BCP, Sonae e construtoras foram as estrelas da bolsa em 2025. Exportadoras sofreram “efeito Trump”
Bolsa registou o melhor ano desde 2009, com metade das cotadas a subirem mais de 30%. BCP quase duplicou de valor, mas coube à Teixeira Duarte o melhor desempenho, com uns estonteantes 700%.
- A bolsa portuguesa teve um desempenho notável em 2025, com o BCP a liderar as valorizações, subindo 92,86%, e a Teixeira Duarte a surpreender com um aumento de 700%.
- O índice de referência valorizou 29,58% no ano, com apenas quatro das 16 cotadas a fecharem com perdas, destacando-se Sonae e Mota-Engil com subidas superiores a 70%.
- As empresas do setor da construção beneficiaram de grandes investimentos públicos, enquanto a Corticeira Amorim e as papeleiras enfrentaram desafios significativos devido a fatores externos e alterações nos hábitos de consumo.
2025 foi um ano positivo para a bolsa portuguesa. Mas, como sempre, há vencedores e perdedores. O BCP voltou a brilhar, a “retornada” Teixeira Duarte marcou uma escalada surpreendente de 700% e Sonae e Mota-Engil dispararam mais de 70%. Já as papeleiras e a Corticeira destacaram-se pela negativa.
Depois de ter encerrado 2024 com uma descida de apenas 0,3%, a praça portuguesa regressou em força aos ganhos, tendo valorizado 29,58% no acumulado do ano. Das 16 cotadas do índice de referência, apenas quatro fecharam o ano com sinal negativo e metade valorizou mais de 30%.
“Os principais vencedores foram o BCP, a Sonae e a Mota-Engil, qualquer uma delas com valorizações acima dos 50% em 2025“, realça Pedro Barata. O gestor de ações nacionais da GNB destaca ainda a Teixeira Duarte, “que obteve uma rentabilidade próxima dos 700%, o que lhe permitiu integrar o índice PSI na segunda metade deste ano”.
BCP dispara 92% para máximos de uma década
O BCP, que já no ano passado tinha liderado as subidas, escalou outros 92,86% em 2025, para negociar no valor mais alto em mais de uma década, nos 89,62 cêntimos. António Seladas, fundador da AS Independent Research, atribui o forte desempenho do único banco cotado na bolsa lisboeta ao “bom ambiente para a banca”. “Como um conhecido gestor bancário disse há umas semanas, a banca portuguesa deve estar a viver o melhor período em 30 anos“, acrescenta, em declarações ao ECO.
O analista nota ainda “o crescimento estável, desemprego em baixa e taxas de juro em níveis aceitáveis”. “Pedir mais é ‘crime'”, atira, notando ainda que o índice europeu de banca subiu cerca de 65%. “Acredito também que deverá ter havido alguma rotação de ações dos EUA para a Europa, muito intenso nos primeiros quatro a seis meses do ano, com contração da diferença do múltiplo EUA vs. Zona Euro e queda do dólar. Quando se compra Europa, forçosamente compra-se banca”, destaca.
João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, nota que “num ciclo de taxas que ainda permite gerar margens (mesmo com expectativas de descida), a banca foi observada como “cash-flow story” de curto prazo: margem financeira resiliente, normalização do risco e maior confiança na trajetória de capital“.
Sonae escala 76%
A Sonae é outra das vencedoras da bolsa portuguesa. Com ganhos de 76,37% em 2025, a empresa da família Azevedo registou o terceiro melhor desempenho do índice. A dona do Continente, que fechou os primeiros nove meses com lucros históricos de 200 milhões de euros, tem conquistado a confiança dos investidores e dos analistas, com o forte desempenho apresentado pelas várias unidades de negócio do grupo, com o retalho alimentar à cabeça.
“A Sonae beneficia do forte dinamismo da economia doméstica e particularmente no segmento alimentar, que reflete o bom ambiente no consumo interno, mas também o maior número de pessoas, resultado das políticas de imigração seguidas no passado”, refere António Seladas. O analista sublinha “o excelente desempenho da MC no segmento de distribuição alimentar que, sendo o líder de mercado, deverá ter continuado a ganhar quota de mercado em 2025, resultado da política agressiva de abertura de lojas, particularmente no segmento de proximidade, tendo sido, aparentemente, pouco afetada pelo novo concorrente Mercadona”.
A Sonae beneficia do forte dinamismo da economia doméstica e particularmente no segmento alimentar, que reflete o bom ambiente no consumo interno, mas também o maior número de pessoas.
