ECO da Campanha. Mais uma morte às mãos do INEM coloca Governo debaixo de fogo

Mais uma morte às mãos do INEM voltou a pôr os holofotes sobre a ministra da Saúde. Ventura e Cotrim pediram a cabeça da governante. Marques Mendes acusou os candidatos de provocarem instabilidade.

Os motores da caravana arrancaram ao quarto dia da campanha ainda a ressacar do debate televisivo da noite anterior, o único que reuniu os 11 candidatos a Belém. Jorge Pinto que tinha admitido retirar a candidatura a favor de uma união à esquerda em torno de António José Seguro acabou por retratar-se e dizer que avança sozinho depois de não ter obtido respaldo junto de António Filipe e Catarina Martins.

“Não será por mim que António José Seguro não será Presidente da República”, assumiu Jorge Pinto, durante o debate. Mas esta quarta-feira, à entrada de uma reunião na Ordem dos Advogados, em Lisboa, já veio dar o dito pelo não dito: “Vou até ao fim e se ontem não fui suficientemente claro, se ontem não fui suficientemente bem interpretado, deixem-me sê-lo agora. Vou até ao fim e vou até ao fim porque Portugal precisa de quem, como eu, se comprometa a defender a Constituição num ano em que ela está a ser seriamente ameaçada”.

António José Seguro também reagiu: “Não cedo a pressão nenhuma e não negoceio nada”. O socialista avisou que é ele quem “decide o caminho e natureza” da sua candidatura.

Quanto a Jorge Pinto em concreto, que no debate na RTP disse que não seria por ele que António José Seguro não seria Presidente, o candidato diz que fica “feliz”. “Não devia ficar feliz com quem faz elogios à minha candidatura ou diz que devo ser o próximo Presidente? Claro que fico feliz”, declarou aos jornalistas durante um contacto com a população na Avenida da Igreja, em Lisboa.

Tema quente

Mais uma morte às mãos do INEM coloca o Governo debaixo de fogo

Mas foi mais uma morte às mãos do INEM que dominou o dia de campanha desta quarta-feira, com André Ventura e Cotrim Figueiredo a pedirem a cabeça da ministra da Saúde. Seguro disse que estava “irritado e indignado” e Gouveia e Melo preferiu atirar as culpas para o Governo, designadamente para o primeiro-ministro, Luís Montenegro.

“Casos destes deixam-me completamente irritado e indignado”, reagiu o candidato presidencial apoiado pelo PS após uma arruada em Alvalade. Em causa está a morte de um homem no Seixal, após ter chamado o INEM e não haver ambulâncias disponíveis. Para o socialista, este caso “só mostra a urgência de haver um compromisso sólido em torno da saúde”, ou seja, um pacto para a saúde.

O candidato presidencial António José Seguro durante o evento de campanha para as eleições presidenciais de 18 de janeiro Em Lisboa, Portugal, 7 de janeiro de 2026. JOSÉ COELHO/LUSAJOSÉ COELHO/LUSA

Mantendo o registo que tem tido até aqui, António José Seguro recusou tecer críticas diretas ao Governo ou à ministra da Saúde. “A minha preocupação é garantir que todos os portugueses tenham acesso à saúde a tempo e horas, outros preocupam-se a ver de quem é a culpa. Esta coisa do passa culpas também é um problema. Eu quero soluções”.

Para o candidato do Chega, a morte de um cidadão que esteve quase três horas à espera do INEM “é da responsabilidade do Governo” e “da ministra da Saúde”, e defendeu que “alguém tem de chamar o Governo à atenção e à fiscalização” da resposta aos problemas no SNS. “É inaceitável que uma pessoa morra em Portugal à espera de atendimento”, lamentou. “Se a ministra da Saúde é incompetente”, mudar de ministro “pode ajudar”, acrescentou.

“A ser verdade é uma negligência grave. Achar que 100 ambulâncias não são bastantes, não faria diferença nesta altura de necessidade, está nas fronteiras daquilo que eu considero a perda de condições políticas para exercer o cargo de ministro”. Foi assim que João Cotrim de Figueiredo reagiu à notícia que dá conta de que o Governo não reativou o plano extraordinário para garantir mais uma centena ambulâncias neste inverno, ao contrário do que aconteceu na época gripal do ano passado.

