FMI revê crescimento mundial em alta para 3,3% em 2026 à boleia dos EUA e China

A recuperação da economia mundial projetada pelo FMI este ano vem acompanhada de um recuo da inflação para 3,8% e de uma desaceleração profunda do comércio.

ECO Fast
  • O FMI reviu em 0,2 pontos percentuais as previsões de crescimento da economia mundial para 2026, agora estimando uma expansão de 3,3%.
  • A economia dos EUA é destacada como o principal motor do crescimento, com uma previsão de 2,4% para 2026.
  • O otimismo que o FMI projeta para a economia mundial em 2026 assenta em pilares sólidos, mas desigualmente distribuídos.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em alta as projeções de crescimento da economia mundial para 2026, numa atualização do World Economic Outlook (WEO) publicada esta segunda-feira e que carrega o título “Economia mundial: “estável perante forças divergentes”.

O FMI, liderado por Kristalina Georgieva, aponta agora para um crescimento global de 3,3% em 2026 e 3,2% em 2027, face aos 3,3% estimados para 2025. A revisão para 2026 representa um aumento de 0,2 pontos percentuais face às previsões de outubro, com os EUA e a China a explicar a maioria desta alteração.

“A previsão representa uma pequena revisão em alta para 2026 e nenhuma alteração para 2027 em comparação com outubro de 2025”, destaca o FMI no WEO de janeiro, sublinhando que o nível de crescimento para 2026 e 2027 fica ainda abaixo da média histórica de 3,7% registada entre 2000 e 2019.

  • A economia norte-americana destaca-se como o principal motor da revisão em alta do PIB para este ano. O FMI projeta agora que a economia dos EUA cresça 2,4% em 2026, mais 0,3 pontos percentuais do que estimava em outubro, apoiada pela política orçamental e por uma taxa de juro de política monetária mais baixa, enquanto o impacto das barreiras comerciais mais elevadas diminui gradualmente, destacam os analistas do FMI. Em 2027, o crescimento do PIB dos EUA deverá abrandar para os 2%, menos 0,1 pontos percentuais face às estimativas de outubro.
  • A China surge como o segundo grande contributo para a melhoria das projeções globais. O FMI reviu em alta o crescimento esperado para a segunda maior economia mundial, projetando uma expansão de 4,5% para este ano, face aos 4,2% estimados em outubro, “refletindo as taxas alfandegárias efetivas mais baixas dos EUA sobre produtos chineses como resultado da trégua comercial de um ano acordada em novembro e medidas de estímulo que se assume serem implementadas ao longo de dois anos”, referem os analistas do FMI. Em 2027, a taxa de crescimento deverá desacelerar para 4%, menos 0,2 pontos percentuais face às estimativas de outubro.
  • Também em desaceleração, mas ainda em crescimento significativo, continuará a estar a Índia, que deverá passar de um crescimento de 7,3% em 2025 para 6,4% em 2026 e 2027.

O panorama é menos otimista para a área do euro. O FMI atribui uma previsão de crescimento de 1,3% para a Zona Euro este ano, 0,1 pontos percentuais acima das estimativas de outubro, e de 1,4% em 2027 — a mesma previsão feita há três meses.

“O crescimento ligeiramente mais rápido em 2027 reflete aumentos projetados na despesa pública, nomeadamente na Alemanha, juntamente com o desempenho continuamente forte da Irlanda e de Espanha”, lê-se no documento do FMI, que não apresenta previsões para a economia portuguesa.

A Alemanha deverá crescer 1,1% em 2026 e 1,5% em 2027, após 0,2% em 2025 e uma contração de 0,5% em 2024. Para França, os analistas do FMI preveem um crescimento de 1% em 2026 e 1,2% em 2027, enquanto o PIB de Espanha deverá registar uma expansão de 2,3% em 2026 e 1,9% em 2027.

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Comércio desacelera e inflação volta a abrandar

As projeções do FMI apontam ainda para uma forte desaceleração do volume do comércio mundial, que deverá passar de um crescimento de 4,1% em 2025 para 2,6% em 2026, antes de recuperar para 3,1% em 2027.

“Estas dinâmicas refletem padrões de antecipação de compras e ajustamentos dos fluxos comerciais às novas políticas”, explicam os analistas no relatório, que há três meses antecipam que o comércio de bens e serviços cresceria 2,3% este ano.

