Presidenciais 2026. Seguro vence Ventura em debate já visto
Líder do Chega procurava um ímpeto decisivo no único debate desta segunda volta mas não conseguiu superar um Seguro refugiado na personagem institucional.
Um debate é feito do momento, mas a leitura é também feita de expectativas. André Ventura entrava para este debate, o único da segunda volta das presidenciais, muito atrás nas sondagens, e, como tal, eram que tinha menos a perder e mais a ganhar com o confronto. Já António José Seguro entrava com o conforto das sondagens e a sensação de que bastaria não cometer erros e ter uma derrota estrondosa para sair por cima para o que resta da campanha. E foi isso que aconteceu. E, sobretudo, houve uma certa repetição de registos já conhecidos de debates anteriores.
Numa discussão em que André Ventura tinha de dar tudo, para tentar mudar a maré das sondagens, o candidato apoiado pelo Chega optou por uma postura um pouco mais contida do que o habitual e o visto noutros debates da primeira volta. Com uma taxa de rejeição elevada e visto como mais extremado, tem tentado encarnar uma personagem mais moderada, eventualmente para conquistar algum eleitorado fora do Chega e mais centrista. Talvez por isso, a primeira interrupção protagonizada por Ventura tenha chegado apenas quase aos quatro minutos, demonstrando uma tentativa de Ventura em controlar essa sua postura mais agressiva.

Ventura é sempre Ventura e também o foi na noite desta terça-feira. A sua estratégia assentou em dois vetores essenciais, apontados a Seguro: a colagem deste ao PS e ao que o candidato mais à direita considera a herança “desastrosa” dos socialistas, por um lado; e a argumentação de que Seguro não tem ideias concretas nem um perfil de ação, limitando-se a repetir generalidades e a pedir colaboração.
Seguro entrou no debate sabendo que lhe bastava não errar muito, e apostou numa pose mais institucional e assente numa postura positiva de construção de pontes, procurando resultados em vez de confronto público.
Há algumas frases que definem facilmente cada uma das estratégias. “Eu prefiro enganar-me e abanar o país do que deixar tudo na mesma”, afirmou Ventura, enquanto Seguro preferiu um “eu venho ajudar a que uma solução aconteça, eu venho para cooperar. Há ruído a mais na política portuguesa”.
Se Seguro se defendeu bem da colagem ao PS, lembrando que está fora da vida política há mais de uma década e que a sua candidatura não representa o Partido Socialista e tem um caráter apartidário (e lembrou os apoios de figuras de outros espetros políticos), já teve mais dificuldade em afastar a ideia de que repete generalidades e que tem poucas soluções concretas.
Ventura, por seu lado, atacou muito este ponto, mas também perdeu mais tempo a dizer que Seguro não tem propostas concretas do que a explicar as suas próprias propostas. Aliás, usou repetidamente o mesmo estratagema discursivo: quando lhe colocavam qualquer questão, antes de a responder atacava Seguro pelo que havia dito ou pelo que não havia dito, em vez de se focar nas suas propostas. Quando o fez, e tal como aconteceu noutros debates, entrou no campo executivo e legislativo, em áreas nas quais o Presidente não tem poderes constitucionais para decidir.
Mesmo com um Ventura mais comedido do que o habitual, e não o “animal feroz” que alguns esperavam, recorreu ao seu estilo de pegar num tema e levá-lo para onde se sente mais à vontade, misturando assuntos e levando Seguro a uma das tiradas da noite, ao classificar o discurso de Ventura como “política do empadão”, ao misturar tudo.
Os temas principais – pelo menos os dirigidos pelos jornalistas das três televisões – foram a saúde, a imigração, a justiça, a lei laboral, a Constituição e a política externa, os 75 minutos acabaram por não trazer muitos elementos de novo. Uma coisa ficou clara: qualquer que seja o Presidente escolhido pelos portugueses, a lei laboral, como está, não passa (e Ventura pode barrá-la no próprio Parlamento) e a Ministra da Saúde é um alvo preferencial, e vai ter vida difícil. Ventura esteve mais à vontade na imigração, o seu tema preferido, mas pior na justiça.
Na tabela de avaliação desenhada pelo ECO, Seguro venceu em todos os indicadores menos na “Competência comunicacional e liderança pública”, em que André Ventura continua a ser muito forte, dominando como poucos o registo televisivo.
Ao fim de 75 minutos, e apesar da receção eufórica dos apoiantes de Ventura à porta do MUDE – Museu do Design – na baixa pombalina, o líder do Chega não conseguiu a vitória retumbante de que precisava para inverter o que ditam as sondagens. Seguro defendeu-se bem da grande maioria dos ataques de Ventura, foi mais conservador e acabou por vencer o debate, mesmo jogando boa parte do tempo à defesa.
A campanha segue já de seguida.
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