Fórmula 1? “Portugal precisa da boa vontade dos pilotos e lóbi muito forte”

Paulo Reis Mourão, professor e especialista em economia dos desportos motorizados, diz que Portugal precisa de convencer pilotos e organização para trazer a Fórmula 1. Estima custo de até 50 milhões.

O que é preciso fazer para ultrapassar a concorrência e assegurar o regresso da Fórmula 1 a Portugal? O professor Paulo Reis Mourão, especialista em economia dos desportos motorizados, considera que é necessária a “boa vontade dos pilotos e das equipas” e um “lóbi muito forte junto da Liberty Media”, a proprietária da competição, para receber novamente o ‘Grande Circo’ quase 20 anos depois do último Grande Prémio no país.

Trazer de volta a Fórmula 1 implicaria um custo na ordem dos 30 milhões a 50 milhões de euros, mas o investimento teria retorno na vida dos portugueses no médio e longo prazo, admite o professor de Economia da Universidade do Minho em entrevista ao ECO. “Quando existem boas provas de desporto de alta competição no nosso país, ainda que esse adepto não o perceba, ele vai, a seu tempo, ficar com maior rendimento e com maior qualidade de vida“, adianta.

Reis Mourão acabou de lançar um livro sobre “A Economia do MotoGP”, onde desvenda os valores e negócios por detrás da maior prova de motas do mundo, incluindo salários dos melhores pilotos do mundo. E aborda ainda o futebol português.

Acaba de publicar um novo livro com o título “A Economia do MotoGP” em conjunto com mais dois autores, os professores Anthony Macedo e María del Carmen Sánchez-Carreira. Embora seja uma prova com visibilidade mundial, ainda é um mundo secreto no que toca à parte do negócio e do dinheiro que movimenta. Este livro vem destapar esse mundo?

Sim, vem destapar, vem mostrar como uma modalidade como o MotoGP tem cada vez mais uma expressão económica significativa, não só em cada circuito como nos países acolhedores, como vem também dar um contributo especial à própria economia do desporto, mostrando que modalidades que, apesar de existirem enquanto campeonatos profissionais da escala mundial desde 1949, como é o caso do MotoGP, são modalidades que podem gerar não só dados de análises, como podem gerar também valor acrescentado, fluxos de turismo significativos e, acima de tudo, elas próprias mostrarem uma outra faceta da economia.

Vamos a esses números. Quais são os principais custos associados a uma equipa de MotoGP?

Os custos, como nós já explanamos no livro, são sempre muito significativos. Vai depender se a equipa é ela própria que produz motores, unidades motrizes, ou se, pelo contrário, é uma equipa satélite que compra motores aos produtores principais, como também vai depender, e é um dos detalhes que nós colocamos no nosso livro, da própria folha salarial dos pilotos e também da equipa técnica.

E depois há todo um conjunto de custos que também depende da ambição de cada equipa e do profissionalismo.

Estamos a falar de investimentos de que ordem de grandeza?

Estamos a falar sempre de investimentos que podem rondar largas dezenas de milhões de euros por equipa, sobretudo nas mais ambiciosas.

Pode-me dar-nos uma ideia de qual é que será o orçamento médio anual de uma equipa oficial em contraposição com uma equipa satélite?

Uma equipa satélite acaba por ter um orçamento muito mais reduzido, geralmente é cerca de um quinto ou menos de um quinto de uma equipa principal.

Agora, de certeza que equipas de primeira linha, que competem pelos lugares cimeiros em cada corrida assim como em cada campeonato, têm a volta de 80 a 150 milhões de euros de orçamento mínimo.

Paulo Reis Mourão, economista e professor na Universidade do Minho, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Esses valores são sustentáveis ou como é que as equipas elas próprias trabalham para tornar esse valor sustentável?