“A médio prazo, espera-se que os pacotes orçamentais expansionistas nas economias com excedentes na balança corrente contribuam para a redução dos desequilíbrios globais”, refere o FMI, sublinhando que “a contrariar esta força está o aumento do investimento empresarial impulsionado pela tecnologia, que se espera que continue a atrair fluxos de capital para os EUA, mesmo que de forma mais moderada.”

Na Zona Euro, a inflação geral está projetada para pairar em torno de 2%, com a inflação subjacente projetada a declinar para esse nível em 2027.

Fundo Monetário Internacional

Wordl Economic Outlook de janeiro

Também em movimento descendente deverá continuar a caminhar a taxa de inflação global que, segundo as novas projeções dos analistas do Fundo, passará de 4,1% em 2025 para 3,8% em 2026 e 3,4% em 2027. “As projeções de inflação permanecem praticamente inalteradas face a outubro e preveem que a inflação regresse ao objetivo mais gradualmente nos EUA do que noutras grandes economias”, refere o WEO de janeiro.

Com o efeito das tarifas mais elevadas a materializar-se gradualmente, a inflação subjacente norte-americana deverá regressar ao objetivo de 2% do país durante 2027. “Na Zona Euro, a inflação geral está projetada para pairar em torno de 2%, com a inflação subjacente projetada a declinar para esse nível em 2027”, afirma o FMI.

No Reino Unido, a inflação deverá regressar ao objetivo até ao final de 2026, vaticinam os analistas do FMI. No Japão, a inflação deverá moderar em 2026 e convergir para o objetivo do país em 2027, enquanto na China, a inflação “deverá começar a subir a partir de níveis baixos, enquanto na Índia deverá regressar a níveis próximos dos objetivos, após uma descida acentuada em 2025 impulsionada pela moderação dos preços dos produtos alimentares.”

As projeções do FMI apontam ainda para que os preços das matérias-primas energéticas devam cair cerca de 7% em 2026, mais do que o projetado em outubro. “Os preços do petróleo continuam baixos e espera-se que diminuam ainda mais devido ao fraco crescimento da procura global e ao forte crescimento da oferta”, referem os analistas.

A política orçamental nas economias avançadas, particularmente na Alemanha, Japão e EUA deverá ser estimulante no curto prazo, mudando de uma postura moderadamente contracionista impulsionada por tarifas nos EUA.

Fundo Monetário Internacional

World Economic Outlook de janeiro

No plano da política monetária, o relatório do FMI aponta para que as taxas de juro de política monetária no Reino Unido e nos EUA continuem continuar a diminuir, “embora a velocidades diferentes”, enquanto o FMI antecipa que “a taxa de juro na Zona Euro se mantenha inalterada e que o Japão aumente a sua taxa gradualmente”.

Esta divergência entre bancos centrais reflete as diferentes trajetórias de inflação. Nos EUA, onde a inflação tem mostrado uma maior persistência, os cortes nas taxas de juro serão mais graduais do que no Reino Unido, onde o mercado de trabalho em enfraquecimento está a exercer pressão descendente sobre os salários e a inflação.

Na Zona Euro, a inflação projetada para pairar em torno de 2% em 2026 justifica uma manutenção das taxas, enquanto o Japão, com uma trajetória diferente, deverá aumentar as suas taxas de forma gradual.

Do lado da política orçamental, o cenário é de estímulo generalizado. “A política orçamental nas economias avançadas, particularmente na Alemanha, Japão e EUA deverá ser estimulante no curto prazo, mudando de uma postura moderadamente contracionista impulsionada por tarifas nos EUA.” Esta mudança é particularmente significativa para os EUA, que passa de uma política orçamental inicialmente restrita pela incerteza tarifária para uma posição de apoio à atividade económica.

O otimismo que o FMI projeta para a economia mundial em 2026 assenta em pilares sólidos, mas desigualmente distribuídos: enquanto os EUA e a China impulsionam a recuperação global com políticas de estímulo e tréguas comerciais, a Europa permanece mais cautelosa, com crescimento inferior à média histórica e expectativas contidas para a Zona Euro.

A desaceleração do comércio e a pressão inflacionista em recuo sugerem uma normalização económica gradual, mas a divergência entre bancos centrais revela as fragilidades estruturais subjacentes, nem todos os mercados avançados caminham ao mesmo ritmo.

Para Portugal e demais economias europeias, este cenário representa tanto uma oportunidade, com a melhoria das perspetivas globais, como um desafio, exigindo políticas orçamentais bem calibradas numa altura em que o crescimento da Zona Euro dependerá cada vez mais de reformas estruturais e investimento, não apenas de estímulos temporários.

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