Inteligência Artificial pode abrandar contratações e gerar “corrida” à formação em 2026
Inteligência Artificial deverá voltar a ser tema forte no mercado de trabalho em 2026. Especialistas não projetam perda líquida de emprego, mas admitem abrandamento das contratações.
Se as previsões se confirmarem, 2026 não ficará marcado por despedimentos em massa por causa da Inteligência Artificial (IA). Mas deverá haver uma transformação das funções por efeito dessa tecnologia e um abrandamento das contratações, projetam os especialistas. E para tirar partido do potencial dessas novas ferramentas, deverá haver também um reforço da aposta na formação dos profissionais.

“Penso que não haverá despedimentos, mas pode haver uma desaceleração das contratações em determinadas profissões”, aponta o professor e economista Pedro Martins, em declarações ao ECO.
“Pelo menos por enquanto, o ajustamento do nível do emprego será feito ao nível das contratações (menos contratações), e não das separações“, detalha o também ex-secretário de Estado do Emprego, que identifica ainda a “recomposição das tarefas desempenhadas em cada profissão” como uma possível tendência para este ano.
Na mesma linha, Mariana Delgado, líder da Qibit Portugal (marca especializada em recrutamento tecnológico da consultora de recursos humanos Gi Group Holding), garante que, apesar da automação e da expansão da IA, não antecipa despedimentos massivos este ano como consequência direta da tecnologia.
E confirma que, em contrapartida, deverá haver uma “reengenharia de funções, com algumas funções repetitivas a serem automatizadas, enquanto novas posições surgem, sobretudo em áreas de segurança, cloud, dados e desenvolvimento de IA“.
Apesar da automação e da expansão da IA, não antecipamos despedimentos massivos em 2026 como consequência direta da tecnologia. O que se observa é uma reengenharia de funções.
“O desafio real será atrair, reter e desenvolver talento qualificado, para que as empresas possam explorar plenamente as oportunidades que a tecnologia oferece sem comprometer a performance ou a motivação das equipas”, declara a responsável.
No mesmo tom otimista, Carlos Jerónimo e Nuno Loureiro, partners da PwC, admitem que a IA pode levar à automação de algumas tarefas, causando uma reestruturação em certos setores, mas realçam que esta tecnologia pode também trazer oportunidades, “como a criação de novos empregos e a possibilidade de focar em tarefas mais criativas e estratégicas”.
“Ou seja, a tecnologia não significa necessariamente perda líquida de empregos, mas transformação dos mesmos”, frisam os especialistas.
“Em 2026, é provável que vejamos algum grau de reestruturação, com setores mais automatizados a precisar de menos mão de obra para atividades repetitivas, mas, ao mesmo tempo, uma maior procura por competências ligadas à tecnologia, inovação e gestão da mudança“, assinalam os partners da PwC.
A propósito, importa referir um estudo recente da McKinsey & Company, que revelou que a maioria dos profissionais prevê que este ano a IA terá pouco ou nenhum impacto no tamanho das equipas que integram.

Ainda assim, 32% dos inquiridos apontam para uma redução de, pelo menos, 3% do pessoal, sendo que essa visão mais frequente entre os trabalhadores ao serviço de grandes organizações.
Por outro lado, 13% dos profissionais ouvidos acreditam que a força de trabalho aumentará, pelo menos, 3% em 2026 por efeito da IA, confirmando a expectativa dos especialistas mencionados de que, apesar dos riscos, a tecnologia poderá também criar empregos em 2026.
Novas funções, novas competências?