No sentido de que vemos a renovação da presença dessas equipas e também, de certa forma, a transfiguração de equipas de algumas épocas que geram outras equipas competitivas noutras épocas, podemos dizer que há aqui um conceito de sustentabilidade que vai perpassando ao longo das temporadas e ao longo das principais equipas.

As principais receitas — e como nós sabemos, ao contrário da Fórmula 1, aqui não existe prize money, sobretudo no MotoGP da escala principal, apesar de haver algo para o Moto2 e para o Moto3 — advêm dos patrocínios, dos contratos de merchandising, mas também de direitos televisivos que as próprias equipas conseguem a partir dos seus pilotos e a partir também dos seus diretores.

Do lado dos pilotos, falámos há pouco que representam uma parte importante dos custos de uma equipa. Qual é o nível salarial praticado no MotoGP?

Há uma grande heterogeneidade. Os pilotos mais competitivos — e que também estão associados às principais equipas — são responsáveis pela principal porção do orçamento dessas equipas.

Os valores só agora começam a ser despontados, porque há termos de confidencialidade na generalidade dos contratos entre cada equipa e cada piloto. Mas pilotos como Marc Márquez ou Valentino Rossi auferiam facilmente mais de 150, 200 milhões de euros por época.

Que retorno económico pode esperar um país — ou uma região como o Algarve — ao organizar uma etapa do MotoGP e também qual é o custo ou o investimento que se tem de fazer para organizar uma prova destas?

Os impactos económicos geralmente aproximam-se muito dos custos faturados de uma prova, mas aqui há uma crítica que nós, académicos, fazemos, porque a maioria dos relatórios permitem pouco escrutínio, quer por parte da sociedade civil, quer por parte da academia.

E aqui entram não só os custos de hospedagem, de acolhimento, mas obviamente os próprios fees que são negociados com identidades detentoras, até recentemente a Dorna e agora a Liberty Media. Estamos dentro de custos que, mesmo para uma prova como a do MotoGP de Portimão, estarão entre os 60 e os 70 milhões de euros, se somarmos, de facto, com uma maior abrangência, a generalidade dos custos.

Em circuitos na Bacia do Pacífico, no Sudeste Asiático, ou até outros mais históricos, por exemplo, na Península Itálica, temos impactos que ultrapassam os 100 milhões e os 120 milhões de euros.

Agora, mais uma vez, eu costumo dizer que o impacto económico é sempre um tema muito sensível, na medida em que muitas vezes falamos de valores intangíveis, isto é, falamos de uma capacidade de atrair investimento, de uma reputação que muitas vezes não é sentida diretamente pela população, sobretudo aquela que vive mais próxima do local, mas que é sentida pela generalidade da economia daquele país.

Vimos que o turismo é um dos principais retornos que se pode ter por via da organização do MotoGP. Há outros aspetos da vida económica onde a organização do MotoGP possa ter impacto?

Sim, existe desde logo a própria projeção internacional. Depois do MotoGP, outros investidores de outras modalidades, outros grupos económicos perceberão que aquele país, aquela economia, está recetiva a investimentos significativos e está recetiva a capitalizar a atratividade do investimento e do empreendedorismo que se consiga realizar. Há um conjunto futuro de benefícios que o acolhimento de qualidade de uma prova como o MotoGP, sobretudo de uma forma contínua, pode trazer.

Portugal tem sabido explorar esse potencial do MotoGP?

O próprio circuito reflete isso, porque é um circuito que está praticamente ocupado todo o ano com provas até de cariz mundial, não só com o MotoGP. Temos agora mais uma vez o dossiê da Fórmula 1, que seria impensável se não tivesse havido toda esta continuidade do MotoGP.

Depois há toda a leitura de que a evolução de investimento direto estrangeiro que o país consiga captar também se deve muito a este trabalho que muitas vezes parece invisível, parece ficar só concentrado num determinado fim de semana e, pelo contrário, é um trabalho que depois dá frutos no sentido diferido.

