Semapa dispara 21%. Secil vendida por valor acima do esperado pelo mercado

A família Queiroz Pereira fecha o ano com um negócio de ouro, ao vender a sua cimenteira com um prémio acima da média do setor na Europa. O mercado aplaude e os acionistas esperam um dividendo extra.

A Semapa, liderada por Ricardo Pires, acaba de concretizar um dos negócios do ano em Portugal. A holding da família Queiroz Pereira anunciou esta sexta-feira a venda da totalidade do capital da Secil à espanhola Cementos Molins, numa operação que avalia a cimenteira portuguesa em 1,4 mil milhões de euros (Enterprise Value).

O valor surpreendeu o mercado pela positiva, ficando largamente acima das estimativas dos bancos de investimento e colocando a avaliação da Secil no topo dos múltiplos praticados na Europa nos últimos três anos em operações semelhantes.

A reação na bolsa de Lisboa foi imediata e eufórica. As ações da Semapa fecharam a subir 20,9% nos 20,55 euros, o valor mais elevado desde julho de 2018, após terem chegado a disparar mais de 31%. Os investidores estão a fazer contas à liquidez que vai entrar na holdingcerca de mil milhões de euros em “dinheiro vivo” (equity value), descontada a dívida da Secil – e a antecipar dividendos extraordinários ou novas aquisições.

Vemos este anúncio como positivo, uma vez que o valor do negócio fica cerca de 60% acima da nossa avaliação e implica um múltiplo de 7,5 vezes o EV/EBITDA de 2025 (contra a nossa estimativa de 4,5 vezes e cerca de 5-7 vezes para o grupo de pares).

Luís Colaço

Analista do JB Capital

O negócio foi fechado com um múltiplo implícito de 7,5 vezes o EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) estimado para 2025, apontam os analistas.

Este valor é um prémio acima do que tem sido a norma no “Velho Continente”. Enquanto nos EUA se viram negócios acima de 12 vezes o EBITDA (como a venda de ativos da CRH à Martin Marietta) nos últimos anos, na Europa o setor cimenteiro tem negociado a desconto.

O monitor de M&A do Sul da Europa (setembro 2025) da Dealsuite aponta para múltiplos médios de EV/EBITDA na região a rondar os 5,3, sendo que o setor de Construção & Engenharia negoceia frequentemente abaixo desse valor (cerca de 3,8 vezes).

Luís Colaço, analista do JB Capital que acompanha a Semapa, não poupa elogios à operação, sublinhando que o preço pago pelos espanhóis supera largamente as expectativas. “Vemos este anúncio como positivo, uma vez que o valor do negócio fica cerca de 60% acima da nossa avaliação e implica um múltiplo de 7,5 vezes o EV/EBITDA de 2025 (contra a nossa estimativa de 4,5 vezes e cerca de 5-7 vezes para o grupo de pares),” refere o analista numa nota enviada esta sexta-feira aos clientes a que o ECO teve acesso.

Para o banco de investimento, a venda da Secil não só cristaliza valor como obriga a uma reavaliação imediata da própria Semapa. “No geral, parece um excelente negócio,” resume Luís Colaço, que reviu o preço-alvo da Semapa em 16% para 32,4 euros – o que confere às ações um potencial de valorização adicional de 55% face à cotação atual.

A avaliação de 7,5 vezes o EBITDA compara favoravelmente com outras operações recentes na Europa como a compra da irlandesa Mannok pela turca Çimsa em agosto do ano passado por um enterprise value de 330 milhões de euros, numa transação concretizada a um múltiplo de 5,7 vezes o EV/EBITDA e 1,12 vezes o EV/Vendas. A Mannok opera principalmente em Irlanda e Reino Unido, com foco em cimento, betão e agregados, empregando cerca de 800 pessoas.

Além disso, os números do negócio comparam também favoravelmente com as avaliações de gigantes europeias como a Holcim ou a Heidelberg Materials, que negociam muitas vezes em bolsa abaixo das 6 vezes o EBITDA.

Do lado espanhol, a compra é vista como “transformacional”. Rafael Fernández de Heredia, analista da GVC Gaesco Valores, destaca num relatório publicado esta manhã que a operação permite à Molins “diversificar as suas receitas, aumentar o seu peso na Europa reduzindo a volatilidade cambial e entrar num mercado chave como o Brasil”.

O analista destaca que a Secil não opera apenas em Portugal – mercado nacional representa 76% do EBITDA da empresa nacional (que atingiu 140 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2025) – mas tem uma posição relevante no Brasil (18% do EBITDA) e operações na Tunísia, Angola e Líbano.

Para a Semapa, a venda da Secil representa um corte radical com o passado industrial ligado à construção, concentrando a holding ainda mais no negócio da pasta e papel (Navigator).

A análise de Rafael Fernández nota que, apesar do preço elevado, a operação faz sentido estratégico. “Estimamos que o EV/EBITDA de 2025 possa estar na vizinhança de 7 vezes pré-sinergias”, um rácio ligeiramente abaixo das contas da JB Capital, mas alinhado na leitura de que a Secil é uma “máquina” de gerar dinheiro, com uma capacidade de produção instalada de 10,2 milhões de toneladas de cimento, sublinhando que nos primeiros nove meses de 2025, o EBITDA da Secil cresceu 18% para 140 milhões de euros.

Para a Semapa, que detinha 100% da Secil, a venda representa um corte radical com o passado industrial ligado à construção, concentrando a holding ainda mais no negócio da pasta e papel (Navigator). Para a Semapa, as contas deste negócio são simples de fazer:

  • Encaixe financeiro: Com a Molins a avaliar a Secil em 1,4 mil milhões de euros, subtraindo a dívida líquida da Secil (332 milhões de euros em setembro de 2025) e interesses minoritários (cerca de 60 milhões), a Semapa deve receber um cheque a rondar os mil milhões de euros.
  • Balanço: A Semapa fechou 2024 com uma dívida líquida consolidada a rondar os 1,1 mil milhões de euros. Com este encaixe, a holding fica virtualmente sem dívida líquida, ganhando um poder de fogo financeiro inédito para investir ou remunerar os acionistas.

Numa altura em que o setor da construção na Europa enfrenta desafios de descarbonização exigentes – e caros –, a família Queiroz Pereira optou por vender em alta, passando a fatura dos investimentos verdes para o balanço dos espanhóis, enquanto encaixa o valor de uma vida. O mercado percebeu a jogada, colocando a Semapa a subir cerca de 21% na Euronext Lisboa, que se traduziu em cerca de 300 milhões de euros adicionais de capitalização bolsista, que atualmente negoceia com um valor de mercado próximo se 1,7 mil milhões de euros.

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