Exclusivo Portugal tem 4,7 mil milhões de dívida dos EUA para pressionar Donald Trump

Se vários fundos nórdicos estão a vender obrigações dos EUA por receios de Trump, os gestores nacionais mantêm-se firmes e sem intenção de desinvestirem em Treasuries, pelo menos para já.

ECO Fast
  • Gestores de ativos portugueses mantêm a sua exposição a títulos de dívida dos EUA e não mostram intenção de desinvestirem.
  • A posição de Portugal em Treasuries supera os 4,7 mil milhões de euros, mas parte desta exposição é feita de forma indireta por via de ETF e contratos de futuros.
  • O que preocupa muitos investidores europeus é dívida americana estar a ficar cada vez mais cara de manter e a depreciação do dólar.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Enquanto alguns dos maiores fundos de pensões europeus anunciam publicamente que estão a vender títulos de dívida dos EUA por preocupações com as finanças públicas americanas e a instabilidade política criada por Donald Trump, os gestores de ativos portugueses mantêm-se firmes e não antecipam reduzir a exposição a Treasuries este ano.

A posição global de Portugal em títulos de dívida norte-americana atinge os 4,7 mil milhões de euros, segundo dados compilados pelo ECO, mas está longe de colocar o país entre os principais detentores mundiais desta classe de ativos. E, ao contrário do que acontece noutros países europeus, por cá não há sinais de uma estratégia de desinvestimento, pelo menos por enquanto.

A exposição nacional a Treasuries está concentrada sobretudo na “almofada” das pensões. O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) detinha no final de 2025 uma posição de 4,51 mil milhões de euros nestes ativos, cerca de 10,75% de uma carteira total de quase 42 mil milhões de euros.

No ano anterior, essa exposição era de 3,7 mil milhões de euros, representando 10,3% de um património de 35,9 mil milhões – o aumento absoluto da exposição do FEFSS reflete essencialmente o peso dos títulos norte-americanos no contexto dos soberanos na carteira do FEFSS e não uma aposta específica nos EUA, dado que o fundo no último ano aumentou 17% ou 6,1 mil milhões de euros.

Para este ano, o peso das Treasuries no portefólio do FEFSS não deverá também ter grandes alterações. “Não antecipamos alterar, em 2026, a estratégia nesta componente”, garante José Vidrago ao ECO.

A exposição à dívida norte-americana dos fundos portugueses é feita de forma indireta por via de contratos de futuros ou de fundos cotados (ETF).

Além do FEFSS, a exposição de Portugal a títulos de dívida dos EUA manifesta-se também através dos fundos de investimento e de pensões nacionais, ainda que em montantes bem mais modestos.

  • Segundo dados da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), os fundos de investimento apresentavam em dezembro uma posição de 79,5 milhões de euros a estes ativos.
  • Os fundos de pensões registavam 82,3 milhões de euros de ativos sob gestão, cerca de 0,4% da carteira total destes fundos, segundo dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF).

Além disso, a exposição à dívida norte-americana por parte da maioria dos fundos de investimento e de pensões portugueses não é feita de forma direta aos títulos do Tesouro americano, mas de forma indireta por via de contratos de futuros ou de fundos cotados (ETF) que replicam índices onde constam Treasuries, diluindo o risco e diversificando a carteira.

Aliás, é sobretudo feita por via de forma indireta. Segundo os dados mais recentes do Departamento do Tesouro dos EUA, apenas 43% da posição global de Portugal a Treasuries é feita de forma direta, num valor total de 2 mil milhões de euros. Há um ano, essa posição era quase três vezes superior, de quase 6 mil milhões de euros.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Esse posicionamento de forma indireta é bem espelhado na carteira dos fundos nacionais. “Os fundos de pensões da Ageas Pensões não têm posições diretas a títulos de dívida norte-americana”, refere Valdemar Duarte, diretor-geral da Ageas Pensões, acrescentando que a exposição é feita por via de ETF que agregam títulos de vários países, inclusive dos EUA.

O responsável da Ageas Pensões, que agrega vários fundos de pensões, revela ainda que as carteiras dos fundos da seguradora apresentam uma posição underweight a títulos de dívida americanos, com “níveis de exposição relativamente pequenos”, com a sua equipa de gestão a também não antecipar mexidas nessa exposição este ano.

Temos uma baixa exposição a títulos de dívida americana [e] desde há algum tempo que temos uma posição negativa no dólar e nas Treasuries.

Jorge Silveira Botelho

Responsável da BBVA AM Portugal

O mesmo se passa com outros gestores nacionais. Jorge Silveira Botelho, responsável da BBVA AM Portugal, explica ao ECO que a carteira de fundos moderados da gestora “tem cerca de 10% exposto a Treasuries”, mas que essa exposição é feita sobretudo através de contratos de futuros e títulos de curta duração, até cinco anos.