Nos últimos anos, o MotoGP teve enorme visibilidade cá em Portugal, sobretudo porque contamos com um piloto português no principal escalão. Miguel Oliveira está de saída, ou poderá estar de saída agora do MotoGP. Isto vai tornar a organização da prova em Portimão menos atrativa para Portugal, ou não vai ter assim grande influência?

Como português e como concidadão do Miguel Oliveira, temos de reconhecer que [a sua saída] impacta no nosso interesse particular e, de certa forma, no interesse coletivo.

Agora, quer me parecer que o público de uma prova como o MotoGP está garantido. Obviamente, estamos a falar de um recinto, o recinto é limitado. E, portanto, estamos a considerar que o público do MotoGP, como o MotoGP de Portimão, é um público, de certa forma, estável, que acompanha a modalidade e que tem também uma forte componente ibérica e mediterrânica e europeia. E, portanto, as provas no MotoGP, ainda que sem Miguel Oliveira, tem público garantido em Portimão.

Agora, há toda aqui uma projeção que o Miguel Oliveira deu e que vai continuar a dar. Tenho a certeza que pela sua juventude tem todo um potencial nas modalidades motorizadas do desporto profissional e que vai continuar, de facto, a emprestar ao país. Sendo um piloto que competiu nas mais altas esferas aqui do motociclismo, deu essa visibilidade e esperemos que em breve também outros concidadãos portugueses possam beneficiar com essa projeção.

Trazer a Fórmula 1? “Será preciso um lóbi muito forte”

O professor também é autor de um livro, Economia dos Desportos Motorizados – O caso da Fórmula 1. No mês passado, o primeiro-ministro anunciou que Portugal iria apresentar ou formalizar a sua candidatura à organização de um grande prémio. Entretanto, o responsável máximo da Fórmula 1, o italiano Stefano Domenicali, disse que esse regresso seria difícil. O que é que Portugal tem de fazer para superar a concorrência que acho que neste momento virá da Turquia e também da Alemanha, segundo disse o próprio Stefano Dominicali?

Bem, de facto, temos calendários que não são elásticos. Nós gostaríamos que fossem elásticos, mas nós compreendemos não só as razões logísticas, como até da própria competitividade dos pilotos. São seres humanos que se cansam e que deixam muito em pista e, portanto, não podemos também exigir um esforço exagerado dos próprios pilotos e das respetivas equipas. O calendário não pode acolher 54 provas, por exemplo, durante um ano, uma em cada fim de semana. Há esse limite.

Para Portugal ultrapassar uma concorrência tão forte é necessário não só ter as boas vontades de pilotos e chefes de equipa, como também ter um lóbi muito forte junto da Liberty Media.

Esse lóbi muito forte tem de ser substanciado por um consórcio capaz de entidades públicas e privadas associadas a algum circuito mais provável, neste caso, de modo que consiga ultrapassar os argumentos dos circuitos concorrentes.

Qual seria o custo para os cofres públicos com essa prova?

A estimativa do fee, da taxa de acolhimento que é pedida, para um caso como Portugal, nunca baixaria dos 30 milhões de euros. Não estou a prever que chegue aos 60 ou 70 milhões, como é o que é propalado e é pedido junto dos circuitos emergentes, nomeadamente da Península Arábica, onde também existe outro tipo de elasticidade, neste caso de procura. Eu diria que entre 30 a 50 milhões de euros seria o custo esperado desse fee.

Obviamente, depois há os custos associados de manutenção de infraestruturas, de hospedagem, também dependendo das exigências que são colocadas, poderiam atingir algumas dezenas de milhões de euros. Mas, mais uma vez, são provas que interessam ao país, que interessam a determinado tipo de investimento do país, ainda que se compreenda que um adepto de outra modalidade e que não se interesse nem pela Fórmula 1 ou pela MotoGP, não vai gostar de que parte dos seus impostos seja aplicado numa modalidade onde ele aparentemente não sente que está a ter algum benefício.

