British American Tobacco quer tornar-se uma empresa “sem fumo” até 2035

  • ECO
  • 15 Janeiro 2026

Em 2024, os produtos sem combustão geraram 3,4 mil milhões de libras (aproximadamente 3,8 mil milhões de euros), o que representa 18% da receita global.

A British American Tobacco (BAT), multinacional centenária fundada em 1902, está a acelerar a sua transformação para se tornar uma empresa predominantemente “sem fumo” até 2035. O objetivo é que metade da receita provenha de produtos sem combustão, como vaporizadores, tabaco aquecido e bolsas de nicotina, e que 50 milhões de consumidores migrem para estas alternativas até 2030. Em 2024, estes produtos já geraram 3,4 mil milhões de libras (aproximadamente 3,8 mil milhões de euros), o que representa 18% da receita global, e em 2025 a empresa contabilizava já 30,5 milhões de consumidores destas categorias.

A estratégia é sustentada por um forte investimento em investigação e desenvolvimento (I&D), com destaque para o novo Innovation Campus em Southampton, inaugurado em 2024 com um investimento de 30 milhões de libras (cerca de 34,3 milhões de euros). O centro conta com 400 cientistas e engenheiros especializados em biotecnologia, toxicologia, química e comportamento do consumidor, e integra uma rede global de 1.750 especialistas que já produziram mais de 265 estudos científicos e 8.000 patentes desde 2012.

Danielle Tower, responsável pela área de Governance na BAT, no Reino Unido, sublinhou que esta transformação só é possível com rigor científico e responsabilidade regulatória. “Na BAT, estamos absolutamente comprometidos em garantir que todos os nossos produtos são desenvolvidos e fabricados de forma responsável, e em usar a ciência para proteger os consumidores e permitir inovação sem combustão”. A responsável destacou ainda que a empresa dispõe de especialistas mundiais em toxicologia e em dispositivos e segurança eletrónica, que asseguram milhares de horas de testes antes de qualquer lançamento. O acompanhamento pós-venda e o feedback dos consumidores são igualmente fundamentais. “Estamos a construir uma capacidade de vigilância dos produtos robusta, o que nos permite obter evidências diretamente do mundo real”, disse Danielle Tower.

James Murphy complementou as declarações da responsável de Governance, lembrando a missão atual da empresa. “Queremos criar um amanhã melhor e contribuir para a construção de um mundo sem fumo”. Isso significa, acrescenta o diretor de Investigação e Ciência no Centro de Inovação da BAT em Southampton, que “os fumadores, que de outra forma continuariam a fumar, migram de cigarros tradicionais para produtos sem combustão, com impacto substancialmente reduzido na saúde pública”. Um exemplo deste compromisso é o global Omni™ project, uma plataforma da BAT que reúne informação sobre a redução de danos do tabaco, destinada a cientistas, autoridades de saúde pública, reguladores, legisladores e investidores.

O investigador recordou que múltiplos estudos clínicos já demonstram que a exposição a toxinas com as bolsas de nicotina é similar à cessação total, o que reforça a confiança sobre o perfil de menor risco. O responsável alertou, contudo, para a necessidade de corrigir perceções erradas. “O tabaco e a nicotina não são a mesma coisa. A nicotina não é o causador das doenças ligadas ao tabaco. Precisamos de regimes regulatórios proporcionais ao risco, como vimos na Suécia”.

De facto, a credibilidade da indústria continua a ser um dos maiores obstáculos: 70% dos especialistas em políticas públicas ainda associam diretamente a nicotina às doenças relacionadas com o tabaco. Na opinião de James Murphy, a transição para um mundo “sem fumo” não é apenas uma estratégia empresarial, é também uma oportunidade de redefinir o equilíbrio entre saúde pública, fiscalidade e competitividade global. Se os objetivos forem alcançados, aponta, a indústria poderá deixar de ser vista apenas como parte do problema e assumir um papel ativo na solução. “Imagine um mundo em que os fumadores mudaram completamente para produtos sem combustão. O impacto na saúde pública seria extraordinário, e já estamos a ver os primeiros sinais disso em países pioneiros”.

A nível global, o mercado de produtos sem combustão está em expansão, com forte adesão na Noruega e Suécia, e sinais positivos no Reino Unido e na Nova Zelândia. Contudo, a contrafação de dispositivos de vaping e de bolsas de nicotina representa um risco para os consumidores e para a credibilidade das marcas, e é outro dos grandes desafios desta mudança de paradigma.

Do ponto de vista económico, a transformação da indústria tem igualmente um impacto relevante. No Reino Unido, por exemplo, a BAT contribui com 300 milhões de libras (cerca de 340 milhões de euros) para o Produto Interno Bruto (PIB) e com 7.100 empregos.

Portugal é atualmente um mercado estratégico para a BAT na Europa Ocidental. A empresa abriu recentemente um escritório na região de Lisboa e tem planos ambiciosos para o país. Entre as metas está a consciencialização do público sobre as alternativas sem combustão, assegurando o acesso responsável a estes produtos, e “mantendo um diálogo aberto e construtivo com os legisladores”.

Indústria em profunda transformação

A redução no número de fumadores a nível global, com consequente impacto na saúde pública, é a meta das múltiplas iniciativas encabeçadas quer pela indústria da nicotina, quer por Governos. Os resultados já são visíveis em alguns países, mas o tema continua a gerar divergência de opiniões. Ainda assim, vários estudos apontam para os benefícios da transição para produtos sem combustão, uma vez que defendem evidências de que a toxicidade do tabaco está relacionada com a queima e não com a nicotina.

Uma dessas pesquisas – o Lives Saved Report -, dirigida por Derek Yach e Delon Human, da BAT, e divulgado no passado mês de outubro pelo Global Institute for Novel Nicotine (GINN), que integra stakeholders da indústria, académicos e regulatórios, conclui que, se a adoção de produtos sem combustão for ampliada globalmente, poderão ser salvas até 100 milhões de vidas até 2060.

O estudo estima reduções expressivas em países com elevada prevalência de fumadores, como a Indonésia, o Japão e o Brasil, e aponta para benefícios evidentes em saúde pública, embora também destaque desafios como as resistências regulatórias e perceções erradas sobre o papel da nicotina.

Não apenas neste estudo, mas em conferências e outras iniciativas a nível mundial, a experiência sueca é frequentemente citada como modelo e caso de sucesso. Com a popularidade dos snus (tabaco em pó e humedecido para absorção oral) e das bolsas de nicotina, a prevalência de fumadores caiu para 5,3% em 2024, acompanhada por taxas de mortalidade por cancro do pulmão significativamente inferiores às de países vizinhos. Estes dados reforçam a tese de que a substituição de cigarros combustíveis por alternativas sem combustão pode ter impacto na redução da morbilidade e mortalidade associadas ao tabaco.

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