“Temos uma baixa exposição a títulos de dívida americana”, diz Jorge Silveira Botelho, acrescentando que essa exposição está coberta cambialmente, sublinhando ainda que “desde há algum tempo que temos uma posição negativa no dólar e nas Treasuries.” Ainda assim, o gestor não antecipa fazer qualquer mudança na exposição das carteiras dos fundos da BBVA este ano.

Carlos Pinto, gestor de carteiras de fundos da Optimize Investment Partners, também apresenta uma visão pouco otimista para os títulos de dívida americana. Apesar de também os fundos da Optimize não terem exposição direta às Treasuries, mas apenas através de algumas estratégias de obrigações agregadas americanas, “o peso global a essas estratégias, assim como a obrigações em dólares de empresas americanas estão com underweight muito expressivo, sendo que parte dessa exposição tem cobertura cambial.”

Sem grande entusiasmo relativamente às obrigações do Tesouro norte-americano está também João Zorro, responsável pelos Departamentos de Ações e Obrigações, GNB Gestão de Ativos. “Estamos underweight à dívida pública norte-americana neste momento”, notando que essa posição é mais relevante nas maturidades acima dos 10 anos (inclusive).

“A principal razão para este posicionamento está a relacionado com a forte possibilidade que atribuímos a que a economia norte-americana cresça acima das expectativas e que por isso não há a necessidade de cortes de taxas de juro para já”, refere o gestor.

O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS), gerido por José Vidrago, concentra mais de 4,5 mil milhões de euros aplicados em obrigações do Tesouro norte-americano, sendo de longe o principal investidor nacional em dívida dos EUA, com as Treasuries a representarem 10,75% do património de quase 42 mil milhões de euros de ativos sob gestão.Hugo Amaral/ECO

A onda “sell America” que Portugal ignora

O contraste de Portugal com outros países europeus é evidente. O fundo de pensões dinamarquês AkademikerPension anunciou há dias que vai vender a totalidade de Treasuries que detém em carteira no valor de 100 milhões de dólares até ao final do mês, citando preocupações com as finanças públicas americanas. “Os EUA não são basicamente um bom crédito e a longo prazo as finanças do governo dos EUA não são sustentáveis”, afirmou Anders Schelde, diretor de investimento do fundo, em declarações à Bloomberg.

A decisão coincide com o agravamento das tensões entre os EUA e a Dinamarca, na sequência das ameaças de Trump de impor tarifas aos países europeus caso os EUA não sejam autorizados a comprar a Gronelândia (apesar de em Davos o presidente americano ter voltado atrás nesta ameaça após uma reunião com secretário-geral da NATO).​

Na Suécia, a Alecta, o maior fundo de pensões privado do país, vendeu a maior parte das suas participações em Treasuries desde o início de 2025. O fundo detinha cerca de 100 mil milhões de coroas suecas (cerca de 11 mil milhões de dólares) no início do ano e vendeu entre 7,7 mil milhões a 8 mil milhões de dólares, segundo o jornal sueco Dagens Industri. Pablo Bernengo, diretor de investimento da Alecta, justificou a decisão com “a diminuição da previsibilidade da política dos EUA em combinação com grandes défices orçamentais e uma dívida nacional crescente”.

Nos Países Baixos, o ABP, o maior fundo de pensões da Europa, viu o valor das suas participações em Treasuries cair acentuadamente do final de 2024 para setembro de 2025.

Outros fundos nórdicos seguiram o mesmo caminho. O Laerernes Pension, também dinamarquês, reduziu este ano a sua exposição a Treasuries antes do conflito deste mês sobre a Gronelândia, citando preocupações com a sustentabilidade da dívida dos EUA e ameaças à independência da Reserva Federal. O sueco Folksam vendeu em 2024 a totalidade dos títulos do Tesouro americano que detinha, em parte para mitigar riscos antes das eleições presidenciais nos EUA.

Mesmo nos Países Baixos, o ABP, o maior fundo de pensões da Europa, viu o valor das suas participações em Treasuries cair acentuadamente do final de 2024 para setembro de 2025 – embora ainda detivesse 19 mil milhões de euros em títulos de dívida do governo dos EUA no final de setembro.

Ainda assim, nem todos os grandes fundos europeus seguem esta tendência. O fundo soberano da Noruega, avaliado em 1,8 biliões de euros e um dos maiores investidores do mundo, mantém mais de 180 mil milhões de dólares (cerca de 152 mil milhões de euros) em Treasuries, embora isso represente apenas cerca de 9% da sua carteira total, e não antecipa cortar essa exposição. Jens Stoltenberg, ministro das Finanças da Noruega, foi claro: “Não vemos razão para recuar dos EUA agora”, referiu Nicolai Tangen, CEO do fundo.

