Governos têm de se preparar para 2.ª vaga do surto. Nova quarentena seria “devastadora”

O diretor do departamento de Economia da OCDE avisa que desta vez os governos não têm desculpa para não estar preparados. É preciso medidas para evitar uma nova quarentena, que seria "devastadora".

Nas últimas semanas multiplicaram-se estimativas sobre o impacto da pandemia na economia, mas os economistas assumem as debilidades desse exercício: há muita incerteza sobre a duração e a dimensão da “pancada” no PIB. Álvaro Santos Pereira, diretor do departamento de Economia da OCDE, partilha desse sentimento, mas tem recomendações para o futuro. Desde logo, os governos devem preparar-se para uma eventual segunda vaga do vírus para tentar evitar uma nova quarentena, a qual seria “devastadora”, avisa o ex-ministro em entrevista ao ECO.

Neste momento, todos queremos saber qual será o impacto económico, mas para os economistas é muito difícil fazer previsões. É um grande desafio?

É um grande desafio porque há muita incerteza. Ainda estamos nas primeiras fases desta crise e principalmente não sabemos se vamos conseguir encontrar rapidamente tratamentos para combater este vírus, se vamos conseguir uma vacina rapidamente, se o vírus se vai propagar de uma forma avassaladora para os países do hemisfério sul e os países subdesenvolvidos. Há um certo número de incertezas que são demasiado elevadas para sermos demasiado categóricos em relação a este ou a aquele cenário.

Existem dois grandes cenários possíveis. Um é que acabam as medidas de confinamento e há um regresso gradual à vida normal — como agora a Áustria e a Alemanha estão calmamente a anunciar –, e começar a abrir os setores aos poucos e poucos. O outro cenário é ter uma pandemia que não é tão trágica a nível dos números, mas que demora mais tempo. Em 1918, a pandemia durou dois anos até 1920. A primeira vaga na primavera foi relativamente benigna e a pior vaga foi no outono. E foi trágico. Depois aconteceram outras vagas. Só se dissipou em 1920, dois anos depois.

Temos de nos preparar para um regresso do vírus?

Todos esperamos que isso não aconteça desta vez. Mas, por isso mesmo, como não sabemos… Se houver uma segunda vaga, provavelmente estas medidas de quarentena poderão não ser tão fortes, é bem possível, mas isso também quer dizer que os governos têm de estar preparados. Se os governos foram muitos deles apanhados um pouco de surpresa pela magnitude desta pandemia, não há desculpas para isso acontecer novamente no outono se o vírus voltar com força.

É importante, neste momento, na parte da saúde, que é a que mais interessa, que não só haja um reforço muito elevado do investimento nos materiais de proteção para que os profissionais de saúde estejam protegidos, mas para que também toda a gente seja protegida. Ou seja, investimento não só em ventiladores, mas também em material de proteção para as pessoas: uso massivo de máscaras, de luvas e obviamente avançar com um certo número de regras que estão a ser implementadas noutros países, principalmente na Ásia, por exemplo, de limitar a lotação de restaurantes ou outros espaços.

Esse tipo de coisas pode e deve acontecer. Temos de estar preparados o mais depressa possível para que, se houver uma segunda vaga de pandemia, os governos possam reagir de forma diferente. Se voltarmos a ter uma quarentena de dois ou três meses… o impacto — se agora já é avassalador — vai ser devastador se tivermos de impor este tipo de medidas outra vez.

Quando é que a OCDE atualizará suas previsões?

Há várias hipóteses para como as coisas vão evoluir. Mesmo que a economia recupere fortemente lá para julho, agosto e no final do ano, mesmo assim estimamos que o impacto total das medidas implementadas agora — com boas razões — vai ser de uma queda de cerca de 2% do PIB por cada mês de confinamento. Essa é a primeira estimativa.

Agora estamos a começar um processo natural dado que íamos lançar as novas previsões económicas em final de maio. Vai ser no início de junho e nessa altura já vamos ter previsões concretas para cada país, não só ao nível do PIB mas também desemprego, dívida pública, no défice, etc. Entretanto, vamos ter outras instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial que daqui a uma semana vão lançar as suas previsões económicas. Aí já vão fazer os cenários. As nossas previsões também vão ter de ter mais do que um cenário.

O cenário adverso traçado pelo Banco de Portugal aponta para uma recessão de 5,7%, a pior de sempre da democracia portuguesa. Tal deixaria o PIB no nível anterior à crise financeira. Isto não é devastador para um país que só há pouco recuperou de uma crise?

Ninguém estava à espera deste choque. É um choque que, contrariamente ao que aconteceu em 2011, 2012 e 2013, é simétrico. Toda a gente o sente. Todos os países o estão a sentir, enquanto na crise financeira, especialmente a parte da crise das dívidas soberanas europeias, isso não aconteceu. Obviamente que numa altura em que já tínhamos o desemprego em cerca de 6,5%, em que finalmente estávamos a conseguir controlar um pouco mais as contas públicas e a conseguir baixar a dívida pública, obviamente que este choque não vai ajudar.

A queda pronunciada do PIB ainda não sabemos quanto vai ser… São cenários do Banco de Portugal, tanto pode ser mais como pode ser menos. É mais provável que seja mais do que menos. É prematuro fazer um cenário, mas claramente que o impacto será muito substancial. 14% do nosso PIB está relacionado com o turismo e esse setor e outros como o das viagens, da construção e do próprio retalho serão muito afetados. É bem possível que se a pandemia se prolongar tenha um efeito muito grave nestes setores.

Mesmo que a primeira vaga da pandemia passe, será difícil que a economia volte ao antigo “normal”?

É bem possível que o impacto continue pelo menos nos cruzeiros, nas viagens internacionais ou mesmo nacionais, e nos restaurantes… É muito possível que as pessoas sejam mais cautelosas nos primeiros meses. Isso quer dizer que vai haver uma quebra no negócio para esses setores. Vai haver menos emprego ou um aumento do desemprego bastante grande relacionado com esses setores. Quando falamos de planos de reconstrução ou as tais “exit strategies”, penso que países como o nosso vão precisar de um programa dedicado ao turismo, possivelmente também à parte do retalho e outros setores, para exatamente tentar atenuar o impacto muito grande ao nível do emprego e do volume de negócios.

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