Para João Queiroz, o forte desempenho bolsista reflete “a combinação de negócios defensivos, execução operacional e disciplina de capital, que tende a ser premiada quando o mercado procura previsibilidade — e, em Portugal, essa previsibilidade tem ‘prémio’ porque é escassa”.
Construção capitaliza grandes projetos
A atravessar um momento de grande crescimento, o setor da construção destacou-se com subidas expressivas. Depois de anos (quase) sem investimento, a chegada de grandes projetos e investimentos públicos em infraestruturas de grande envergadura em Portugal têm permitido às empresas do setor robustecer a sua carteira de encomendas e aumentar o seu valor de mercado.
Enquanto a Teixeira Duarte, que regressou ao índice PSI em setembro, disparou 705%, a Mota-Engil, que tem integrado projetos de grande envergadura, disparou 70%, apesar do ataque contínuo de fundos que apostam na queda das ações — são já cinco os hedge funds que têm posições negativas no capital da construtora portuguesa.
Apesar destas empresas liderarem o pódio das valorizações na bolsa de Lisboa em 2025, há outras cotadas que se destacam com ganhos expressivos. Semapa, CTT, REN e Ibersol fecharam com subidas superiores a 30%, enquanto as cotadas da família EDP recuperaram parte das descidas do ano passado, com avanços superiores a 20%.
Em sentido oposto, as exportadoras foram as empresas que mais sofreram, penalizadas pelas políticas de Donald Trump e pela quebra dos preços das matérias-primas.
Corticeira lidera descidas no ano
A Corticeira Amorim encabeçou a maior desvalorização do PSI, no ano que termina, com uma queda de 17,9%. A empresa liderada por Ricardo Rios Amorim tem sido pressionada pelo contexto global adverso, com impacto nos resultados e nas ações.
Na apresentação de resultados do terceiro trimestre, o presidente e CEO destacou precisamente um ano “mais desafiante do que inicialmente previsto” a nível global, a juntar à “transformação dos hábitos de consumo de álcool que impõe pressões acrescidas ao setor vitivinícola”. O quefez com que a atividade tenha sido “condicionada por este contexto de elevada incerteza e reduzida previsibilidade, com impacto nos níveis de consumo e levando os nossos clientes a adotarem políticas de compra mais prudentes”.
A Corticeira Amorim foi penalizada, não só pelo menor consumo de vinho, principalmente o vinho tinto, mas também pelas tarifas aduaneiras impostas pelos EUA à importação de vinho.
A empresa de cortiça foi “penalizada não só pelo menor consumo de vinho, principalmente o vinho tinto, mas também pelas tarifas aduaneiras impostas pelos EUA à importação de vinho“, considera Pedro Barata.
“É uma história mais relacionada com a procura industrial/consumo discricionário (vinho, construção/renovação, mix premium)”, justifica João Queiroz. Para o head of trading do Banco Carregosa, “quando a visibilidade de crescimento abranda — ou quando o mercado passa a exigir provas trimestrais mais claras — a ação perde estatuto de ‘porto seguro’ e reverte parte do prémio acumulado”.
Papeleiras castigadas pelos preços da pasta
Na lista dos piores desempenhos seguem-se as duas papeleiras. Altri e Navigator fecharam o ano com quedas de 15,6% e 12,5%, arrastadas pelas políticas de Trump e pela descida dos preços da pasta de papel.
Pedro Barata, gestor do GNB Portugal Ações, realça que o preço da pasta “foi sendo negociado a níveis historicamente baixos”, com impacto negativo nos preços das empresas do setor. “Mesmo cotadas eficientes sofrem se o investidor antecipa compressão de margens e/ou maior incerteza no ciclo de preços. Em 2025, o setor foi tratado mais como ‘commodity com ruído’ do que como ‘qualidade com desconto'”, acrescenta João Queiroz.
[No caso da Corticeira, Altri e Navigator], o denominador comum não é má gestão, é sobretudo sensibilidade ao ciclo e a variáveis externas.
“A Corticeira Amorim, Navigator e Altri, como exportadoras, sofreram muito com o dólar fraco, barreiras alfandegárias, alterações dos hábitos de consumo de álcool, no caso da Corticeira, e excesso de capacidade instalada de pasta na China (Altri e Navigator), fruto da queda de preços da madeira na China (crise na construção), o que reduziu os custos de produção de pasta na China e aumentou a oferta”, sintetiza António Seladas.
Para João Queiroz, no caso destas três empresas, “o denominador comum não é má gestão, é sobretudo sensibilidade ao ciclo e a variáveis externas“, resume.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
BCP, Sonae e construtoras foram as estrelas da bolsa em 2025. Exportadoras sofreram “efeito Trump”
{{ noCommentsLabel }}