Para esse contribuinte, como é que explicaria esse investimento? Ou seja, o que é que Portugal teria a ganhar com esse investimento?

Bem, explicar-lhe é tão simples quanto isso, como a qualidade do ar que respira. Se calhar nós não percebemos nitidamente a qualidade do ar que respiramos, mas quando o ar que respiramos — que não vemos nem sentimos — é melhor, nós vivemos mais.

Do mesmo modo, quando existem boas provas de desporto de alta competição no nosso país, ainda que esse adepto não o perceba, ele vai, a seu tempo, ficar com maior rendimento e com maior qualidade de vida.

Quando existem boas provas de desporto de alta competição no nosso país, ainda que esse adepto não o perceba, ele vai, a seu tempo, ficar com maior rendimento e com maior qualidade de vida.

Paulo Reis Mourão

Economista e professor da Universidade do Minho

A última prova de Fórmula 1 em Portugal foi em 1996. Desde então a Fórmula 1 tem crescido de uma forma bastante expressiva e atualmente tem uma grande visibilidade a nível global. E isso foi conseguido graças a vários fatores, incluindo a série “Drive to Survive”, da Netflix. Quais foram os principais motores desse crescimento da Fórmula 1 nos últimos anos?

De facto, é fácil apontar, desde logo, a mudança de organizador, dos patrões da Fórmula 1, que durante décadas estavam associados ao grupo liderado pelo Bernie Ecclestone, uma figura emblemática e incontornável da Fórmula 1 e do desporto motorizado a nível mundial. Na última década passou para a Liberty Media, um grupo de origem norte-americana com um conjunto de investidores que estão a procurar potencializar o espaço mediático dos desportos motorizados, captando o próprio desporto motorizado em si como um palco onde as emoções são próximas da emoção de cidadão comum.

Séries como “Drive to Survive” permitem essa proximidade, que muitas vezes era uma proximidade que era pouco percetível para o não adepto. Através desse tipo de séries, ou de documentários, ou inclusive de peças jornalísticas e de livros, que, entretanto, têm saído e que têm sido promovidos pela Liberty Media, nós conseguimos entrar não só dentro do paddock, mas entramos na vida dos que trabalham no paddock.

E compreendemos aí que, apesar de serem seres humanos, eles estão expostos a condições que, por um lado, podem parecer condições super-heróis, com motores que batem velocidades que nós nem um terço podemos obter nas nossas estradas, até por razões de segurança, mas, por outro, também estão expostos a condições que nós raramente estamos.

E, ainda assim, no final do dia são pais de família, filhos de família, amigos dentro das suas comunidades.

Mas é só essa questão do marketing que está por trás deste sucesso? Ou há também uma reestruturação do próprio modelo de negócio?

O marketing explorou novos públicos, que estão muito atentos às redes sociais, ao streaming, inclusive. Um exemplo: colegas de turma do meu filho mais novo percebem de mecânica, no secundário, algo que à partida eu colocaria como pessoas já com outra formação. Isto mostra que existe uma formação que toda esta nova geração está a receber e que aproxima de modalidades competitivas como a Fórmula 1 ou MotoGP.

Paulo Reis Mourão, economista e professor na Universidade do Minho, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

“Liga portuguesa continua a ser uma liga apeadeiro”

Queria também olhar para o negócio de futebol com o professor, que sei que também é atento a esse fenómeno. Olhando para os dados mais recentes, como é que avalia a saúde financeira dos três grandes, Benfica, FC Porto e Sporting?

É uma saúde financeira que está sempre muito exposta, não só ao escrutínio público, mas também aos próprios ciclos eleitorais dos clubes. São ciclos eleitorais onde, curiosamente, a dimensão financeira está mais escrutinada do que a dimensão financeira no país durante o ciclo eleitoral do país.