O candidato a Belém sublinhou que nunca foi lesto a “pedir cabeças”, considerando que cabe ao primeiro-ministro a composição dos Governos e a escolha dos ministro. “Mas casos como este já são excessivos que envolvem a ministra Ana Paula Martins e, a ser verdade, a recusa em renovar o plano extraordinário de 100 ambulâncias para esta época de infeções respiratórias generalizadas é suficientemente grave para ter uma posição diferente daquela que tive”, notou, após uma visita à Academia Cultural e Social de Maceira (Leiria).

Aliás, enquanto Presidente da República, garantiu, recomendaria “seriamente” a Luís Montenegro que “substituísse a ministra da Saúde”.

O candidato à Presidência da República, João Cotrim Figueiredo, visita a Academia Cultural e Social de Maceira, Leiria, 7 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em 18 de janeiro, numas eleições com recorde (11) de candidatos e cuja segunda volta, a realizar-se, decorrerá a 08 de fevereiro.
O candidato à Presidência da República, João Cotrim Figueiredo, visita a Academia Cultural e Social de Maceira, Leiria, 7 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em 18 de janeiro, numas eleições com recorde (11) de candidatos e cuja segunda volta, a realizar-se, decorrerá a 8 de fevereiro.PAULO CUNHA/LUSA

Henrique Gouveia e Melo preferiu responsabilizar todo o elenco governativo. De visita à Faculdade de Medicina e ao Hospital de São João, no Porto, com Rui Rio e Manuel Pizarro (de bata branca vestida) na comitiva, o candidato diagnosticou mais uma vez que o problema do SNS reside na falta de “gestão e organização”. E atirou: “O último responsável por todas as situações é o primeiro-ministro que escolhe os ministros”.

O candidato à Presidência da República, Henrique Gouveia e Melo acompanhado por Manuel Pizarro, numa visita à Faculdade de Medicina do Hospital de São João, no Porto, 07 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em 18 de janeiro, numas eleições com recorde (11) de candidatos e cuja segunda volta, a realizar-se, decorrerá a 08 de fevereiro.
O candidato à Presidência da República, Henrique Gouveia e Melo acompanhado por Manuel Pizarro, numa visita à Faculdade de Medicina do Hospital de São João, no Porto, 07 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em 18 de janeiro, numas eleições com recorde (11) de candidatos e cuja segunda volta, a realizar-se, decorrerá a 8 de fevereiro.JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Catarina Martins atribuiu responsabilidades a Marcelo Rebelo de Sousa pela crise na Saúde. “Este Governo não tem a mínima estratégia, e o Presidente da República não tem ajudado.”

“Sendo certo que não legisla nem governa, não pode deixar um Governo de rédea solta a cortar primeiro e a pensar depois na saúde. Precisa de exigir plano, proposta, que a Constituição seja cumprida na garantia de acesso à saúde de toda a população.”

O candidato à Presidência da República, Luís Marques Mendes (2-D), durante um almoço de campanha para as eleições presidenciais de 18 de janeiro, em Vendas Novas, 07 de janeiro de 2026.
O candidato à Presidência da República, Luís Marques Mendes (2-D), durante um almoço de campanha para as eleições presidenciais de 18 de janeiro, em Vendas Novas, 7 de janeiro de 2026.MIGUEL A. LOPES/LUSA

Já Marques Mendes preferiu não pronunciar-se, acusando os restantes candidatos de provocar “instabilidade”. “Lamento profundamente o que aconteceu. Mas não conheço as circunstâncias do caso, não me posso pronunciar”, disse o candidato apoiado por PSD e CDS.

“Se fosse comentador comentava. Estou aqui para ser Presidente e ajudar o Governo a governar o melhor possível. E há duas formas de ajudar: garantir a estabilidade e ser firme a exigir resultados”, afirmou, recusando que a falta de resultados do Governo na saúde prejudique a sua campanha. “Isto é campanha presidencial, não é para o Governo”.