Apesar da narrativa “sell America” que ganhou força nos últimos meses, os dados mostram que a Europa, longe de abandonar os títulos do Tesouro americano, continuou inclusive a ser o maior comprador estrangeiro no ano passado de dívida americana.

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Segundo dados do Citi citados pela Reuters, a Europa representou 80% das compras estrangeiras de Treasuries entre abril e novembro do ano passado, sendo responsável por 240 mil milhões de euros do aumento total de 301 mil milhões em reservas estrangeiras destes títulos, contribuindo para que os países europeus detenham atualmente cerca de 40% do volume de Treasuries fora dos EUA.

Entre as grandes gestoras de ativos, o consenso é de cautela em relação aos títulos de dívida dos EUA de longa duração. “Continuamos underweight em dívida pública dos EUA. Preferimos estar na parte curta da curva”, referiu Elena Domecq, chief strategy officer do JP Morgan Asset Management para Portugal, esta terça-feira numa apresentação para jornalistas.

Questionada pelo ECO, Elena Domecq considera ainda improvável que a pressão de venda de títulos de dívida dos EUA por parte de alguns fundos europeus venha a ter impacto significativo no preço e na yield das Treasuries.

A Blackrock, a maior gestora de ativos do mundo, adopta uma posição semelhante no seu outlook para 2026. A maior gestora de ativos do mundo aponta para uma posição underweight em Treasuries de longa duração: “Vemos investidores a exigir mais prémio de prazo”, refere o relatório, apontando para a pressão dos elevados custos de serviço da dívida e compradores domésticos sensíveis aos preços.

Para os investidores europeus, há ainda o risco cambial. A depreciação do dólar tem sido um tema recorrente nos mercados, com o índice do dólar a cair 10,4% nos últimos 12 meses.

O que preocupa muitos investidores europeus é precisamente o facto da dívida americana estar a ficar cada vez mais cara de manter. O conceito técnico chama-se “prémio de prazo” – o retorno adicional que os investidores exigem para emprestar dinheiro aos EUA por prazos mais longos, como compensação pelo risco.

Durante anos este prémio esteve negativo, o que significava que os investidores estavam dispostos a aceitar retornos baixos apenas para estar seguros. Mas isso mudou.

Dados da Reserva Federal de Nova Iorque mostram que desde novembro este prémio voltou a subir e, em janeiro, chegou mesmo a atingir mais de 0,6 pontos percentuais, os níveis mais altos desde maio do ano passado. Isto reflete a ideia de que os investidores querem ser melhor pagos para emprestar aos EUA porque acreditam que o risco aumentou.

Mas este aumento reflete também preocupações crescentes com a sustentabilidade orçamental dos EUA, a imprevisibilidade da política de Trump e a enorme quantidade de nova dívida que o Tesouro americano terá de emitir que, só no primeiro trimestre, serão mais de 578 mil milhões de dólares.

Para os investidores europeus, há ainda o risco cambial. A depreciação do dólar tem sido um tema recorrente nos mercados, com o índice do dólar a cair 10,4% nos últimos 12 meses. Para investidores da Zona Euro, uma queda do dólar pode amplificar perdas em ativos denominados em dólares, mesmo que os mercados dos EUA continuem a subir. É por isso que vários gestores portugueses, como Jorge Silveira Botelho e Carlos Pinto, mantêm coberturas cambiais nas suas exposições aos EUA.

O que separa Portugal da onda “sell America” não é tanto uma visão mais otimista sobre as finanças públicas dos EUA, mas uma exposição já reduzida, indireta e gerida de forma cautelosa.

Apesar de toda a turbulência em torno dos ativos americanos, Portugal encontra-se numa posição relativamente confortável. A exposição a Treasuries é pequena em termos absolutos e também em termos relativos na carteira dos vários fundos.

Além disso, a maior parte da exposição dos fundos de investimento e dos fundos de pensões é feita de forma indireta e já está posicionada de forma defensiva, com uma preferência clara por títulos com maturidades mais curtas e com coberturas cambiais, e sem intenção de promover grandes alterações este ano.

Esta postura contrasta com a de alguns fundos nórdicos, que optaram por sair completamente de Treasuries, mas alinha-se com a de grandes investidores institucionais como o fundo soberano da Noruega, que consideram os títulos do Tesouro americano como parte de uma carteira diversificada e de longo prazo.

No fundo, o que separa Portugal da onda “sell America” não é tanto uma visão mais otimista sobre as finanças públicas dos EUA, até porque os gestores nacionais partilham muitas das preocupações dos seus pares nórdicos, mas exposição já reduzida, indireta e gerida de forma cautelosa.

Numa altura em que a incerteza grassa nos mercados financeiros e o debate sobre a sustentabilidade da dívida americana se intensifica, essa pode revelar-se a melhor estratégia: não fazer barulho, mas também não correr riscos desnecessários.

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