Temos assistido a uma tentativa de estabilização dos ativos. Temos uma aposta, em termos de reestruturação de passivos, que passa pela emissão de obrigações, que é sempre muito contingente à oportunidade do momento. É raro o clube, seja Benfica, Sporting ou Porto, que emite obrigações quando os resultados desportivos não estão propriamente promissores. O ciclo desportivo geralmente é contracíclico do ciclo financeiro. Há uma recuperação financeira quando o ciclo desportivo de um desses grandes clubes fica periclitante e, pelo contrário, quando o ciclo desportivo está numa fase positiva, existe uma limitação das dimensões financeiras.

Ainda assim, não deixa de ser curioso que continuamos a ter, janela de transferência após janela de transferência, valores crescentes, positivos, na generalidade dos casos, não só dos três grandes, mas até dos outros clubes também, das receitas derivadas das transferências. Isto mostra a capacidade dos negociadores, dos intermediários, das firmas e dos agentes que fazem a intermediação nas transferências e que estão a atuar em Portugal, de gerar valor acrescentado.

Com a desvantagem de que a nossa liga continua a ser uma liga de área de serviço, como eu a apelido, ou liga apeadeiro. Os jogadores vêm para algum amadurecimento, sobretudo das esferas sul-americanas ou de outros campeonatos europeus secundários, para depois poderem, com a valorização que recebem na nossa liga, ir para uma das cinco ligas principais.

O último mercado de verão teve um reflexo num grande investimento da parte de Benfica, Porto e Sporting, como nunca houve. Vai comprometer as finanças dos clubes, foi um all-in desses clubes?

Ficamos surpreendidos porque não só Benfica, em ano eleitoral que seria esperado, mas o próprio Sporting, ainda com a expectativa das receitas da entrada direta nas Champions, como o próprio Porto, que passou por épocas muito conturbadas e até financeiramente encontrou recursos para ir ao mercado.

Obviamente as contrapartidas vão ser não só o dinheiro que advém das provas europeias, como a possibilidade de capitalizar nessa lógica de transferências rentáveis.

Se estamos a falar de movimentos que podem colocar os clubes em dificuldade acrescida, os próximos meses o confirmarão ou não, até em função das receitas que podem advir dessas competições europeias e da contrapartida de transferências valorizadoras nas janelas mais próximas.

Agora, tivemos ainda recentemente o mau exemplo do Boavista, um campeão nacional, como também antes já tínhamos tido, se quiserem, os campeões nacionais Belenenses.

E, neste momento, o Boavista está numa situação muito, muito, muito delicada, que não teve capacidade sequer de se inscrever na Liga 3.

E já se apresentou à insolvência, inclusivamente.

E temos aqui o caso de um campeão nacional, ainda que tenha sido por uma época, mas foi uma época que coroou ali um conjunto de épocas em que o Boavista, de facto, teve ali um desempenho especial na liga portuguesa e que, no entanto, cai para distritais à conta de má gestão financeira, de dívidas que foram acumulando, dívidas de vários credores, entre os quais jogadores.

Isto prova que a dimensão financeira é algo que deve ser sempre tido em conta na gestão dos clubes, sob o risco de haver esses maus exemplos.

Ainda assim, os grandes têm outro tipo de recursos que o Boavista, apesar de trazer essa historicidade de campeão nacional, não pode apresentar.

Isso explica, ou pode ajudar a explicar, porque é que um clube que apresenta capitais próprios negativos de mais de 100 milhões de euros continua com vitalidade. E falamos do FC Porto, que continua com capacidade para investir fortemente no mercado. É essa capacidade de continuar a atrair recursos, apesar da situação deficitária ao nível dos capitais próprios?

E onde entra também uma certa competência das direções financeiras dos próprios clubes. Atualmente, o CFO de um clube, de uma SAD, tem um papel tão importante como o presidente do clube ou da própria SAD. Em situações de capitais próprios negativos, em situações de passivos com dificuldades de reestruturação, a reputação, a capacidade negocial e a rede financeira desse CFO vai ajudar — não direi a eternizar a competência do clube — a que o clube se apetreche, pelo menos, para desafios de curto prazo.