Mas não deixou de fazer uma sugestão para melhorar a gestão do setor: “Que as regras aplicadas nas PPP possam ser aplicadas nos hospitais públicos, isso pode fazer a diferença”.

A figura

Duarte Cordeiro aparece para apoiar Seguro

O candidato às eleições presidenciais António José Seguro e Duarte Cordeiro, durante um encontro sobre "Ambiente, Sustentabilidade e Clima, no Palácio Baldaya, em Lisboa, 7 de janeiro de 2026
O candidato às eleições presidenciais António José Seguro e Duarte Cordeiro, durante um encontro sobre “Ambiente, Sustentabilidade e Clima, no Palácio Baldaya, em Lisboa, 7 de janeiro de 2026JOSÉ COELHO/LUSA

Depois da presença de Ana Catarina Mendes em Grândola na terça-feira, o candidato presidencial apoiado pelo PS contou esta quarta-feira com Duarte Cordeiro na sua campanha eleitoral. O ex-ministro do Ambiente e Ação Climática do Governo de António Costa considerou que António José Seguro tem conseguido “envolver” o PS e tem expectativa que a campanha vá “em crescendo”. “É o candidato com maior capacidade para equilibrar o sistema político nacional”, sublinhou.

Falando para os socialistas que estão ao lado de Henrique Gouveia e Melo, Duarte Cordeiro considerou que esse é um voto que é um “desperdício”.

“Não me parece que Gouveia e Melo preencha esse espaço [da esquerda] e pode nem passar à segunda volta”. Também os votos nos restantes candidatos à esquerda do PS, avançou o socialista, não terão o efeito de levar à segunda volta um candidato de esquerda capaz de quebrar o excesso de centralismo do PSD.

Para o socialista “aqui o tema é o do voto útil e da capacidade de concentração, em quem, eventualmente, representa um espaço de progressismo, um espaço de liberdade, um espaço de centro-esquerda e que possa não só passar à segunda volta, como ganhar as eleições”.

“Eu acho que o António José Seguro tem tido essa capacidade e eu espero que haja essa capacidade de todos aqueles que se reveem num espaço mais abrangente, de vê-lo como realmente o candidato que se tem apresentado como mais forte nestas eleições”, afirmou.

E o mesmo para os candidatos à esquerda de Seguro: “Acho que um voto político em Catarina Martins, Jorge Pinto ou António Filipe, neste contexto, acaba por contribuir para uma maior probabilidade de haver um Presidente da República no espaço político da direita, quando nos últimos 20 anos tivemos Presidentes da República com essa visão.”

A frase

"Um Estado que falha consistentemente é um Estado que deve merecer a atenção do poder político. Não podemos continuamente a falhar, falhar, falhar e acharmos que está tudo bem.”

Henrique Gouveia e Melo

Candidato presidencial

Prova dos 9

Jorge Pinto admitiu abdicar da candidatura para apoiar Seguro caso existisse uma convergência à esquerda. Terá o candidato apoiado pelo Livre falado previamente com Catarina Martins e com António Filipe?

No debate televisivo desta terça-feira à noite, o único que reuniu os 11 candidatos à Presidência da República, Jorge Pinto assumiu que poderia desistir em prol de Seguro, desde que houvesse uma concertação à esquerda. As palavras não colheram junto de António Filipe e Catarina Martins, que disseram nunca ter tido uma conversa nesse sentido com o candidato apoiado pelo Livre.

Por isso, esta quarta-feira, Jorge Pinto recuou e assegurou que a sua candidatura a Belém “vai até ao fim”, dada a falta de resposta da restante esquerda para um “pacto republicano” nestas eleições.

“Vou até ao fim e se ontem não fui suficientemente claro, se ontem não fui suficientemente bem interpretado, deixem-me sê-lo agora. Vou até ao fim e vou até ao fim porque Portugal precisa de quem, como eu, se comprometa a defender a Constituição num ano em que ela está a ser seriamente ameaçada”, disse Jorge Pinto aos jornalistas à entrada de uma reunião na Ordem dos Advogados, Lisboa.