Se este ano traz uma transformação das funções e dos empregos, o que acontecerá às qualificações e competências dos trabalhadores? Os especialistas ouvidos pelo ECO antecipam que 2026 será sinónimo de um reforço da aposta na formação desses profissionais.
João Cerejeira, professor da Universidade do Minho, por exemplo, explica que a procura por este tipo de formação vai aumentar de forma transversal, sendo que 2026 “vai ser um ano de descoberta de aplicações de IA a problemas e tarefas concretos nas organizações”.
O professor Pedro Martins corrobora-o. “Prevejo um aumento de formação sobre esta tecnologia e sobre como utilizá-la em cada profissão e em cada setor de atividade“, declara.
No mesmo sentido, Inês Vaz Pereira, partner da Deloitte, prevê que em 2026 “a formação em IA será significativamente reforçada, tornando-se uma prioridade estratégica”. “As empresas irão investir mais em programas de capacitação e desenvolvimento de competências em IA, promovendo uma cultura de aprendizagem contínua”, realça a especialista, que diz acreditar também que “será essencial integrar a formação em IA nos currículos académicos, preparando as futuras gerações de profissionais e garantindo que estejam equipados com as competências necessárias”.
“A importância de desenvolver competências práticas em IA não só reduzirá a sobrecarga de trabalho, como também permitirá que as organizações aproveitem ao máximo o potencial destas tecnologias, melhorando a eficiência, inovação e competitividade“, observa Inês Vaz Pereira.
Também André Pires, COO da consultora de recursos humanos Clan, sublinha que “a formação em inteligência artificial é, claramente, uma das áreas onde as empresas devem investir de forma prioritária“.
“Não apenas para capacitar os profissionais na utilização prática da IA nas suas funções atuais, mas, também, para desenvolver novas capacidades dentro das organizações, permitindo que as pessoas reinventem processos e postos de trabalho com maior foco na eficiência e na produtividade”, explica o responsável.
Para os profissionais, investir no desenvolvimento destas competências será determinante para manter a relevância no mercado de trabalho.
André Pires deixa, porém, um recado: a formação não deverá ser uma prioridade somente empresarial, mas também individual. “Para os profissionais, investir no desenvolvimento destas competências será determinante para manter a relevância no mercado de trabalho“, avisa.
De resto, este reforço da formação é especialmente relevante, uma vez que os especialistas estão confiantes que este ano será marcado por uma adesão maior das organizações às ferramentas de IA.
Assim, os referidos partners da PwC reconhecem que a Inteligência Artificial tem sido adotada a velocidades diferentes pelas empresas nacionais, mas revelam que sentem que as organizações estão “cada vez mais confiantes nas potencialidades da tecnologia e mais cientes da necessidade de literacia e formação“. “Até por imposição do Regulamento sobre Inteligência Artificial (“AI Act”), que a tal obriga desde agosto deste ano”, comentam.
“Por isso, estamos otimistas quanto a uma aceleração da adoção material em 2026, não só nas grandes empresas, mas crescentemente também no universo das PME, algumas impulsionadas pelos programas de financiamento público: alguns já em curso como a ‘Linha IA para PME’, outros que virão na sequência da nova Agenda Nacional de Inteligência Artificial”, salientam.
E o teletrabalho?

A pandemia terminou há muito, mas o trabalho à distância já provou que veio para ficar, pelo menos, nalguns setores, em certas funções e em determinadas geografias.
Por exemplo, do outro lado do oceano, nos Estados Unidos, várias empresas grandes (nomeadamente, do setor tecnológico) exigiram aos trabalhadores que regressassem ao modelo 100% presencial.
Em contraste, em Portugal o regresso ao escritório não se tem verificado de forma expressiva, descreve o professor João Cerejeira, que observa que o trabalho híbrido já está mesmo estabelecido para os trabalhadores mais jovens.
“Dificuldades de transporte e preços da habitação incentivam as empresas a aceitarem estas modalidades de trabalho, passando a fazer parte do pack habitual de benefícios”, destaca o economista.
Embora o regresso total ao escritório seja pouco provável, o modelo híbrido — que combina trabalho remoto e presencial — tende a consolidar-se cada vez mais em 2026.
A evolução tecnológica deverá consolidar esse cenário este ano, indicam Carlos Jerónimo e Nuno Loureiro, da PwC. “Embora o regresso total ao escritório seja pouco provável, o modelo híbrido — que combina trabalho remoto e presencial — tende a consolidar-se cada vez mais em 2026“, enfatizam os partners, que avisam que as empresas que adotarem modelos flexíveis têm maior capacidade para atrair e reter talento, especialmente entre as gerações mais jovens.
“A tecnologia não só torna possível este novo modelo de trabalho, como também melhora as formas de comunicação e colaboração, fator essencial para o sucesso das equipas distribuídas“, acrescentam os mesmos especialistas.
Também Mariana Delgado, da Qibit, partilha de uma visão semelhante, adiantando que os modelos de trabalho flexíveis, especialmente híbrido, vão consolidar-se ainda mais em 2026.
“O teletrabalho deixou de ser apenas uma resposta pontual à pandemia e passou a ser um fator estratégico permanente na gestão de talento e na organização do trabalho“, sublinha a responsável, que dá conta, em jeito de remate, que a possibilidade de exercer as funções à distância já é o segundo fator mais valorizado (atrás apenas do salário) na escolha de um emprego.
Já da parte da Deloitte, Inês Vaz Pereira defende que as configurações híbridos do trabalho são as que proporcionam um “equilíbrio ideal”. “O contacto presencial facilita a aprendizagem e o desenvolvimento de competências, fomenta a colaboração, a construção de relações interpessoais e a dinâmica de equipa que, por vezes, é mais desafiante de alcançar remotamente. As empresas que conseguirem adaptar-se a estas novas realidades e aproveitar as potencialidades da tecnologia serão, certamente, as mais bem-sucedidas“, remata a partner.
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