O CFO de um clube tem um papel tão importante como o presidente. Em situações de capitais próprios negativos, em situações de passivos com dificuldades de reestruturação, a reputação, a capacidade negocial e a rede financeira desse CFO vai ajudar a que o clube se apetreche, pelo menos, para desafios de curto prazo.

Paulo Reis Mourão

Economista e professor da Universidade do Minho

Recentemente, FC Porto e Sporting criaram empresas para rentabilizar os seus estádios. É uma boa estratégia?

É uma estratégia que chega a Portugal já experimentada de outros lados. O naming dos estádios rentabiliza, a associação de uma marca ou de um patrocinador de longo termo a um estádio vai permitir capitalizar essa relação de parte a parte, como também vai permitir que haja investimentos de reestruturação da própria infraestrutura do estádio.

Hoje em dia, o estádio em si não é só um local onde as pessoas veem futebol. Quando vamos a centros desportivos nos EUA, mas até mesmo a nível da Europa, são centros em que as pessoas passam muito bem um dia, porque têm lojas, têm shoppings, têm espaços culturais, independentemente de serem aficionados ou não serem aficionados do clube. Existe ali todo um espaço de convívio, de despesa, se quisermos olhar para esse lado, mas também um espaço de socialização muito importante.

É isso que se espera também de clubes da dimensão que os grandes clubes em Portugal têm, e não só. Por exemplo, o Braga também tem estratégias nesse aspeto e outros clubes que têm uma massa adepta, como o Vitória de Guimarães, têm esse potencial não só para o estádio, mas também para as áreas envolventes do estádio.

É inevitável que SAD dos três grandes venham a ter essa presença de investidores estrangeiros?

Quando nós falamos de investidores, falamos de grupos, holdings ou consórcios que até se especializam neste tipo de investimento. Como há holdings que se especializam em investimento imobiliário, também há holdings de âmbito internacional que se especializam em investimento nos espaços desportivos e na capitalização desportiva. Aí é uma fonte de financiamento adicional aos quais, à partida, os clubes de futebol não podem olhar nem com distração, nem com repúdio, porque é uma fonte de financiamento adicional.

Tem de olhar com atenção. Não é porque é capital estrangeiro que tem que ser necessariamente bom capital para aquele determinado clube. E não é porque o capital estrangeiro associado àquela investidora, àquela holding, correu bem numa determinada experiência, numa segunda ou terceira divisão em Itália ou em Espanha, que necessariamente vai correr bem também num clube aqui em Portugal.

O que obriga, mais uma vez, os clubes, os seus associados e até os investidores existentes a apetrecharem-se não só com regras sólidas de transparência, de boa gestão da participação do dinheiro que chega, como também a colaborarem numa gestão ativa e rentabilizadora dos ativos do clube.

Sobre a centralização dos direitos televisivos dos jogos de futebol cá em Portugal, que vai ser uma realidade dentro de poucos anos, acredita que vai trazer uma maior justiça naquilo que é a distribuição das receitas dos direitos televisivos entre todos os clubes?

Não sei até que ponto, face aos modelos que estão a ser propalados — como académico teria de ter os dados que vão escapando, porque a discussão ainda está muito difusa –, que tipo de recursos é que seriam distribuídos, qual a forma de distribuição e depois, qual o impacto final em termos quer desportivos, quer de equilíbrio interno, quer depois de projeção do próprio futebol nacional.

Podemos ter, em última análise, uma liga igualitária, em que todos estão muito próximos, todos têm recursos parecidos, todos terminam com uma liga argelina ou tunisina, quase com diferença de 5 ou 6 pontos no final do campeonato, mas depois o futebol nacional não é exportável.

Não estando a negar nenhum modelo, não estando aqui a refutar também nenhuma hipótese, mas para testar, é necessário dados concretos, que ainda não existem no terreno.

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