Jorge Pinto garantiu que esta decisão é definitiva e que, no debate desta terça-feira entre todos os candidatos, repetiu apenas o apelo deixado no arranque da sua candidatura, quando “disse, com todo o sentimento de responsabilidade que o momento histórico exige”, que as esquerdas iam a tempo de “acertar um pacto republicano e fazer compromissos entre todos”.

“Ontem, quando eu referia essa proposta de dia 1 de novembro, foi novamente não respondida pelas outras candidaturas. E portanto, como eu disse desde então, não havendo essa resposta, é evidente que a minha candidatura vai até ao fim”, acrescentou.

Questionado se no final do debate houve uma conversa com Catarina Martins ou António Filipe, Jorge Pinto negou: “Desejámos todos boa noite, mutuamente, para que fossemos dormir descansados e para que recuperássemos bem para hoje estarmos na rua”.

E acrescentou ainda que não foi contactado por José António Seguro: “As únicas palavras que troquei com Seguro foram só nos debates. E [ontem] houve palavras de circunstância antes e depois do debate e à vista de todos”.

Conclusão: É verdade que Jorge Pinto não contactou previamente nem depois Catarina Martins e António Filipe como os três reconheceram. Sendo assim, e não existindo uma convergência à esquerda, Jorge Pinto voltou a assumir a sua candidatura, recuando na hipótese de desistir a favor de Seguro.

A candidata à Presidência da República, Catarina Martins com Pilar del Río, durante uma ação de campanha para as eleições presidenciais de 18 de janeiro, na Boutique da Cultura, em Lisboa, 7 de janeiro de 2026.
A candidata à Presidência da República, Catarina Martins com Pilar del Río, durante uma ação de campanha para as eleições presidenciais de 18 de janeiro, na Boutique da Cultura, em Lisboa, 7 de janeiro de 2026.RODRIGO ANTUNES/LUSA

Norte-Sul

Ao quinto dia de campanha, as caravanas vão andar de norte a sul do país. Marques Mendes arranca em Ferreira do Alentejo, em Beja, para uma visita à Santa Casa da Misericórdia de Ferreira do Alentejo e depois faz uma pausa para almoço na cantina do IPBeja. Da parte da tarde, vai andar pelo distrito de Santarém: primeiro visita a Função Padre Tobias, em Samora Correia, seguindo para Torres Novas para um jantar com apoiantes.

A caravana de Gouveia e Melo desperta no mercado de Mirandela, distrito de Bragança, seguindo depois para a Feira de Mirandela. De tarde, o candidato visita os Bombeiros Voluntários de Macedo de Cavaleiros e a Santa Casa da Misericórdia de Valpaços. E termina com um jantar com apoiantes em Fafe.

Mais a sul, António José Seguro começa por tomar o pequeno-almoço na Piriquita, em Sintra, rumando depois para Agualva-Cacém, também no concelho de Sintra. Almoça umas bifanas em Vendas Novas, tal como Marques Mendes fez esta quarta-feira, e segue para a Fundação Eugénio Almeida, em Évora. Finaliza o dia de campanha com um jantar em Portalegre.

O candidato apoiado pela IL, Cotrim Figueiredo, arranca o dia com uma visita a uma fábrica de velas, em Porto de Mós, e à associação Extragenária, em Vagos, e termina com um jantar de campanha em Vila Nova de Gaia.

De manhã, António Filipe estará em Peniche para um encontro com pescadores. Da parte da tarde, segue para Pedrógão Grande, onde vai visitar os Bombeiros Voluntários do concelho. Termina o dia de campanha em Lisboa com um encontro com mulheres subordinado ao tema “Cumprir a Constituição. Pela igualdade e a emancipação das mulheres”.

Catarina Martins vai passar o dia na Moita. Primeiro visita os Bombeiros Voluntários do concelho e depois tem uma sessão pública no Clube União Banheirense “O Chinquilho”.

Jorge Pinto arranca em Lisboa com uma visita ao Espaço Caleidoscópio e depois parte para norte, mais concretamente para Barcelos e termina a ação de campanha com um jantar comício em Guimarães.

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