ainda o investimento portuário com “15 novas concessões” e o reforço da ferrovia com “200 comboios novos para a CP nos próximos 7 a 8 anos”.
Na área digital, anunciou a regulação da inteligência artificial pela ANACOM, investimentos em cabos submarinos e data centers. “Portugal está a tornar-se um hub tecnológico europeu, com energia barata, acesso à água e infraestruturas robustas”, concluiu.
Em jeito de resumo de um dia de trabalho, António Martins da Costa destacou o papel essencial da engenharia no desenvolvimento das sociedades, alertando para os desafios que se avizinham. “A engenharia é condição necessária para o progresso económico e para a criação de bem-estar no tecido social do país”, afirmou. O presidente da PROFORUM sublinhou a crescente tensão entre eficiência e eficácia, defendendo que “provavelmente o mundo se tornará menos eficiente, mas mais robusto”, numa alusão à necessidade de decisões mais humanas e sustentáveis.
António Martins da Costa abordou ainda a fratura da legitimidade provocada pelas desigualdades crescentes, a urgência de atrair talentos para a engenharia, e a importância de agilizar processos de licenciamento. “A inovação precisa de um tecido de infraestruturas e de escala”, concluiu, apelando à articulação entre academia, empresas e políticas públicas para enfrentar os desafios tecnológicos e sociais.
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