Indústria de componentes aplaude recuo de Bruxelas na combustão. Era uma “autopunição”

José Couto realça que as empresas de componentes seriam "altamente prejudicadas" pelo fim dos veículos a combustão com impacto nas exportações portuguesas, forçando "investimentos fortíssimos".

O recuo da Comissão Europeia no fim da produção de veículos a combustão a partir de 2035 deixou o setor automóvel aliviado. A indústria de componentes automóveis, responsável por cerca de 15% das vendas portuguesas de bens transacionáveis ao exterior, destaca que se esta exigência fosse em frente, teria impacto nas exportações portuguesas e as empresas do setor, que vendem para as fabricantes automóveis, seriam “fortemente prejudicadas”.

“Esta questão de só se produzir automóveis elétricos é uma autopunição da indústria e da Europa”, destaca José Couto. Para o presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, esta imposição colocava “problemas sérios” à indústria e à economia europeia, uma vez que não afetava apenas as construtoras automóveis, mas também as empresas de componentes e outras, que eram “fortemente prejudicadas” pelas exigências impostas por Bruxelas.

A UE recuou no objetivo de banir o fabrico de veículos com motor a combustão a partir de 2035. Se, até agora, se previa que a partir desse ano não fossem produzidos mais veículos a combustão na região, o Pacote Automóvel apresentado esta terça-feira pela Comissão Europeia vem suavizar esse objetivo, permitindo que uma fatia de carros deste tipo saia das fábricas europeias para lá deste horizonte. Ao mesmo tempo, Bruxelas tem 1,8 mil milhões para fomentar a indústria das baterias e cria incentivos aos elétricos.

No caso português, o líder da indústria de componentes para automóveis destaca que o fim da produção de carros a combustão marcava um “revés forte, porque os problemas no setor automóvel iriam baixar o volume de exportações de componentes”.

“Teríamos de ter investimentos fortíssimos” para compensar esta quebra, admite José Couto.

José Couto estima mais um ano de contração para o setor.

O líder da indústria de componentes automóveis, que estima fechar 2025 com mais um ano de contração, destaca que a decisão de Bruxelas é justificada por várias razões. Desde logo, o baixo consumo, uma vez que os elétricos apresentam uma quota de mercado de 16%, “abaixo das expectativas”.

Por outro lado, a indústria automóvel europeia não consegue produzir veículos com estas características a preços “competitivos como os concorrentes chineses”, o que iria levar à entrada de mais carros produzidos fora do espaço europeu.

Ao estabelecer um objetivo de redução de 90% das emissões no tubo de escape, sendo que os restantes 10% das emissões terão de ser compensados através da utilização de aço de baixo teor de carbono produzido na União, ou através de biocombustíveis, José Couto realça que isto vai impulsionar a utilização de materiais com pegada menor e levar a que a “indústria invista em tecnologia e mais investigação e desenvolvimento” para se tornarem mais competitivas perante a concorrência.

Em segundo lugar, o responsável, que representa um setor composto por 363 empresas responsáveis por cerca de 12% do VAB (valor acrescentado produto) da indústria transformadora portuguesa, destaca, pela positiva, “o apoio a vendas de veículos elétricos mais pequenos para incorporar tecnologias de componentes que tenham menor efeito ambiental“. Sobre os incentivos às baterias, José Couto nota que o pacote de incentivos vai contribuir “para que se produzam baterias no espaço europeu”.

O presidente da AFIA sublinha ainda a “boa vontade de [Bruxelas] em recuar num quadro burocrático” que o setor considera excessivo, elogiando ainda o apoio a empresas para adoção de frotas automóveis para elétricos ou veículos com emissão perto de zero. O pacote “satisfaz a procura de clientes europeus”, reforça o presidente da AFIA, destacando que o fim dos veículos a combustão teria “reflexos na indústria nacional”.

Rodrigo Ferreira da Silva, presidente da Associação Nacional do Ramo Automóvel (ARAN), que representa subsetores como concessionários, oficinas, peças, reparadores autorizados, reboques, fabrico e transformação de carroçarias e motociclos, concorda que o recuo de Bruxelas “é uma adaptação à realidade”, notando que “seria impossível” atingir os objetivos iniciais de deixar de produzir carros a combustão no prazo de 10 anos.

O responsável considera que as medidas apresentadas vêm “equilibrar a balança” entre o que são os investimentos [do setor] e a procura, notando que é “fundamental não perder o objetivo principal, que é a redução de CO2”. Para o presidente da ARAN, é importante prosseguir a transformação para renovar o parque automóvel em Portugal, que tem uma idade média próxima dos 14 anos, pedindo “incentivos certos” direcionados para os particulares.

“Os incentivos são dados às empresas e escassos nos particulares”, atira Rodrigo Ferreira da Silva, que defende um “programa robusto de abate de viaturas“. “É importante que o Governo dê um sinal de querer participar desta transformação”.

A Associação Automóvel de Portugal (ACAP) refere que a decisão de Bruxelas permite “o cumprimento de metas com uma maior flexibilidade”, apontando que “os construtores de automóveis, não podem correr o risco de pagar milhões de euros de penalização, por não atingirem as metas rigorosas definidas por Bruxelas”.

“Tal como era esperado, e a indústria automóvel vinha a exigir, a Comissão [Europeia] regressou ao princípio que defendemos logo em 2019, da designada neutralidade tecnológica”, remata a ACAP.

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